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Faroeste na região de Paris

Um ano depois da rebelião das periferias, a violência ameaça regressar em força.

O medo regressou aos subúrbios franceses, onde todos os dias se desenrolam espantosas cenas de vandalismo. Exactamente um ano após a revolta das periferias, é à volta de Paris que a situação é mais preocupante.

Na quinta-feira, às dez da manhã, em Bagnolet, a leste da capital, uma jovem empregada da RATP, a companhia de transportes da região de Paris, estava quase em estado de choque quando explicava ao EXPRESSO as razões que levaram a direcção a cancelar, durante esse dia, a circulação na linha 122.

“Esta noite, à uma da manhã, um grupo de jovens, alguns deles armados com armas de fogo, fizeram sair o motorista e os passageiros de um autocarro e depois conduziram-no para o bairro de La Noue, entraram com ele lá para dentro e deitaram-lhe fogo!”, disse.

A essa hora, os destroços do autocarro já não estavam na praça Lenine, entre as torres do bairro social. “A polícia levou-o logo às seis da manhã”, explicou um jovem de 13 anos, de origem magrebina. Visivelmente, tinha faltado à escola. Apenas restavam alguns vestígios do que se passara horas antes: duas árvores queimadas e um pouco de óleo no chão. A polícia fez um esforço enorme para apagar os traços do incêndio.

Como o EXPRESSO constatou um pouco mais tarde em Nanterre, a oeste de Paris, as autoridades não desejam que as imagens de caos que, há um ano, deram uma reputação desastrosa à França voltem a abrir os noticiários em todo o mundo.

Incidentes repetidos

Nesta grande aglomeração parisiense, localizada entre as chiques cidades de Neully-sur-Seine e La Defense, também se verificou uma autêntica cena de faroeste, na mesma noite. Um grupo de jovens, encapuçados como os de Bagnolet, entrou de rompante para o interior de um autocarro da linha 258, às 22 horas, numa das paragens da avenida Georges Clemenceau, e deitou-lhe fogo. Passageiros e motorista conseguiram fugir a tempo.

O ataque foi ousado porque a avenida é muito movimentada àquela hora. Em Nanterre, o esqueleto do autocarro também desapareceu pouco tempo depois e, ao fim da manhã, só restavam algumas placas do abrigo da paragem queimadas. Um comunicado colado no vidro apelava às “testemunhas do crime” para entrarem em contacto com a polícia.

“A polícia levou daqui os destroços pouco depois da meia-noite, foi tudo muito rápido!”, explicou Sébastien, um jovem residente, que nos mostrou no telemóvel um vídeo do autocarro a arder. As imagens do que se passou escasseiam e Sébastien queria vender as dele. “Eram seis ou sete encapuçados e começaram por deitar fogo aos assentos enquanto as pessoas fugiam a gritar”, explicou.

O medo instalou-se nas famílias porque, este ano, os alvos dos incendiários não são os automóveis estacionados, como na revolta anterior, mas os autocarros e todos os agentes com ligações, de perto ou de longe, ao Estado – dos professores aos polícias, passando pelos funcionários dos transportes.

Há várias semanas que se repetem os incidentes graves. Na tarde de domingo, algumas dezenas de jovens entraram em batalha campal com a polícia em Grigny, perto do aeroporto de Orly, depois de terem incendiado um autocarro e três automóveis. A polícia cercou um bairro da localidade e prendeu alguns jovens. Mas, na quarta-feira, novamente, houve novos ataques à pedrada a carros que circulavam e as forças de segurança tiveram de intervir.

Alegando falta de segurança, alguns agentes da RATP entraram em greve e, em grande parte das linhas das regiões mais sensíveis da coroa de Paris, já não se circula depois das 18 horas. Noutras, o itinerário dos autocarros é modificado sem aviso prévio, à última hora. O EXPRESSO constatou que as pessoas ficam sentadas nas paragens horas e horas à espera de um transporte. “Estes ataques são organizados e só servem à extrema-direita, vai ver a votação de Le Pen nas presidenciais!”, exclamou o patrão, português, de um restaurante de Nanterre, mesmo ao lado do local onde o autocarro foi incendiado.

 

ESTRATÉGIAS

1. Os serviços secretos franceses (RG) assinalam, numa nota ao Governo, que estão reunidas as condições para a repetição da violência do ano passado, sobretudo na região de Paris. Diz o relatório que as instituições serão, desta vez, os alvos preferidos da revolta juvenil e que os novos incidentes “não serão espontâneos, mas estruturados”

2. As forças policiais têm sido atacadas por grupos organizados depois de serem chamadas a intervir em assaltos ou incidentes inexistentes. Vários agentes foram hospitalizados na sequência destes ataques

3. O primeiro-ministro, Dominique de Villepin, garantiu que o seu Governo está a agir para acabar com as razões que levaram à revolta do ano passado. “Mas nem tudo pode ser feito num ano”, disse Villepin na quinta-feira, acrescentando que o Governo continuará a sua acção essencialmente em três domínios: acesso ao emprego dos jovens das zonas sensíveis; acompanhamento específico dos jovens na educação; e reforço da segurança nos bairros sociais. A juventude marginalizada e muitas associações consideram que os apoios do Estado são insuficientes e que “nada de fundamental mudou no último ano”