Siga-nos

Perfil

Expresso

Atualidade / Arquivo

Esta é a marcha do desempregado!

Ao nono dia a Marcha pelo Desemprego, organizada pelo Bloco de Esquerda, atravessou Esmoriz. "Mas vocês estão mesmo a andar?". "Estamos a andar e a lutar", respondeu o eurodeputado Miguel Portas.

No meio do intenso nevoeiro que envolvia a Marginal de Espinho, agitavam-se as bandeiras vermelhas, pretas e verdes do BE. "Lá vai a marcha pelo emprego/para acabar com a exploração/sem direitos não há sossego".

Francisco Louçã encabeça a Marcha, distribui propaganda, sorrisos, dois dedos de conversa com os populares que por ali se juntam. Vai recebendo alguns acenos dos poucos banhistas que resistiam a uma tarde de Verão com o sol atrás das nuvens. Um monitor de uma escola de «surf» endereça-lhe um convite para surfar nas águas frias da Costa Verde. "Se quiser, é só vestir um destes fatos e pegar numa prancha". Louçã sorri, agradece, declina a proposta e segue caminho, agora atrás das gaitas de foles que impõem o ritmo à caminhada.

"Esta marcha já superou em muito as nossas expectativas. É o país real com os seus problemas e o seu sofrimento que temos encontrado", afirma Louça, ainda marcado pelo caso de uma empresa de tapetes em Silvalde, Espinho, que encerrara sem pagamento ou pré-aviso aos trabalhadores, deixando cerca de 50 operários no desemprego.

"Situações destas ocorrem frequentemente e é também contra elas que lutamos", diz. "Dr. Louçã espero que mantenha sempre essa postura. É que quando se chega dentro do sistema as pessoas acomodam-se", ouve. Francisco Louça agradece o conselho. "Não é um conselho, é mais um pedido".

A "arruada" de Espinho acaba no largo do casino. Encena-se uma peça de teatro sobre o trabalho precário, o tema do dia e os "marchantes" recolhem à pousada de juventude. À noite, o salão da junta de freguesia enche-se para a projecção do filme 'O Evangelho Segundo São Precário', uma ficção italiana que conta a história de quatro jovens trabalhadores a braços com os problemas do desemprego.

Marchar pelo futuro

Viseu, 12h30. Os autocarros que transportam a cerca de meia centena do núcleo permanente de participantes que acompanham a marcha, acabam de chegar. A partir daqui o trajecto em direcção à feira de São Mateus faz-se novamente a pé.

É domingo de manhã, dia 10 de Setembro, e há pouca gente no recinto. "Tal como os contractos, o Governo também está a prazo". É o que se lê num papel pendurado ao pescoço de Augusto Teixeira, reformado, já com quase 150 quilómetros nas pernas desde que iniciou a caminhada. Nos pés traz dois pequenos cartazes com o logótipo da Marcha, nas mãos uma pinça e um balde do lixo para onde vai metendo os vários "pratos precários confeccionados da Rua da Ementa [em alusão à rua da Ementa, onde se encontra a Sede Nacional do PS]: Contractos a Prazo, Opções Económicas, Trabalho Temporário, Flexibilidade". Reformado, afirma estar na Marcha pelo neto, pelo filho mais novo e pela companheira, mestrada em Psico-Pedagogia e desempregada.

"Já não estou a lutar por mim, mas pelo futuro dos mais novos", afirma, antes de rumar a Coimbra, para marchar do Fórum Coimbra ao Estádio, passando pela ponte Santa Clara e seguindo pela margem direita do Mondego.

Na voz do enfermeiro António Beja, 29 anos, já se nota rouquidão. Mas nunca enjeita a oportunidade de pegar no megafone e gritar mais algumas palavras de ordem ou cantar algumas músicas entoadas pelos marchantes.

"Felizmente não sou precário, ao contrário do que acontece com muitos colegas meus", refere. Afirma que se os sete dias de marcha deixam marcas físicas mas garante que "a força anímica vence tudo". Está na marcha desde o início e tirou duas semanas de férias para poder participar.

Tragédia social

Chega a noite. Nuno Antunes, 30 anos, ouve o concerto de «Regge» da Contrabanda sentado numa das cadeiras dispostas no Pátio da Inquisição. Nas costas do colete reflector amarelo lê-se "A Marcha Passa Por Aqui".

A história de Nuno podia ser igual à de muitos desempregados por este país fora. Mas não é. "Faço parte de um grupo em cuja taxa de desemprego ronda os 90% por cento. É o que se pode chamar de uma autêntica tragédia social".

Nuno é cego, está desempregado e vive com o pai por não ter possibilidades financeiras para ter casa própria. "Ainda por cima aos 30 anos, que é a idade em que todos queremos independência", diz.

Acompanha a marcha desde os primeiros dias. Mais do que os problemas da falta de emprego, Nuno Antunes, animador social e dirigente da ACAPO tem notado outras carências como os raros passeios em zonas de cariz rural e os carros mal estacionados em zonas urbanas.

"Não vou dizer que tem sido fácil porque estaria a mentir. É sempre complicado aprender todos os dias onde fica a casa de banho, o refeitório, passar por novos caminhos. Mas garanto que muito mais difícil é ir constantemente a entrevistas de emprego sabendo que não vou ser aceite não por falta de competência, mas porque sou cego. E se eu vou sempre a essas entrevistas, também tinha de ter coragem para vir à marcha", refere.

Depois do comício diário há aplausos. E volta a música, desta vez adaptada da popular série da SIC "Floribela": "Não tenho nada/ falta-me quase tudo/ sou rico em sonhos/ mas pobre sem futuro". No próximo domingo, dia 17, a Marcha pelo Emprego chega a Lisboa.