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"Escândalo do dossiê" foi decisivo

O escândalo rebentou no fim da primeira fase eleitoral. Lula da Silva, cujas sondagens indicavam que seria reeleito à primeira volta, acabou prejudicado.

O "escândalo do dossiê", que rebentou no final da primeira fase eleitoral, foi decisivo para levar a disputa presidencial à segunda volta e poderá continuar a prejudicar Lula da Silva, que enfrentará Geraldo Alckmin a 29 de Outubro.

O Presidente brasileiro, do Partido dos Trabalhadores (PT) que tinha as eleições praticamente ganhas na primeira volta, com todas as sondagens, durante os três meses de campanha, a indicarem a sua vitória já a 1 de Outubro, viu o quadro reverter-se após o "escândalo do dossiê".

A 15 de Setembro, a Polícia Federal (PF) prendeu dois homens ligados ao PT que tentaram comprar supostos documentos que relacionariam candidatos da oposição à "máfia dos sanguessugas", esquema de fraudes milionárias na compra de ambulâncias para o interior do Brasil.

A polícia apreendeu com os dois homens 648 mil euros em notas de real e dólar que seriam usados na negociação.

A imagens das pilhas de notas apreendidas foram divulgadas por um delegado da PF na última sexta-feira, mas a origem do dinheiro do PT ainda não foi esclarecida.

O suposto dossiê contra os candidatos do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) à presidência, Geraldo Alckmin, e ao governo de São Paulo, José Serra, pertencia ao empresário Luiz Antônio Vedoin, apontado como o chefe da "máfia dos sanguessugas".

Vedoin estava em liberdade porque colaborava com a polícia nas investigações sobre os "sanguessugas", mas voltou à prisão ao tentar vender as supostas provas aos membros do PT, que confessaram ter agido sob a orientação da direcção nacional do partido.

Um pedido da oposição fez com que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) abrisse uma investigação judicial contra o Presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e outros envolvidos para saber se houve, neste caso, abuso de poder para pagamentos de gastos eleitorais, o que poderia acarretar uma impugnação de um eventual segundo mandato de Lula da Silva.

A campanha para a segunda volta será muito combativa e Alckmin, que já recordou aos eleitores todos os escândalos que envolveram o governo de Lula da Silva, deverá reforçar a estratégia e seguir atentamente as investigações da Polícia Federal sobre o caso do dossiê.

Lula da Silva, que esteve curiosamente protegido por um "verniz de teflon" que não permitia os escândalos "grudarem" nele, como disse um conhecido cientista político, David Fleischer, professor da Universidade de Brasília (UnB), sai agora arranhado desse episódio provocado por companheiros do seu partido.

Ainda que favorito, com 48,61% dos votos válidos nesta primeira volta, o primeiro operário a chegar ao poder no Brasil poderá ter muitos problemas em relação ao seu adversário se o caso do "dossiê" se arrastar por mais este mês.

Um desfecho rápido das investigações, com a punição dos responsáveis, poderia ser útil a Lula da Silva e dar outro rumo à campanha, trazendo para o centro das atenções do eleitorado a discussão sobre os programas de governo do PT e do PSDB.

Geraldo Alckmin não pretende esquecer, entretanto, os escândalos que marcaram o governo Lula. O primeiro deles data de Fevereiro de 2004, quando a revista "Época" divulgou um vídeo, gravado em 2002, no qual um assessor do então ministro da Casa Civil José Dirceu surgia a negociar com empresários do jogo com a finalidade de arrecadar fundos para campanhas políticas do PT.

O governo lutou contra a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as denúncias, e o caso foi parar ao Supremo Tribunal Federal (STF).

A instalação da "CPI dos Bingos" só ocorreu em meados de 2005 e ainda trouxe de volta o caso Celso Daniel, do PT e presidente da Câmara da cidade paulista de Santo André, morto a tiro em Janeiro de 2002.

Para a família de Celso Daniel, a sua morte e a de mais sete testemunhas ligadas ao caso estão relacionadas com as denúncias de cobrança de dinheiro a empresários do sector de transportes, arrecadado ilegalmente pela Câmara Municipal, que supostamente teria como destino o PT.

Um outro vídeo, em que um então director dos Correios recebia três mil reais (1.000 euros) para favorecer uma empresa privada, provocou novas denúncias de irregularidades no governo em Maio de 2005.

O então presidente do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), ex- deputado Roberto Jefferson, acusado de envolvimento no esquema de fraudes dos Correios, acabou por fazer denúncias, em Junho de 2005, que geraram uma das mais graves crises políticas brasileiras.

O parlamentar acusou o PT de pagar 30 mil reais (10 mil euros) por mês a deputados da base aliada para votarem a favor do governo no Congresso – o famoso "mensalão".

As investigações do Congresso e também da Polícia Federal confirmaram as denúncias de que o PT comprava votos no Parlamento através de um "saco azul", com a ajuda de um empresário da área de publicidade, Marcos Valério de Souza.

O apelidado "valerioduto", que teria movimentado 2,6 mil milhões de reais (940 milhões de euros) de 1997 a 2005, era abastecido por empresas públicas e privadas.

A crise política derrubou ministros fortes do Presidente Lula, como José Dirceu da Casa Civil, acusado de ser o chefe do esquema do "mensalão", e Luiz Gushiken da Secretaria de Comunicação do Governo, além de dezenas de dirigentes de estatais e toda a direcção nacional do PT.

No final de Março do ano passado, o procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza, representante do Ministério Público Federal, denunciou ao Supremo Tribunal Federal 40 pessoas envolvidas no esquema que, segundo ele, era operado por uma "organização criminosa" comandada pelo Partido dos Trabalhadores.

No Congresso, entretanto, a maior marca do "mensalão" foi a impunidade, já que dos 19 deputados acusados formalmente por uma CPI de envolvimento no esquema, apenas três tiveram seus mandatos suspensos, entre eles Dirceu e Jefferson.

Outros quatro renunciaram e os restantes foram absolvidos pelo plenário da Câmara, conseguindo, portanto, manter os seus mandatos e voltarem a candidatar-se nestas eleições.

Durante toda a crise, o Presidente Lula sempre alegou que "não sabia de nada" e transmitiu uma imagem de que havia sido traído.

Durante a crise do "mensalão", outro escândalo chamou a atenção da opinião pública brasileira: a prisão, em Julho do ano passado, de José Adalberto Vieira da Silva.

Este membro do PT era assessor do irmão do ex-Presidente do partido José Genoíno e estava com 200 mil reais (73 mil euros) dentro de uma mala e 100 mil dólares (78 mil euros) nas cuecas.

Houve ainda o escândalo da quebra do sigilo bancário de um funcionário de uma casa em Brasília, que resultou na saída de Antonio Palocci, um dos ministros mais influentes do governo Lula, da pasta das Finanças, em Março deste ano.

A mansão onde trabalhava esse caseiro era usada para reuniões de um grupo aliado do governo, envolvido em denúncias de corrupção, e para festas com prostitutas.

O caseiro Francenildo Costa denunciou que Palocci frequentava a casa e, logo depois, teve o seu sigilo bancário violado, crime atribuído pela Polícia Federal ao então ministro das Finanças.

Palocci também foi indiciado por envolvimento na chamada "máfia do lixo", esquema de fraudes no serviço de limpeza pública de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, que tinha por objectivo desviar recursos para campanhas eleitorais do PT.

Os crimes dizem respeito ao período em que Antonio Palocci presidiu pela segunda vez à Câmara da cidade, entre 2001 e 2002. Segundo as investigações da polícia, as irregularidades podem ter causado prejuízos de até 30 milhões de reais (11 milhões de euros) aos cofres públicos da cidade.

Outro ex-ministro de Lula da Silva que foi indiciado e denunciado à Justiça pelo Ministério Público por corrupção e associação criminosa foi o da Saúde, Humberto Costa, juntamente com o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, que também esteve no centro do escândalo do "mensalão".

Ambos são acusados de envolvimento com a "máfia dos vampiros", um esquema de fraudes em concursos para a compra de produtos derivados do sangue, entre 1990 e 2003, que podem chegar a 2,3 mil milhões de reais (837 milhões de euros).

A sociedade brasileira soube ainda da existência da "máfia dos sanguessugas" responsável por fraudes na ordem de 130 milhões de reais (47 milhões de euros) em compras de ambulâncias para o interior do país.

O esquema contou com a ajuda de mais de 80 parlamentares de vários partidos, que recebiam dinheiro em troca da apresentação de emendas ao Orçamento da União para a compra das ambulâncias, adquiridas a preços até 110 por cento superiores ao valor real.

Foram as investigações sobre este escândalo que permitiram à Polícia Federal descobrir o caso "do dossiê", que acabou por levar a campanha presidencial para a segunda volta.