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Fábrica cinquentenária com fôlego redobrado

A passagem da produção de sabão azul para a glicerina dos sabonetes e cosméticos salvou a Sagilda da falência e levou-a à liderança do sector

É autêntica proeza uma pequena empresa industrial chegar aos 50 anos de vida. Mais ainda se decide recomeçar com um fôlego redobrado e adaptado aos novos tempos. E é isso, exactamente, o que se passa com a Sagilda, ou simplesmente “Fábrica de Sabão”, como é mais conhecida nas Caldas.

A velha fábrica emprega 35 trabalhadores e, hoje, já quase não faz sabão, mas sim sabonetes e cosméticos. Abastece algumas cadeias de supermercados, exporta para a Europa e África, é líder nos sabonetes de glicerina e produz para algumas grandes marcas internacionais. Tudo feito nas Águas Santas, junto ao nó da auto-estrada.

O meio século de história desta unidade industrial divide-se em duas partes: a primeira até à abertura das fronteiras, provocada pelo Mercado Comum e com a indústria nacional protegida. A outra, já com a plena abertura à concorrência internacional.

Criada em 1955, a Sagilda beneficiou durante décadas do proteccionismo industrial, das fronteiras estavam fechadas e de um vasto mercado garantido nas províncias do Ultramar. Alguns anos depois de 1986 (data em que Portugal aderiu à CEE), as grandes empresas multinacionais, como a Colgate e a Lever, entraram em pleno no mercado português e a fábrica caldense viveu dias difíceis. Muitos pensaram que iria fechar, mas a aposta na diversificação dos produtos, deu-lhe um novo fôlego. A Salgilda não voltou aos fabulosos lucros de antigamente, mas está consolidada e o seu único proprietário, Luís Manuel Paneiro Pinto, encara o futuro com algum optimismo.

Recuemos à década de 50, quando as Caldas da Rainha ainda tinha termas e algumas elites escolhiam a região para os seus períodos de lazer.

António João Alves Quintão Pinto, um empresário lisboeta que frequentava a cidade termal, formou então uma sociedade com o seu cunhado José Amat Garcia, de nacionalidade espanhola, que também costumava ir às Caldas. Os dois empresários estavam casados com duas irmãs - Maria de Lurdes Paneiro Pinto e Maria Luisa Paneiro Amat, vindas de Vila Nova da Barquinha, onde a sua família já possuía uma indústria artesanal de sabões.

Os dois homens resolvem, assim, fundar a Sagilda – Sabões Garantia Industrial, Lda, em 1955. O regime de Salazar mantinha à época, em pleno vigor, a Lei do Condicionamento Industrial, que se destinava a evitar a entrada de empresários nacionais ou estrangeiros em qualquer sector, sem autorização do governo. Tratava-se de uma barreira para proteger as fábricas já instaladas. Daí que, até para abrir uma simples unidade familiar fosse necessário alvará. E o único alvará disponível, que António Pinto e José Amat Garcia conseguem obter, é para o distrito de Leiria.

A escolha da localização da nova fábrica não foi difícil: ambos conheciam as Caldas da Rainha, ficava no sul do distrito, perto de Lisboa, e a decisão ficou automaticamente assumida. O lugar das Águas Santas, na altura um arrabalde da cidade, foi o escolhido. Aí se fez a fábrica, que começa, basicamente, com o sabão azul e branco (hoje descontinuado) e o sabão claro, do qual hoje já só se faz  matéria-prima para sabonetes.

José Amat Garcia morre poucos anos depois e, até 1995, será a sua mulher, Maria Luísa Paneiro Pinto, o rosto da empresa nas Caldas da Rainha. O outro sócio, António Pinto, ocupa-se da parte comercial, no escritório em Lisboa, onde é criada em 1967 a Foz Cosméticos, Lda., para comercializar a produção. É necessário, porém, que alguém se ocupe da parte técnica e é nessa altura que, por sugestão de um fornecedor de equipamento, a empresa contacta Jaime Buceta, de nacionalidade espanhola. Durante décadas, será ele o operacional desta indústria caldense, inclusive como sócio-gerente, após acordo com António Pinto e Maria Luísa para partilharem a sociedade.

Mudança de dono em época atribulada

Juridicamente a Sagilda não sofre alterações até 1995, altura em que Luís Manuel Paneiro Pinto, filho de António João Pinto, compra as quotas de toda a família e se torna o único proprietário da empresa. Fá-lo numa altura em que a fábrica não vive os seus melhores dias e em que as relações entre as duas famílias também não primam pela concórdia. O novo patrão da Sagilda e da Foz Cosméticos concentra em si todos os poderes: passa a ser proprietário único, director-técnico e gerente.

Com as dificuldades existentes à época na indústria, muitos vaticinam o fim rápido para a fábrica do sabão, mas o empresário honra os seus compromissos e consegue fazer descolar a empresa.

Luís Pinto tinha 15 anos quando a fábrica abriu e, apesar de ser filho de um dos patrões, os seus interesses não estavam para aí voltados. Cursou Engenharia Química no Instituto Superior Técnico, fez a tropa, trabalhou como quadro em algumas empresas, mas só em 1982 é que se dedica aos negócios da família, ingressando, na qualidade de gerente, na Sagilda. Assistiu às dificuldades criadas pelo fim do proteccionismo e a entrada de Portugal no Mercado Comum e à autêntica razia que o sector sofreu.

Até aos anos setenta o mercado dos sabões estava pulverizado em diversas empresas, embora houvesse algumas “grandes”: a Sociedade Nacional de Sabões (com fábrica em Xabregas), a Macedo & Coelho e a CUF, que tinha o seu complexo industrial no Barreiro. Todos faziam sabão em barra - fosse azul e branco, ou do tipo Clarim – e o mercado nacional era completado com uma forte presença na então denominada África portuguesa.

Mas o 25 de Abril e a descolonização, o desaparecimento dos alvarás, o desmantelamento das fronteiras, a entrada na CEE e o aparecimento dos grandes supermercados, transformam o sector. Entre os anos 80 e 90 verifica-se um fenómeno de concentração e já nada é como dantes.

A L’Oreal fechou a fábrica em Portugal e passou a trazer os seus produtos de França. A Beirsdorf (conhecida pelo desodorizante 8x4 e pelo creme Nívea) fez o mesmo e passou a abastecer os supermercados portugueses a partir da Alemanha. E a Wella e a Johnnson seguem a mesma tendência, importando das suas centrais europeias os produtos para o mercado português. As excepções são a Lever e a Colgate que, apesar de importarem os sabonetes da Inglaterra e da Itália, mantêm ainda alguma produção residual em Portugal.

Até a Sociedade Nacional de Sabões fechou as suas portas e a indústria portuguesa do sector vê-se afectada pelo ‘boom’ das grandes superfícies, que lhe faz baixar as margens de lucro. Paralelamente, o próprio uso do sabão é substituído pelo sabonete e detergentes líquidos e cremosos. Os hábitos de consumo alteram-se.

Poderia uma pequena fábrica das Caldas da Rainha sobreviver a estas mudanças?

A aposta na glicerina

“Até 1986 a empresa foi bastante rentável, mas eu tinha consciência de funcionar num mercado protegido. Depois da entrada na CEE fomos invadidos e as marcas que já existiam passaram a importar os seus produtos e deixaram de recorrer a nós” , conta Luís Pinto.

Em 1992, a Sagilda bate no fundo. Há uma crise profunda, mas o seu actual proprietário prefere desdramatizar e diz que foi uma “adaptação pessoal à nova situação”. Sob a sua gerência, a empresa quase deixa de fazer sabão e dedica-se aquilo que a haveria de salvar: os sabonetes em glicerina, um segmento do qual já detém 90% da quota do mercado português.

As pessoas gostam cada vez mais de produtos naturais e a glicerina enquadra-se nesse conceito. Não é um detergente, feito com produtos químicos, mas sim composto de gorduras animais. É bom para a pele. E não implica um processo produtivo particularmente complexo ou caro, para quem já tinha equipamentos de uma fábrica de sabão.

A Sagilda começa a exportar para Espanha. Tenta passar os Pirinéus. E consegue manter alguns mercados africanos, chegando depois aos Estados Unidos. O mercado externo representa já cerca de 20% da produção. Paralelamente, Luís Pinto não deixa fugir as multinacionais para as quais continua a assumir encomendas. Muita gente não sabe que, dentro dos invólucros de algumas marcas de prestígio, estão sabonetes (sólidos e líquidos) produzidos nas Caldas da Rainha. E também é a mesma fábrica que fornece a produção de marcas próprias e exclusivas para grandes superfícies..

Das linhas de produção da Sagilda saem hoje sabonetes sólidos (sobretudo de glicerina), sabonetes líquidos, champôs, leites e cremes de beleza e desodorizantes. A fábrica é a única produtora em Portugal da massa para sabonetes. Para Luís Pinto, o segredo da longevidade desta unidade fabril resume-se às palavras-chave, que ele próprio destaca: “Amor à empresa, trabalho, competência, dedicação e inovação”.

Como uma facturação média de cinco milhões de euros, nos últimos cinco anos, a Sagilda comemorou no ano passado as suas bodas de ouro e afixou mesmo um cartaz nas instalações a recordar a sua provecta idade.