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"Espero que o Presidente Bush me oiça"

Craig Mello lamenta a falta de apoio do Governo americano à investigação médica. «Há muitas coisas que podíamos estar a fazer para ajudar as pessoas e que não podemos pela falta de financiamentos disponíveis», afirma o Nobel da Medicina.

Vai utilizar o dinheiro do prémio para investir na investigação?
Provavelmente algum irá para isso, mas não está reservado para investigação, é um prémio para os próprios cientistas fazerem o que lhes apetecer. Tal como muitos membros das faculdades, nunca tive um grande salário, portanto é maravilhoso ter este tipo de prémio. Quero retribuir com algum dinheiro para a comunidade, mas também quero pagar as minhas hipotecas e preparar a educação dos meus filhos. Tenho quatro filhos. A mais nova tem seis anos, está a ir muito bem, mas tem diabetes Tipo 1, o que é mais uma motivação para mim. Embora o meu trabalho não esteja directamente relacionado com a diabetes, fui inspirado durante toda a minha carreira pelo desenvolvimento do tratamento da diabetes, principalmente por causa da insulina. Muitas pessoas não percebem que a epidemia da diabetes que existe agora neste país é principalmente do Tipo 2, mas muita gente está agora familiarizada com a insulina como medicamento: este medicamento é composto por bactérias, as bactérias estão de facto a ler o gene humano à procura de insulina dentro da célula bacteriana e as bactérias são de forma surpreendente capazes de ler o código genético no gene humano e produzir a insulina de que necessitamos. Agora que foi feita essa descoberta, a clonagem do gene para produzir insulina humana foi feita pela primeira vez pela indústria farmacêutica em 1978. Antes disso os diabéticos necessitavam de insulina animal.

Essa evolução inspirou-o?
Foi uma inspiração espantosa para mim porque vi o tremendo potencial que este tipo de tecnologia tinha para ajudar as pessoas. Hoje em dia todos os que tomam insulina estão a receber um medicamento feito pela engenharia genética e pela tecnologia do ADN recombinante. Muito público leigo tem medo mas trata-se de uma tecnologia que salva vidas e que está a ter um impacto positivo na espécie humana. Acho que ninguém se apercebe bem do valor disto até ter um filho que necessita de tomar uma coisa todos os dias para sobreviver, que é a situação da minha filha. Sinto-me muito motivado para trabalhar arduamente todos os dias e descobrir novos medicamentos como a insulina, novas formas de ajudar os outros. Muitas pessoas sabem hoje as doenças de que sofrem. Sabem que têm uma doença porque há um gene defeituoso ou em falta, ou que sofreu uma mutação. O conhecimento disponível para toda a gente através da internet é enorme. Esta semana recebi muitos e-mails, muitos deles enviados por pessoas que sofrem dessas doenças, pedindo ajuda e perguntando: «Pode fazer alguma coisa?». E isso faz-me querer trabalhar ainda mais. Foi a primeira vez nos últimos cinco ou seis anos que se tornou possível desactivar os genes para ajudar as pessoas, e a maioria nem sequer se dá conta disso.

O Governo dos EUA está atento a tudo isto?
O nosso governo não compreende, as pessoas em Washington DC que decidem sobre o financiamento à investigação médica não entendem. Há muitas coisas que podíamos estar a fazer para ajudar estas pessoas e que não podemos pela falta de financiamentos disponíveis. Há portanto uma disparidade entre a tecnologia e o financiamento e é essa a mensagem que quero transmitir às pessoas em Washington DC. Espero que o Presidente Bush me oiça porque isto foi desenvolvido durante a sua administração. Esta tecnologia aconteceu desde que ele é Presidente. Nenhum outro Presidente teve uma oportunidade como esta para fazer algo que se parecesse com isto, e é essa a mensagem que lhe vou levar se chegar a encontrar-me com ele na Casa Branca. Vou-lhe dizer: «Esta é a sua oportunidade de ajudar pessoas e há aí tanta gente que precisa desesperadamente deste tipo de tratamentos que se torna uma verdadeira responsabilidade».

Talvez haja mais pessoas a dar-lhe ouvidos.
É realmente espantoso até que ponto o prestígio leva as pessoas a dar-nos ouvidos. Digo a mesma coisa há muito tempo e ninguém prestava atenção. O que é maravilhoso é saber que as pessoas agora me estão a ouvir e que terei oportunidade de dizer algumas palavras ao Presidente dos EUA. Das outras vezes convidou sempre os laureados com o Nobel para a Casa Branca, portanto estou ansioso por essa oportunidade para tentar motivar os nossos políticos para esta nova tecnologia. Sinto grande entusiasmo por poder participar nisto. Mas também sinto uma grande humildade. A comunidade científica no seu conjunto fez um grande progresso com este trabalho e as descobertas feitas por laboratórios de todo o mundo desempenharam um grande papel no desenvolvimento desta tecnologia. É, de facto, um grande esforço de equipa e precisamos de sentir o apoio do público, ele é o parceiro mais importante da equipa e vocês todos, jornalistas, também fazem parte dessa equipa. Todos lutamos pela Humanidade, pela melhoria dos cuidados de saúde para toda a gente em todo o mundo. Se por acaso são crentes, isto é um presente de Deus e seria um erro ignorá-lo.