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Especialistas comentam 'semana negra' de Sócrates

Recuo nas promessas abala imagem do PM. Mas especialistas valorizam os resultados da governação.

Luís Paixão Martins é director da agência de comunicação que trabalhou para José Sócrates na campanha para as últimas legislativas e para Cavaco Silva nas últimas presidenciais. António Cunha Vaz fez, entre outras, a campanha presidencial de Mário Soares e a de Carmona Rodrigues para a câmara de Lisboa. Ambos aceitaram responder a um inquérito do EXPRESSO sobre a já apelidada de "semana negra do Governo de José Sócrates". E ambos defendem que a credibilidade do primeiro-ministro não terá sido beliscada de forma irreparável. Decisivo, na opinião de ambos, serão os resultados da governação.

André Freire, politólogo e professor universitário, concorda que a eficácia da acção governativa é que é determinante, mas alerta que a acumulação de não verdades acaba por fazer mossa, sobretudo na credibilidade da classe política em geral.

Foram estas as questões colocadas pelo EXPRESSO:

1 – Quando se instala a ideia de que um primeiro-ministro não está a fazer o que prometeu ou, pior, está a fazer o que prometeu não fazer, a sua credibilidade entra, irremediavelmente, em perda?

2 – O que é melhor em termos de preservação da credibilidade de um político: assumir que a realidade impôs alterações na rota prevista, ou tentar fazer crer que nada mudou?

3 – A gestão política destes momentos difíceis deve ser delegada noutros membros do Governo ou deve ser o próprio primeiro-ministro a dar a cara?

4 – Há condições na opinião pública para os partidos continuarem a fazer as campanhas eleitorais na base de promessas simpáticas ou, pelo contrário, as campanhas de risco mínimo estarão esgotadas?

Luís Paixão Martins

1 – Pensando no que se tem passado nos últimos dias, não creio que se possa falar em ideia instalada. Está a haver uma tentativa de vários operadores políticos e mediáticos para que se retire essa conclusão, mas falta-nos distância para conseguir apurar os resultados da movimentação ou do somatório de movimentações. O essencial, no entanto, está, da parte de quem exerce o poder, em prosseguir o seu plano de trabalho, em disputar o terreno mediático com iniciativas próprias, enfim, em lutar para assegurar a sua agenda. Quem disse que o exercício do poder é fácil?

2 – Penso que o principal compromisso eleitoral do actual primeiro-ministro foi o de que, com ele, Portugal ia ter um rumo. De algum modo, foi idêntico o compromisso eleitoral do actual Presidente da República – que ía ajudar a definir e a prosseguir ‘’o rumo’’. Não tenho dúvidas de que os seus mandatos serão julgados essencialmente à luz desta ideia. O rumo mudou?

3 – Uma coisa é fazer a gestão política dos momentos difíceis e outra, bem diferente, é aceitar que sejam os adversários políticos a definir os “momentos difíceis”, o calendário e o cenário. Há dias, li um analista – que, aliás, muito admiro – a criticar a TV por não ter perguntado ao primeiro-ministro, que estava a anunciar novos investimentos, o que ele pensava de uma greve anunciada horas antes. Se a análise não tivesse apenas matriz ideológica, também se devia insurgir por a mesma TV por não ter perguntado ao porta-voz sindical o que pensava dos novos investimentos. Enfim, as nossas presenças e as nossas ausências não podem ser ditadas pelos adversários nem pela agenda mediática – que é, por definição, adversarial. Aliás, se existe uma observação que um consultor de marketing distanciado das coisas políticas pode ter, perante o desempenho do primeiro-ministro, é que, depois de um período de afirmação do poder que exigia o comportamento de um atleta dos 100 metros, estamos já na fase em que deve entrar em cena o corredor de fundo. O joelho já estará a 100%?

4 – De maneira simplificada, podemos dizer que tivemos, em Portugal, a fase das campanhas que “vendiam” ideologia, depois as que “vendiam” promessas e, a seguir, as que “vendiam” obra. No último ciclo eleitoral (Locais, Legislativas e Presidenciais), porque a imagem dos políticos estava no seu nível mais baixo, triunfaram os candidatos que conquistaram o território da credibilidade. Perderam aqueles que, ao fazer campanhas assentes em “promessas simpáticas”, optaram pelo “risco mínimo”. As campanhas triunfadoras não foram de “risco mínimo”, foram, isso sim, de “atracção mediática mínima”, exactamente porque as “promessas simpáticas” estavam ausentes delas. Não foi também o que ocorreu na generalidade das campanhas autárquicas e na presidencial triunfadoras?

António Cunha Vaz

1 – Um político, veja-se o exemplo de John Major, tem por vezes a morte anunciada sem que tal facto tenha aderência à realidade. Quem atenta contra a credibilidade de um PM, qualquer que ele seja, pode não ficar mais rico mas pode empobrecer o PM em causa. No caso de José Sócrates e se é verdade que algumas promessas eleitorais não estão a ser cumpridas à risca, a credibilidade do cidadão parece sobrepor-se a algumas adaptações do programa aleitoral à realidade do país. Felizmente para este PM quem tenta descredibilizá-lo não tem, de per si, o reconhecimento necessário para o conseguir. Não parece que tenha entrado em queda levante, quanto mais em queda irreversível.

2 – Julgo que o que tem sido feito é tentar passar a mensagem de que a realidade encontrada não foi a esperada e que, portanto, houve que mudar. Claro que aquilo que o PM consegue o mais das vezes passar não tem sido equivalente naquilo que alguns ministros conseguem passar. Diria que, talvez por isso, alguns ministros têm enfraquecido a imagem do PM.

3 – Este PM está assessorado, desde há muito, por uma equipa liderada – ao que julgo saber – por Pedro Silva Pereira e sabe assumir os méritos e deméritos da sua equipa. Note-se que em momentos de grande fragilidade de alguns membros do Governo, o PM assumiu a sua defesa. É, pois, normal, que assuma os méritos e deméritos de todo o corpo governamental.

4 – Sou muito crítico da opinião pública. Se contassem para algo as campanhas eleitorais e os programas eleitorais e se passados os períodos de governação comparássemos o prometido e o realizado, seria lógico que os dois maiores partidos já tivessem sido afastados do poder – pelo menos com a maiorias absolutas. Já por lá passaram várias vezes, já incumpriram várias vezes e os eleitores voltam a dar-lhes a sua confiança. Julgo que isto de ir a votos, numa democracia num país mais ou menos iletrado é muito similar ao clubismo futebolístico. Vota-se por simpatia e contra terceiros. E, assim como assim, se se hão-de dar más notícias em campanha, porque não se dão pretensas boas …

André Freire

1 – As discrepâncias entre o que se prometeu e o que se faz marcam mais quando estão frescas na memória e podem-se esquecer a prazo. Mas há um efeito de acumulação de não verdades que desgasta e fica.

2 – Vale sempre mais a pena falar verdade e pôr as coisas preto no branco do que deixar alimentar o descrédito. A questão das Scut, nomeadamente, não está nada bem explicada pelo Governo. O primeiro-ministro só tinha a ganhar em assumir que teve que mudar de rota e reconhecer isso preto no branco.

3 – Se é o primeiro-ministro o rosto do Governo, só há vantagens em ser ele a explicar o que de mais difícil o Governo está a fazer.

4 – As campanhas baseadas em promessas fáceis podem ter benefícios no imediato mas há um efeito mais perene e profundo desse tipo de campanhas que vai minando de descrédito a classe política em geral. Só aumentam a descrença e se for aumentando a sofisticação e a noção de cidadania, os próprios eleitores vão começar a exigir mais.