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Esperma europeu está a perder qualidade

Nos últimos 50 anos a qualidade dos espermatozóides europeus piorou a olhos vistos. As razões são as de sempre: tabaco, stress, obesidade, e claro, contaminação ambiental.

Um estudo científico realizado em vários países, Portugal não incluído, já deixou o aviso que, nem tudo vai bem com os homens europeus, especialmente com a qualidade do seu sémen, que no passado meio século não tem parado de piorar. Em qualidade e quantidade.

O tema começou a preocupar a comunidade cientifica em 1992, com a publicação de um estudo no British Medical Journal sobre a perda da qualidade do sémen a nível mundial. O moroso trabalho de investigação foi feito analisando 61 trabalhos, publicados entre 1938 e 1991, recorrendo aos dados de 15 mil homens.

O estudo acabou por revelar que nestes 53 anos, o número de espermatozóides por mililitro ejaculado baixou de uns pujantes 113 milhões para uns magros 66, o que dá uma diminuição anual muito perto de 1 por cento (o mínimo estabelecido pelos padrões da Organização Mundial de Saúde é de 20 milhões de espermatozóides por ejaculação).

Vikings em último lugar

Recentemente o médico dinamarquês Niels Skakkebaek, um dos autores da publicação de 1992, resolveu pôr em pratica um estudo regional onde pudesse ser comparada a qualidade do sémen dos homens europeus. Os países participantes neste trabalho foram a Dinamarca, Finlândia, França, Espanha, Reino Unido, Suécia, Lituânia, Estónia e Letónia.

Os primeiros resultados revelaram muitas e importantes diferenças regionais. Os dinamarqueses com 44 milhões de espermatozóides por mililitro são os que apresentam pior resultado. No topo da tabela encontram-se os vizinhos bálticos: lituanos com 65 milhões, letões com 63, estónios com 62 e finlandeses com 61. O único representante ibérico, a Espanha, ficou-se pelo meio da tabela, com 52 milhões de espermatozóides por mililitro ejaculado.

A equipa de Skakkebaek explica esta descida na qualidade do sémen com factores que há muito contribuem para a perda da qualidade de vida dos europeus: tabaco, stress, sedentarismo, consumo de droga, hábitos alimentares e o uso de roupa justa, que aumenta a temperatura testicular. A tudo isto ainda se vêm juntar os compostos químicos ambientais, que não se vêem mas, pelos vistos, sentem-se.

A experiência espanhola

Os “Nuestros Hermanos” desconfiados com tudo o que vem de fora, resolveram fazer o trabalho de casa. Nicolás Olea, do Laboratório de Investigações Médicas do Hospital Clínico de Granada uniu esforços com Cristóbal Avivar, da área integrada de Biotecnologia do Hospital de Poniente de Almeria. Juntos analisaram o sémen de 300 voluntários de Almeria, com idades entre os 18 e os 23 anos.

Os parâmetros que regeram esta investigação foram os adoptados pela Organização Mundial de Saúde para avaliar a qualidade do esperma (que deve ter mais de 20 milhões de espermatozóides por milímetro ejaculado, 25% de espermatozóides com mobilidade adequada e pelo menos 30% com morfologia definida). Embora os espanhóis se enquadrem nestas médias, os resultados obtidos em Almeria revelam dados algo preocupantes: 14.5% dos examinados não cumpria o critério mínimo de concentração, o que quer dizer que por ejaculação os espermatozóides não chegavam aos 20 milhões e 32, 8% não superou a prova de mobilidade adequada.

“O efeito combinado dos compostos químicos que existem no ambiente, como os pesticidas persistentes (DDT) podem ter influenciado esta perda de qualidade seminal”, comentou Nicolás Olea. Embora não se possa estabelecer uma relação causa efeito directa entre estes dois factos, foi encontrada uma média de nove pesticidas proibidos no sangue dos 300 participantes do estudo. “Tratam-se de pesticidas já proibidos, mas a que estamos expostos desde o ventre materno”, acredita Olea.