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Eléctrodos “despertam” paciente “semiconsciente” há seis anos

Durante seis anos foi incapaz de mexer-se, falar ou alimentar-se. Um tratamento pioneiro permitiu-lhe voltar a comunicar, comer e ver filmes sem adormecer.

Neurocientistas americanos conseguiram devolver certa consciência a um homem com uma grave lesão cerebral através da estimulação de eléctrodos implantados no cérebro. O tratamento, pioneiro neste tipo de lesões, vem descrito na última edição da revista Nature.

O paciente, hoje com 38 anos, havia sido espancado quase até à morte na sequência de um assalto em 1999 e encontrava-se há seis anos num “estado minimamente consciente”, um quadro clínico que afecta entre 100 mil a 300 mil pessoas em todo o Mundo. Trata-se de uma alteração profunda da consciência diferente do coma ou do estado vegetativo, já que apesar de, na maior parte do tempo, existir um grande défice de consciência, o paciente não parece estar sempre adormecido e mostra alguns sinais de consciência. Contudo, neste tipo de casos, são muito raros os despertares repentinos.

O homem, cujo nome foi mantido no anonimato a pedido da família, era incapaz de falar, mexer os braços e precisava de uma sonda para alimentar-se, mas, por vezes, mexia os olhos ou os polegares para comunicar. Agora, graças à intervenção, “consegue comer, falar e ver um filme sem adormecer”, contou a mãe aos jornalistas. “Consegue usar uma caneca, expressar dor, chorar e rir. Consegue dizer ‘Amo-te, mãe’, que é o mais importante”.

"A mudança mais convincente é que ele é capaz de recitar as primeiras dezasseis palavras do juramento de fidelidade aos EUA", explicou, durante uma conferência de imprensa, o neurologista Joseph T. Giacino, um dos autores do estudo e líder da equipa que realizou a reabilitação do paciente.

Os especialistas usaram este texto, que os americanos aprendem na escola, porque o paciente tem menos dificuldade em recordar coisas antigas.
A técnica empregue pela equipa americana é conhecida como estimulação cerebral profunda. Apesar de inovadora no tratamento de alterações de consciência, tem sido utilizada na terapêutica de outras doenças neurológicos, como o mal de Parkinson, embora as regiões cerebrais estimuladas sejam diferentes. No caso em questão, os investigadores (neurologistas de três prestigiadas instituições americanas) decidiram implantar os pequenos eléctrodos no tálamo, região que recebe as informações visuais, tácteis e auditivas e as retransmite ao córtex cerebral.

“A nossa teoria era que os impulsos eléctricos dirigidos a esta área ajudariam a amplificar os níveis de actividade [cerebral] existente”, afirmou Giacino. O tratamento durou seis meses. Os eléctrodos eram activados durante 12 horas por dia, mostrando o paciente, de imediato, melhorias significativas, que, em grande parte, se mantinham com o tempo. Aos poucos, foi recuperando faculdades, tanto ao nível da linguagem como do movimento.

Optimistas mas cautelosos

Apesar de continuar a melhorar desde o fim formal da experiência, em Fevereiro de 2006, o paciente apresenta ainda problemas graves. Devido aos anos de imobilidade, é provável que não volte a andar e não consegue escovar os dentes porque os tendões do braço se contraíram. A sua capacidade de comunicação é também limitada. É incapaz de começar uma conversa, mas responde a perguntas, geralmente com uma a três palavras.

Os investigadores acreditam que a técnica pode representar uma nova janela de esperança no tratamento de pessoas com este tipo de lesões cerebrais, mas são cautelosos nas expectativas. Lembram que o estudo aborda um único caso e una lesão cerebral concreta. “Nem todos os pacientes com alterações de consciência poderão beneficiar da estimulação talâmica”, advertem no artigo. Agora querem estender o estudo a outros 11 pacientes para confirmar os resultados e avaliar a real eficácia do tratamento.

Contactado pelo Expresso, o neurocientista português Tiago Outeiro, que recentemente trocou a Harvard Medical School pelo Instituto de Medicina Molecular, em Lisboa, admitiu que “a notícia vem trazer esperança a pessoas que, até agora, se pensava não poderem recuperar mais”. “Trata-se da aplicação de uma técnica semelhante ao que já vem sendo feito, por exemplo, com alguns doentes de Parkinson, em que se estimulam directamente certas zonas do cérebro que se encontram ‘desligadas’.

Em Portugal, já é realizada por vários especialistas, pelo que poderá vir a ser aplicada em casos como o agora descrito, prometendo ajudar pessoas que se encontrem em certos estados de consciência em que até aqui não era possível intervir”.