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"Estes não são os meus remédios"

Não vai haver revisões em alta do valor pago por cada acção da PT é a promessa, explicada pelo facto de o prémio oferecido ser bastante mais alto hoje do que era a 6 de Fevereiro.

Está a quantos quilómetros do fim desta maratona?
Lançámos uma oferta sujeita ao acordo de toda a gente e a única coisa que conseguimos, e mesmo esta preliminar, foi o acordo da Autoridade da Concorrência (AdC).

Este era o passo mais difícil da operação?
Depende. Esta oferta foi lançada sujeita a que se alcançasse o acordo com todos os envolvidos. Não é o mais difícil, não torna os demais fáceis, apenas faz com que os outros passos necessários sejam possíveis. Sempre defendemos que a AdC deveria fazer uma análise global do sector das teecomunicações, não foi o que aconteceu. A operação com os remédios propostos já era muito boa para a concorrência no mercado total das telecomunicações. O que está em causa não é se vai haver dois operadores móveis, mas sim que vão existir três operadores de telecomunicações, presentes nos vários segmentos. Este é o nosso entendimento, mas não foi o entendimento da Autoridade. Não venceu a nossa teoria inicial, o que transformou este obstáculo num passo bastante mais difícil.

Estão surpreendidos com a alegada dureza dos remédios. Porquê, se estes são os remédios da Sonae?
Não, não são. Além dos remédios com que nos tínhamos comprometido publicamente, a AdC decidiu impor outros. A lei portuguesa tem a peculiaridade de fazer com que sejamos nós a sugerir os remédios que a AdC considera necessários para aprovar a operação. Estes são os que a Sonaecom propôs para resolver todos os temas que a AdC identificou.

O que vemos tem pouco a ver com o que apresentaram?
No móvel, tem muito pouco a ver. Não pensávamos que todos os conteúdos eram críticos, nem que era necessário fazer uma separação vertical da infra-estrutura e do negócio, além das redes.

Além dos remédios, são estipuladas cláusulas de salvaguarda. Vão ter gestão tutelada pela AdC? Por quanto tempo?
Sim, nos móveis os remédios serão aplicados em três anos.

Mesmo assim, vão para a frente. Estes remédios são o mínimo que a Sonae podia aceitar?
Não tenho a pretensão de dizer que a AdC atribuiu remédios desproporcionais. Não posso dizer que tenho mais razão que a AdC.

A PT agora é a mesma?
No essencial é, embora tenham mudado coisas importantes. Faz parte do risco dos negócios.

Estes remédios reduzem em quanto as sinergias que tinham avaliado conseguir?
Não são contas fáceis de fazer e não vamos divulgá-las, porque poderíamos ser acusados de fazer manipulação grosseira das cotações.

Houve manipulação para subir o valor das acções da PT?
Manipulação é uma palavra muito forte. A PT comunicou muitas ideias incorrectas, mas não digo que tenha feito manipulação. Disse que apareceriam ofertas concorrentes, que o preço era baixo, que a Sonae ia rever em alta a oferta.

Quando dizem que não têm intenção de rever o preço em alta, não estão a fazer manipulação do mercado?
Não podemos falar de decisões antes de as tomarmos. Sempre dissemos que a oferta era final.

E vão descer?
Não tomámos nenhuma decisão e não o vamos fazer antes da decisão final da AdC.

Não o assusta que existam lotes a serem transaccionados acima do preço da OPA, um sinal de que os accionistas podem não vender?
A mim não me assusta nada. Perder não me assusta.

É verdade que leva as mãos à cabeça a cada apresentação de resultados da PT e diz que 9,50 é de mais?
Temos preocupação com o valor da PT e os remédios apresentados acrescentam novos motivos de preocupação. Mas as coisas pioraram mais do que nós pensávamos.

O prémio oferecido é mais alto hoje do que a 6 de Fevereiro?
Estamos conscientes de que o prémio que oferecemos é substancialmente diferente. É mais alto e toda a gente sabe isso, embora diga o contrário por estratégia negocial. Temos uma ideia precisa do que queremos e a que custo, acima do qual não iremos. Não se deve entrar nestes processos com uma óptica de ganhar a qualquer preço.

Se perder, vende a Optimus?
Não!

Se ganhar, como vai conviver com accionistas que dizem não vender, como o BES?
Não sei se o BES não gosta da proposta. A única hipótese de o BES ficar na PT é considerar que o nosso projecto valoriza a empresa. Neste caso, é muito bem-vindo. Preferimos ficar com 100% da empresa, fundi-la com a Sonaecom e ficar com uma só cotada, mas lançamos a oferta de forma a que ambas possam ficar cotadas e, neste caso, trataremos bem e com igualdade todos os accionistas.

Henrique Granadeiro tornou a concorrência mais difícil?
Não, nem vemos uma concorrência com a administração da PT, que tem de fazer tudo para encontrar a maior valorização para os accionistas da empresa. Faz parte dos seus deveres. Na minha opinião, se tivessem sido brilhantes, teriam reconhecido o valor da nossa oferta e vindo falar connosco. Até agora não o fizeram. Mas as relações entre nós não são más, ao contrário do que pode parecer.

Foi convidado para a inauguração da adega de Henrique Granadeiro? Achou correcta a situação, com a operação em curso?
É normal. Não fui convidado, se calhar, se tivesse sido, teria ido.

Teria feito a mesma coisa?
Nunca estaria nesta situação porque desisti de ter negócios pessoais, mesmo que não conflituantes com a carreira de gestor. Cem por cento do meu tempo é dedicado ao trabalho, família e amigos. Sem qualquer carga negativa, porque tenho muito respeito por Granadeiro.

Pediram sigilo na divulgação dos remédios?
Só sobre os aspectos que podem influenciar os processos negociais.

A Sonae e a AdC estavam concertadas, como disse Nuno Vasconcellos?
Prefiro não responder a afirmações que não sei a que se devem.

Mantém a oferta?
Não posso responder. Só vamos registar a oferta se todos os pressupostos estiverem cumpridos.

Têm falado com os accionistas da PT?
Com todos aqueles que querem falar connosco.

A última operação em que a Sonae se viu envolvida com o Estado foi a Portucel, que correu mal para a Sonae. Mudaram muito desde então?
A Sonae mudou muito. Percebemos que a nossa dimensão pode provocar muitos anticorpos. Por isso, investimos muito fora de Portugal (todas as sub-holdings, com excepção da Distribuição, então focadas no crescimento internacional) e mudamos a nossa atitude, embora continuemos a ser escrupulosos cumpridores da lei.

Quer dizer que mantiveram os princípios mas mudaram o discurso?
A opinião pública e política não deveria ter receio da Sonae, pelo contrário. Mudámos o nosso estilo de dizer as coisas com muita convicção. Tornámo-nos mais pedagógicos. Até porque se quem de direito nos disser que não podemos fazer alguma coisa, não o faremos. Acho que já passou o tempo em que os responsáveis políticos tinham mais desconfiança da Sonae. Até o presidente do grupo mudou o seu estilo. Mas continuámos a achar que grupos como a Sonae deveriam ser o ideal para o desenvolvimento cívico e democrático do país.

Este novo estilo é já o seu, o do novo líder da Sonae?
Eu não sei quem será o novo líder do grupo.