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Em cada horta uma história

Alfredo Silva visita diariamente a sua horta em Marvila. Há décadas

Pedro Chaveca

Platão escreveu que existem três espécies de homens: os vivos, os mortos e os que andam no mar. Não teria sido injusto se incluísse uma quarta: os que trabalham a terra.

Pedro Chaveca

A maioria dos terrenos usados para fins hortícolas na capital pertencem à Câmara Municipal de Lisboa (CML) e, até se decidir o que fazer, a terra está literalmente nas mãos de quem a trabalha.

Maria e José dos Santos são ambos reformados e na casa dos 60 anos - ela da indústria têxtil, ele da TAP. Vindos da Beira Baixa, trabalham 500m2 de terra numa horta sobranceira ao centro comercial Colombo. Estão inscritos há 27 anos na Junta de Freguesia de Benfica e na Câmara. "Quando construírem aqui, a Câmara, se tiver terrenos disponíveis, tem de nos dar um para cultivarmos", acredita José.

Nas mais de 20 parcelas que formam este conjunto de hortas, a maioria dos hortelões são reformados. Do que é por aqui plantado, as couves-galegas - que se destacam das lusitanas pelo enorme pé - são as que mais dão nas vistas. Os nabos, cenouras, alfaces, cebolas e batatas compõem o resto do terreno. Do que plantam é tudo distribuído por amigos e familiares e, claro, para consumo próprio.

Maximino Cardoso, aposentado da Carris e há 34 anos com uma horta na zona, vê isto como "um escape" e uma ligação a Trás-os-Montes, onde viveu até aos 20 anos, saindo de lá para cumprir a tropa e fazer a guerra. Durante dois anos e meio Moçambique foi a sua casa.

Vem todas as manhãs, tardes raramente, até porque o "gancho" que mantém como complemento da reforma e a mãe a precisar de auxílio não permitem grande liberdade de horários. "Há uns anos fizeram um concurso para eleger a horta mais bonita. Quem ganhou foi um colega meu da Carris, 400 contos (dois mil euros). Vá lá ver, é nas Portas de Benfica."

A horta que rendeu dois mil euros

Ao entrar no número 797 da Estrada de Benfica, sente-se o cheiro a terra húmida e cultivada. António Barroqueiro de 73 anos, natural de Castelo Novo, Fundão, está nas Portas de Benfica há 20 anos.

Acredita também ter direitos sobre aquela que considera ser a sua propriedade. "Houve um protocolo com a Câmara e pago 13 contos [65 euros] de renda." Confia que se tiver de sair lhe será dado um novo terreno. Além de cultivar abóboras, alfaces, tomates, pimentos e, claro, couves, quando Lisboa festeja o seu santo padroeiro planta tantos manjericos quantos consegue.

Vencedor do 1.º prémio atribuído em 2000 pela Culturgest à melhor horta - cujos critérios incluíam ecologia, organização, eficácia dos meios em relação ao terreno e interesse científico -, António arrecadou um vale de dois mil euros em material agrícola.

Contra o desemprego, sachar, sachar

No Vale de Chelas as hortas são trabalhadas por locais. Gente como Hélder, de 30 anos e desempregado, que vê na sua pequena parcela uma ajuda para a dieta familiar - agora mais exigente com a chegada do filho que requer atenções redobradas e, claro, abundância de sopas. Abençoada horta.

Mais abaixo, um operador de máquinas no activo sacha o seu terreno e, assim que se apresenta, pede o anonimato. Natural de Resende e em Lisboa há quase 30 anos, desce à horta quando pode. O que cultiva é o costume: couves, batatas, alfaces, salsa, coentros, cebolas. Apesar de morar perto, já viu a horta ser roubada e garante que às oito da noite já não é seguro "andar na rua".

No entanto, para a Câmara a preocupação vai além da insegurança e entra no domínio da saúde pública e da destruição de equipamento. "Em Chelas a água utilizada para a rega é boa, ao contrário da zona da actual Feira do Relógio, onde se chegam a partir canos de esgoto para a irrigação", garante fonte da Divisão de Estudos e Projectos da autarquia.

Todas diferentes, todas iguais

Um dos homens que personifica a contenda entre as hortas e o IC19 é António Manuel Rosário, cabo-verdiano de 65 anos. Este antigo pedreiro no seu país cultivava manga, milho e banana, agora vira-se para as batatas, couves, alhos e abóboras. Tudo para consumo da família.

De um dos lados de uma estrada desactivada estão as hortas dos africanos, do outro, as dos hortelões brancos. Homem de fé, reage efusivamente quando questionado se se dá bem com os seus vizinhos, "Claro. Não é a cor que interessa, isso são só asneiras. O que interessa é a nossa alma e essas são todas da mesma cor. Sem brancos nem pretos."

Menos dado à fé é José Pinto, de 71 anos, transmontano de Lamego. Há 40 anos a morar no bairro do Zambujal, onde criou os filhos e vive consternado com a realidade da zona. "Os roubos acontecem de dia e de noite, é quando eles querem". A horta surge quase como escape. Um dia apeteceu-lhe e a terra que hoje lavra tornou-se sua. "A Câmara só exigiu que não construíssemos barracas, de resto deixa-nos utilizar os terrenos".

Favas, suor e chuva

José dos Santos - o homem com a horta com vista para o Colombo -, passa a maior parte dos dias a semear, cavar e regar. "É desse poço que tiramos a água. Quando seca, vamos àquela nora", aponta José para um terreno privado. Quanto a adubos, sempre que pode recorre ao estrume dado pelos circos.

José fita as favas plantadas, intercalando o olhar entre a terra semeada e o céu nublado. É que os homens que vêem na terra o seu sustento ou o objecto da sua dedicação não têm dúvidas quanto ao que fazer em dia de chuva: não se trabalha.

Disciplinar o indisciplinável

Quem não partilha do optimismo dos hortelões - pelo menos dos mais idosos - é Gonçalo Ribeiro Telles, arquitecto paisagista e antigo vereador da CML. No que diz respeito a direitos adquiridos é frontal e inequívoco: "não têm direitos nenhuns". O PDM (Plano Director Municipal) em que trabalhou não foi aceite e os parques hortícolas, que poderiam ter sido uma realidade em Lisboa, aliás, como o são em cidades tão díspares como Paris, Chicago ou Praga, nunca chegaram a ver a luz do dia.

"Serviria para disciplinar o desenho das hortas", garante o arquitecto. A seguir ao muito falado corredor verde, também a ideia dos parques hortícolas parece que vai ter de esperar até ver a luz do dia.

Rosário Salema, tal como Gonçalo Ribeiro Telles, é arquitecta paisagista e foi a comissária e presidente do júri (composto por mais duas pessoas, um engenheiro agrónomo e um arquitecto) que elegeu a melhor horta - a tal das Portas de Benfica - de um total de quase 50. "Algumas pessoas não concorreram porque temeram pelas suas hortas. A maioria está ilegal".

A ideia nasceu do então director da Cultugest, António Pinto Ribeiro, e tinha como objectivo atribuir o prémio ao melhor jardim lisboeta. Rosário Salema teve uma visão diferente: "com um prémio destes, só iam aparecer senhoras da Lapa com os seus jardins todos bonitos e arranjados, e pensei que seria mais interessante trabalhar com um público pouco habituado à Culturgest, dando destaque à relação entre a cidade e o campo". Para a arquitecta, o objectivo foi alcançado.

No entanto, o concurso realizado em 2000 permanece um exemplo solitário, já que desde aí a Culturgest não voltou mais a organizar nada de semelhante. Nem a Culturgest nem nenhuma outra entidade.

 

De pequenino se mostra o pepino

A Quinta Pedagógica dos Olivais é uma excelente opção para quem quer conhecer a ruralidade sem ter de se deslocar a hortas privadas ou sair de Lisboa.

Desde Abril de 1996 que este oásis (onde trabalham vinte pessoas) organiza dezenas de actividades para trazer o campo até à cidade. Estábulos, currais, pocilgas e galinheiros fazem parte do circuito didáctico, cada um com os seus animais característicos - da cabra algarvia ao cavalo lusitano são todos de espécies portuguesas.

Dentro das actividades ao dispor de quem se inscreve encontram-se vários ateliers, onde se pode aprender a fazer pão, compotas, queijo ou manteiga.

Sandra Moutinho, a engenheira biofísica coordenadora da quinta, assegura que existem muitos projectos em curso, nomeadamente de inclusão social através da Cercis, ou um protocolo com o tribunal de menores, em que a reabilitação é feita através de serviços prestados na quinta.

As visitas escolares também são frequentes, embora, naturalmente, tenham lugar durante a semana. "Aos fins-de-semana é a vez dos grupos de familiares e amigos", adianta a coordenadora. Quanto a visitas guiadas, só com marcação.

Do que se produz nas hortas "nada vai para o comércio ou para fora da quinta. Fica tudo para a confecção dos produtos da horta e para os animais", garante Sandra Moutinho.

Novembro de cinzas

Existem ainda os dias temáticos, como o dia da floresta, o da apanha da azeitona ou o dia dedicado à fabricação de espantalhos (Fevereiro), à sua destruição pelo fogo (Novembro) e ao respectivo lançamento das cinzas pelos terrenos semeados, para dar sorte às culturas. De Inverno, reza a tradição, não há espantalhos. Como tanta coisa em Portugal, também os espantalhos sofrem com os ditames da sazonalidade.

Em relação aos seus vizinhos hortelões de Chelas, Marvila e Beato, pouco tem a dizer e a colaboração é inexistente. "Não há qualquer tipo de parceria, até porque contamos com muito trabalho de voluntariado", mas sublinha que estão dispostos a ajudar, caso solicitados e na medida do possível. "Claro que estamos ao dispor se precisarem de algum apoio ou informações técnicas".