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Einstein para crianças

Era uma vez uma criança que escreveu a Albert Einstein, a pedir ajuda para um problema de geometria. Esta história verídica é o ponto de partida de "Caro Einstein", livro que acaba de ser lançado no Brasil.

O que faria um cientista mundialmente famoso se recebesse uma carta de uma criança de sete anos, a pedir-lhe ajuda para a irmã mais velha em risco de chumbar se não conseguisse resolver um  problema de geometria? A história passou-se há 55 anos com Albert Einstein, tendo o pai da teoria da relatividade enviado algumas dicas para que uma jovem decifrasse um quebra-cabeças. Esta história verídica, que foi manchete do jornal 'The New York Times' em 1952, inspirou o livro "Caro Einstein" (texto e ilustrações da escritora norte-americana Lynne Barasch), agora traduzido para o português pelo físico brasileiro Marco Moriconi.

Editado recentemente no Brasil pela Cosak Naif, "Caro Einstein" tem sido considerado uma óptima ferramenta pedagógica para estimular o desejo de conhecimento e a curiosidade das crianças. O original  foi distinguido nos EUA com o  "Natural  History Magazine Best Books 2005" e "Parent's Choise Recommended Award 2005". A edição brasileira inclui fotografias da visita de Einstein ao Rio de Janeiro, em 1925, bem como uma bibliografia para quem estiver interessando em aprofundar o tema.

No livro, a personagem Flora encarna Johanna Mankiewicz (filha de Herman Mankiewicz, que assinou o argumento do filme "Citizen Kane – O Mundo a Seus Pés", realizado por Orson Wells em 1941) a autora, na vida real, da carta enviada a Einstein. A sua irmã é a Anabela, de 15 anos, que precisou da ajuda do cientista para saber "o comprimento da tangente comum externa de dois círculos tangentes, de raios 8 cm e 2 cm". 

Questionado pelo Expresso, o tradutor de "Caro Einstein", Marco Moriconi, professor do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro, diz que este livro pretende mostrar como até mesmo um grande mestre tem de se esforçar para fazer com que um exercício matemático seja compreensível para um adolescente. Admite, porém, que não existe uma "fórmula mágica" capaz de transformar algo complexo em algo simples. "O que falta é um pouco de esforço dos mestres e, sobretudo, dedicação dos estudantes".

Este especialista em Einstein reconhece que "a maneira como as Ciências são apresentadas é muito ruim: uma colecção de factos desconexos que devem ser memorizados, fórmulas que devem ser aplicadas sem nenhum entendimento, regras arbitrárias. A maioria dos jovens sabe utilizar os computadores, os telemóveis e todo o tipo de aparelhos electrónicos. Por que será, então, que é tão difícil ensinar as leis de Newton?"

Marco Moriconi tem uma explicação para o facto da Matemática continuar a ser uma dor de cabeça para a maior parte dos estudantes. "Sempre que encontro uma criança, pergunto qual é a disciplina que mais gosta. Invariavelmente, a resposta que me dão é Matemática. Passam-se os anos, e alguma coisa faz com que este cenário se inverta totalmente e a Matemática passe a ser um bicho-papão. A única explicação que encontro para isto é o facto de a Matemática ser ensinada como uma espécie de bruxaria. Ou seja, é transparente para os iniciados, mas um mistério profundo para os outros".

Se Albert Einstein fosse vivo, completaria 128 anos no próximo dia 14. Nascido na Alemanha em 1879, tornou-se famoso após a formulação da teoria da relatividade em Junho de 1905. A imagem deste génio da Física, com os seus cabelos desgrenhados, bigode farto e olhar bondoso, é uma das mais conhecidas do mundo. O seu nome tornou-se sinónimo de alguém dotado de grande inteligência. Nas horas vagas, gostava de andar de bicicleta, de toca violino e de velejar.

Einstein passou por Portugal em Março de 1925, quando o navio em que viajava para o Brasil fez escala em Lisboa. Sabe-se, pelas suas notas, que passeou pelos Jerónimos e pelo Castelo de São Jorge.

TRÊS PERGUNTAS A NUNO CRATO

Doutorado em Matemática nos EUA, investigador e professor do Instituto Superior de Economia e Gestão, em Lisboa, Nuno Crato tem dedicado grande a sua vida à divulgação científica. Na sequência do lançamento do livro "Caro Einstein" no Brasil, o Expresso quis saber o que pensa o presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática sobre o ensino e a divulgação da Ciência em Portugal.

O livro mostra que é possível transformar um assunto complexo em algo compreensível. É o que o Nuno Crato faz na sua crónica 'Passeio Aleatório', no seu programa de rádio 'Três Minutos de Ciência', nas suas palestras, nas suas aulas. Qual é o segredo?

É preciso ser-se claro, é preciso ter-se a noção do que pode ser compreendido pelo aluno, ou pelo ouvinte, ou pelo leitor. É preciso ser-se sempre tão simples como possível, mas, ao mesmo tempo, tratar o outro com respeito, ou seja, explicar o que pode ser explicado. As pessoas esperam de um professor ou de um divulgador científico que diga algo de novo e informativo, e não apenas que fale de assuntos interessantes e de forma interessante.

O que faz falta para a Ciência estar ao alcance de todos?

Estar ao alcance de todos será sempre difícil, mas seria bom que pelo menos os jovens que estão no Ensino Básico e Secundário ganhassem uma série de noções básicas, necessárias para encarar com maior consciência e confiança o avanço científico moderno. O ensino, infelizmente, não está a funcionar bem. E nada  substitui o ensino formal. Isso não quer dizer, obviamente, que não devemos fazer um grande esforço na rádio, na imprensa, na televisão, nas conversas, para difundir a ciência e a cultura científica, mas o essencial é a escola.

Que classificação atribuiria a Einstein?

Einstein rebenta todas as escalas. Há quem diga que se trata do maior cientista de todos os tempos. E mesmo que isso possa ser exagero, ou discutível, é certamente um dos dois ou três maiores de sempre.