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Efeitos da alta tensão estudados a longo prazo

Depois da polémica entre a REN e os moradores do Cacém vai, finalmente, ser lançado um estudo para avaliar o impacto da radiação emitida pelas linhas eléctricas de transporte.

Um programa de € 37 milhões vai estudar, durante os próximos dez anos, os efeitos dos campos electromagnéticos de baixa frequência nos seres vivos. Esta linha de investigação, financiada pela Rede Eléctrica Nacional (REN) e levada a cabo pela Faculdade de Farmácia de Lisboa, permitirá esclarecer a  polémica recentemente levantada pela passagem de linhas de muito alta tensão em zonas densamente habitadas. "A literatura científica neste domínio é pouco conclusiva, senão contraditória", sublinhou o responsável científico do projecto, o geneticista Carolino Monteiro. Por isso, este projecto, levado a cabo sem constrangimentos de tempo, nem de obtenção imediata de resultados, "poderá ser pioneiro a nível internacional".

O protocolo de constituição deste centro de investigação foi assinado, 5ª feira, em Lisboa, por representantes da REN, Faculdade de Farmácia, Agência Nacional do Ambiente e da entidade reguladora do sector eléctrico. No futuro, a EDP poderá, também, associar-se ao programa, que será levado a cabo em cooperação com investigadores doutros países porque "em ciência não há trabalhos estritamente nacionais". Esta associação com a Faculdade de Farmácia estava a ser discutida e preparada desde há dois anos, segundo afirmou, por ocasião da assinatura do protocolo, Henrique Gomes, administrador da REN.

O projecto, na globalidade das suas diversas componentes, deverá arrancar no início de 2009. Contudo, alguns trabalhos poderão já arrancar nos próximos meses, tendo, para o efeito, sido disponibilizado espaço nas instalações da Faculdade de Farmácia, segundo referiu o presidente do respectivo conselho directivo, José Guimarães Morais. Serão estudadas cinco áreas: epidemiologia (com definição das populações-alvo), efeitos dos campos electromagnéticos na flora, aspectos imunológicos, observação de animais de laboratório (permitindo a definição de modelos) e trabalhos em tecidos celulares expostos experimentalmente a radiações, sendo esta última vertente a que permitirá, a mais curto prazo, dar as primeiras respostas.

Conforme explicou ao Expresso Carolino Monteiro, para já os estudos vão apenas incidir sobre o tipo de radiações emitidas pelas linhas eléctricas de alta e muito alta tensão, ficando de fora outro tipo de efeitos, como os resultantes das emissões de rádio, TV, telemóveis, micro-ondas, etc. Uma vez que, como é visível, as cegonhas fazem ninho nos postes eléctricos, poder-se-ia pensar que o estudo destes animais poderia trazer informações relevantes. O referido especialista descarta esta possibilidade, por aquelas aves "não estarem permanentemente expostas", tendo bastante mais esperança no estudo das plantas que vivem "na envolvente das linhas, expostas sem interrupção ao campo electromagnético". Também um estudo epidemiológico junto dos trabalhadores dos serviços de manutenção das linhas da EDP não lhe parece "muito interessante" por estas pessoas "estarem sujeitas a uma exposição bastante maior que a da população em geral".

Alguns deste aspectos estarão em foco num simpósio a realizar na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, no próximo dia 23. Falando aos jornalistas no final da cerimónia, Henrique Gomes da REN, retomou as posições já defendidas por esta empresa relativamente ao projectado enterramento da linha de muito alta tensão na zona do Cacém, iniciativa esta defendida e financiada pela Câmara de Sintra. "É uma má solução, quer do ponto de vista dos custos, quer da manutenção da futura linha". O mesmo responsável sublinhou que enterrar as linhas, se reduz bastante o campo eléctrico, nada faz ao campo magnético, Os efeitos deste só são atenuáveis pela distância e a profundidade da projectada vala (2 a 3 m) é bastante inferior ao limiar de 20 a 30 m apontado pela Organização Mundial de Saúde para campos desta magnitude.