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"Em Angola existem oportunidades permanentes"

Os próximos 15 anos são decisivos para os angolanos, mas muito relevantes para os portugueses, se quisermos ter uma verdadeira parceria com Angola, afirma.

Ernâni Lopes, 65 anos, presidente da empresa de consultoria SaeR, diz que Angola conhecerá nos próximos quinze anos um processo de enorme crescimento económico e social. Por isso, sublinha que esse período será decisivo para os angolanos, mas muito relevante para os portugueses, que, para além da área empresarial, deverão apostar na educação, formação e saúde, mas também na cooperação militar e na consolidação do sistema jurídico angolano.

Porque escolheu as relações Portugal-Angola para tema da 18.º conferência da SaeR?
Há uma mudança de patamar da realidade estrutural de Angola, que está naquilo que me parecem ser os primeiros anos de, espero bem, um período de dez a quinze anos de um profundo processo de desenvolvimento económico e social do país, do Estado e da sociedade angolanas. Considerando nós que este é um fenómeno de fundo, não um episódio conjuntural, é obviamente decisivo para os angolanos, mas muito relevante para os portugueses. E portanto importa eliminar definitivamente qualquer relação ou abordagem superficial leviana, do tipo "negócios em Angola", e eliminada essa verdadeira ratoeira, ter uma base séria, fundamentada de conhecimento da realidade das relações Portugal-Angola e de preparação das actividades.

O cerne da parceria Portugal-Angola não deve ultrapassar em muito a relação económica?
É um não, primeiro, e um sim depois. O não: é evidente que a base económica é indispensável, no sentido mais claro e inequívoco do termo. Chamar-lhe o cerne não me parece que seja sequer razoável, quanto mais desejável. Porquê? Primeiro: há uma relação vivencial entre os povos angolano e português, assente numa matriz cultural importantíssima, assente numa base multigeneracional de relação pessoal, intrínseca, física, que, mesmo como economista não lhe quero chamar um espantoso capital herdado, porque dar-lhe essa designação seria diminuí-la. De facto, é um capital herdado. Mas é muito mais do que isso. O não significa um sim que vale muito mais. Há uma exigência de uma base económica, mas essa base económica é um componente e não o cerne. É apenas e em apenas vai quase tudo, muito importante. Nota de complemento: tem de ser bem feito.

O sim sem qualquer margem de dúvidas e sem quaisquer hesitações, a matriz das relações Portugal-Angola são uma parceria de que a vida empresarial é uma componente. E aqui temos uma realidade e uma ideia para o futuro.

A realidade é percebermos, de um lado e doutro, o bom ponto de partida de que dispomos. É um acumulo de uma herança secular mais ou menos expressa, mais ou menos formalizada, sobretudo sentida e vivida, e uma circunstância particularmente importante dos últimos cinco anos. Essas duas circunstâncias apontam, é a minha convicção, para uma grande possibilidade de conjugação ao longo da próxima década e meia, duas décadas.

E portanto não posso, a título algum, ver a relação Portugal-Angola como tendo um cerne puramente económico. Não tem. Tem um cerne histórico-cultural e um componente económico absolutamente inultrapassável. Sem ele, o outro componente apaga-se. E apaga-se ao longo das décadas. É neste quadro que o tema relações Portugal-Angola ganha sentido.

Disse que a parte económica, se não for bem feita, pode contaminar as outras partes. O que é ser bem feita?
Ser bem feita é uma expressão popular para dizer o seguinte. Primeiro: a recusa – quem quiser fazer que faça mas não é aceitável – do puro negócio de circunstância e de oportunismo. A recusa da pequena atitude de operação tipo «golpada», do negócio de pura circunstância, sem qualquer base estruturada. Recusando isto, a abordagem que nós defendemos e estamos dispostos a apoiar é a seguinte: compreendido o quadro de conjunto, ter um trabalho interior à empresa, quer do lado português, quer do lado angolano. Um trabalho de preparação e de permanente articulação com os actores económicos em Angola.

Sobre isto, queria sublinhar quatro pontos. O primeiro: conhecimento da realidade angolana. É uma realidade compreensivelmente complexa. Não é uma especificidade de Angola. O trabalho de casa de conhecimento da realidade angolana. Segundo, ter sempre a preocupação, no terreno concreto micro, de parceiros locais. Terceiro, ter uma permanente preocupação assumida de contribuir para o desenvolvimento económico e social de Angola. Se não for assim, é certamente legítimo, porventura obrigatório, que Angola recuse esse tipo de investimento. Finalmente, deve ser algo que, do lado português e angolano, contribua para o desenvolvimento empresarial de Angola, que é um grande problema. Não estou a falar de transferências de tecnologia. Não é que seja mau, mas é relativamente secundário. Faz sentido o conceito de parceira, se cada actividade com alguma relevância for um passo mais no futuro imediato para criar, consolidar, desenvolver a actividade empresarial no tecido económico de Angola. Portanto, em vez de ser um investimento tipo ilha, como as ilhas da indústria petrolífera, que são realidades encasuladas.

O segundo aspecto é o mais negligenciado, infelizmente, e a fonte de grande parte dos insucessos. Aqui na SaeR costumados dizer que o espantoso é que às vezes corre bem. Refiro-me à preparação das empresas. É uma atitude superficial, leviana, fazer uma operação de presença no mercado externo, sem um trabalho de casa de preparação da empresa, em particular tendo presente a formação de quadros, o estudo do mercado, não um banal estudo, mas ter uma base sólida de como o mercado está organizado ou não e como se desenvolve e como aquela empresa em concreto responde, se adapta e se insere nesse mercado – e conhecer essa realidade o melhor possível do ponto social, económico, político, cultural.

Um terceiro aspecto é ter presente que há uma ligação obrigatória, em geral deixada de lado, esquecida, entre a operação do exterior para lá do «import-export» banal e a estrutura da empresa. Qualquer gestor tem de ter a noção que a sua unidade, seja ela uma média ou grande empresa, a partir do momento em que decide um investimento ou uma implantação num mercado com um potencial de crescimento grande, não pode encarar essa operação como um anexo da sua estrutura organizacional, como uma excrescência, um cotiledone. É a empresa compreender, assumir, tirar as conclusões organizacionais da decisão que tomou, reformando a sua estrutura organizacional em resultado da sua estrutura de internacionalização.

Se for mal feito, corre mal quase de certeza. Se for bem feito, talvez corra bem. Creio que esta é a maneira mais cuidada, mais exacta de olhar para o problema. Isto é uma operação séria para qualquer empresa.

Quais são as áreas que estão a correr bem e aquelas em que há dificuldades?
Há aí uma leitura casuística sobre a realidade corrente, mas não é muito importante. Eu tenho uma visão completamente diferente. A mudança qualitativa dos últimos cinco anos em Angola e a perspectiva dos próximos 15 anos, é que se não está tudo em aberto, está quase tudo em aberto. Em aberto, não no sentido da indeterminação, do bloqueio, da paragem, muito pelo contrário, em aberto no sentido do leque de oportunidades que se gerou. E por isso a abordagem adequada é este leque que se abriu em Angola corre bem ou mal, não por sector ou por actor. É o actor que vai decidir. O factor discriminante de ser bom ou ser mau não é o sector ou actividade em si, é o comportamento dos actores. Os actores são angolanos e portugueses ou outros. Angola importará maciçamente actores estrangeiros, ao nível de empresas e de quadros, onde os portugueses são estrangeiros mas com uma ligação muito mais intensa e específica, e o comportamento desses actores é que vai definir o que é bom, o que corre bem, e o que é mau ou corre menos bem.

A única restrição técnica nesta matéria, compreensível e obrigatória por parte do Estado angolano, é que há sectores onde não há. O Estado angolano em sectores centrais, nucleares da sua soberania, bloqueará qualquer acesso de actores estrangeiros e terá alguns problemas com isso. Não será com Portugal, mas é compreensível. Consta da lei do investimento estrangeiro, que é uma excelente lei. Há sectores de actividade económica, onde o Estado angolano reserva para si discernir, separar e controlar o comportamento dos actores.

Quais são os sectores em que as possibilidades de sucesso para um investidor estrangeiro são maiores?
Qualquer actividade, para poder ser bem sucedida, deverá ver-se a si própria, dentro de um triângulo definido por três critérios: eficiência competitiva global, existência de um ambiente sustentado em termos competitivos e obviamente, terceiro componente, transferência de «know-how». Este triângulo é a delimitação do ponto de vista de decisão das exigências. No interior, a localização de cada sector é mais ou menos próxima de cada um dos três lados do triângulo. E assim podemos dizer que mais próximo da eficiência competitiva global encontramos o petróleo e o gás, as indústrias extractivas, certamente o turismo, ainda numa fase muito incipiente e que requer uma actuação de fundamentação agora para dar frutos daqui a alguns anos, a agricultura e pescas, as madeiras e a transformação alimentar. No outro extremo do triângulo, o mais sofisticado em termos de transferência de «know-how» e de ambiente competitivo sofisticado, é a consultoria técnica qualificada. E depois reparemos que é interessante ver que no núcleo mais interior do triângulo, encontramos as coisas mais correntes mas muito importantes: telecomunicações, construção e obras públicas, infraestruturas. No caso português, há uma diferença específica, com interesse dos dois lados: a aposta em três mais um grandes sectores tais como a educação, a formação e a saúde. E mais um, que não é de carácter empresarial, mas que é decisivo: a cooperação a nível estatal, Estado a Estado, onde dois elementos são pesados e importantes: a cooperação no âmbito militar das Forças Armadas, nomeadamente organização, planeamento, instrução, onde há um registo histórico da última década, que é o melhor segmento da cooperação portuguesa; e por acréscimo a essa herança de quinze anos, a possibilidade de um grande desenvolvimento com alargamento e aprofundamento num futuro que é do interesse de Angola e de Portugal, é a convergência plena de interesses. O outro domínio de cooperação Estado a Estado essencial e que tem de ser muito desenvolvido é na formação de quadros, na organização do aparelho de Estado e no desenvolvimento e consolidação da estrutura jurídico-formal do Estado. Isto não se aprende, não se sabe, não se investiga a não ser em questões da vida e da organização de um Estado soberano. Poderão dizer-me que o sistema jurídico e a sua organização, desde a legislação até ao funcionamento do aparelho judicial, não é gerador de riqueza. É mentira. Não é um gerador directo. Mas é uma chave essencial da vida no seu conjunto, social e política, e também porventura, sobretudo, da vida económica.

Mas aí tem havido algumas acções…
Algumas. Mas o problema é que são precisas muito mais. Depois de ultrapassada a guerra, a construção do Estado, organizado no território completo do país, joga o seu futuro. Faz-se com a parte jurídico-formal do aparelho do Estado, faz-se com a quadrícula do território.

A presença da China em Angola não limita hipóteses da parceria Lisboa-Luanda?
A presença da China em Angola, ou melhor, em África, não é nada surpreendente no quadro da dramática evolução do sistema económico mundial nas últimas quase duas décadas, de 1989 para cá, dá 18 anos. Não é uma presença bilateral Pequim-Luanda. A RPC projecta-se como um grande actor mundial, num plano que não tinha anteriormente, quando o modelo bipolar desaparece no período 89-91. A questão é uma questão pesadíssima a nível mundial porque é o cruzamento do desenvolvimento interno da China, a partir do período Deng Xiao-Ping, com a descoberta genial da noção político-teórica de um país dois sistemas e da economia socialista de mercado. Conjugando o desaparecimento do modelo bipolar (89-91), a evolução interna da RPC e o extraordinário crescimento e desenvolvimento da economia chinesa há várias resultantes. Mas há duas ou três que nos interessam directamente. A primeira, porque é a mais óbvia, é a necessidade de acesso a recursos e matérias-primas. A China, como potência, não pode imaginar quanto mais permitir um problema técnico de aprovisionamento. O aprovisionamento para uma economia e um Estado com aquela dinâmica interna não pode, de maneira alguma, ser um motivo de entupimento. Qualquer dirigente chinês tem a preocupação de buscar os meios políticos de uma estratégia razoavelmente sólida de garantia de aprovisionamento.

Segundo elemento: a projecção do poder chinês à escala mundial é uma preocupação menos imediata, num horizonte curto de 50 anos, mas existe. Tudo o que sejam passos preparatórios/propiciatórios de construção de pontos de rede de actuação sem ser um problema imediato, são uma evidência do ponto de vista estratégico. Visão da evolução do poder da RPC.

Terceiro elemento: a China tem todo o interesse em procurar equilibrar as suas relações com o exterior e dar-lhes um componente económico forte, que seja uma base puramente económica para desenvolvimentos futuros. Ninguém sabe o que é o futuro. E portanto o estabelecimento de uma rede de presença em múltiplas sociedades, economias, países, que são muito estranhos, diferentes, polvilhados pelo conjunto do sistema económico mundial, no mínimo pode ser rentável a curto prazo, mas se não for é indiferente, mais bilião menos bilião, porque a dimensão ajuda. Até pode ser imediato a curto prazo. Seguramente, é uma base para o futuro. Isto era expectável.

Quais são os pontos que, na nossa interpretação, não são seguros? Primeiro, não é um problema angolano. Angola, para a China, é relevante, mas mais um. Angola é relevante mas os outros também são. A entrada maciça de presença chinesa é o mesmo que acontece noutros sítios e noutros continentes adequado às circunstâncias. Nós sobre focamos, tornando um caso genérico num caso singular. Não é.

É «business as usual»...
É «stratregy as usual». Não há que fazer uma avaliação neurótica dessa situação. Segundo aspecto, Angola tem uma grande vantagem e uma grande obrigação, que é poder e dever escolher os seus amigos. Os apetites internacionais sobre Angola são, primeiro, compreensíveis, segundo, são obrigatórios, terceiro, podem ser devidamente geridos. São compreensíveis. Qualquer actor principal que pense internacional ou na África ao sul do Saara, Angola está seguramente no primeiro pacote. Depois, Angola é um dos países mais ricos do mundo. Qualquer actor dinâmico e poderoso a nível mundial obrigatoriamente está a manobrar. Terceiro, Angola deve gerir e tem essa possibilidade. Angola pode e deve escolher.

O que é expectável para os próximos 15 anos em Angola?
Quinze anos é apenas a leitura de um período razoavelmente seguro de grande volume de receitas para o Estado angolano, nomeadamente da exploração petrolífera e do gás, e que portanto geram fluxos muito significativos de recursos para investimento no desenvolvimento económico. E portanto, Angola está numa situação comparativa à escala mundial particularmente favorável: tem um ponto de partida que é a saída de uma guerra civil muito prolongada, com a economia com elevado grau de destruição e todos nós sabemos, vem nos manuais, o «boom» que sistematicamente acompanha os períodos de reconstrução depois de guerras pesadas.

Por outro lado, há uma grande consciência dos responsáveis, a todos os níveis, no quadro angolano. Estão conscientes que têm pela frente um período longo em que há oportunidades permanentes. É um conceito que ocorre muito poucas vezes. Quase que é contraditório. A oportunidade é uma circunstância e as circunstâncias, por natureza, não são permanentes.

No caso angolano, faz sentido perspectivar num horizonte longo uma oportunidade permanente. E as elites angolanas estão conscientes disso. O que se pode imaginar do conteúdo disso? É construir um Estado e uma economia quase de alto a baixo. E aí é que discuto os sectores. Não é o A, B ou C. É tudo, com recursos disponíveis. Também está tudo por fazer noutros países, o que não têm é os recursos. A única exigência, do ponto de vista técnico, é uma injecção maciça de «software» na sociedade, ou seja, todo o modelo de aprendizagem, de saber fazer as coisas, do funcionamento, da organização, das regras de governança, do esforço para o trabalho e o estudo para o desenvolvimento, aquelas coisas que são a base da História. E eu tenho uma enorme esperança em termos de afirmação e desenvolvimento de Angola, no quadro da lusofonia, que é do interesse também do Estado angolano. Eu trabalho nisto há quase 20 anos e tenciono trabalhar até morrer.

Versão integral da entrevista publicada na edição do Expresso de 24 de Fevereiro de 2007, Economia, página 6-7.