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Educação estuda desastre

Os resultados dos exames do básico e secundário foram um novo desaire. As notas continuam a baixar e mesmo os novos programas não escapam à razia.

«NÃO comenta». Dois dias depois do desaire de resultados dos exames nacionais, o Gabinete de Maria de Lurdes Rodrigues continua em silêncio sobre os exames nacionais do 11º e 12º anos, que levaram a novos recordes de «chumbos» e de notas negativas dos alunos portugueses. Para mais tarde, o Ministério promete «uma análise aprofundada» do que se passou e vai «devolver às escolas os resultados dos exames para abrir um amplo debate». A discussão começará logo no arranque do próximo ano lectivo e o porta-voz do Gabinete admite que as críticas dos professores podem conduzir a novas alterações do processo de exames.

Que as coisas correram mal, foi fácil de entender. No dia marcado para a afixação das pautas, o Ministério da Educação tomou uma medida inédita. Em circular assinada pelo secretário de Estado da Educação, foi aberta a possibilidade dos alunos repetirem, na segunda fase de provas, os exames de Física e de Química, contando a melhor nota obtida para efeitos de candidatura na primeira fase de acesso ao Ensino Superior. A situação era tanto mais grave quanto se tratava de resultados de provas respeitantes aos novos programas curriculares. E, aqui, as notas foram verdadeiramente desastrosas. Em Química, a média nacional foi de 6,9 e a de Física de 7,7. Em 2005, com programas em fim de linha, as médias foram, apesar de tudo, mais altas: em Química, a média foi de 9,6 e a Física de 8,3.

PSD clama falhanço

Para Emídio Guerreiro, deputado social democrata e membro da Comissão de Educação, o resultado dos exames do secundário representam «um falhanço claro de quem os organizou» e realça a situação de injustiça para os alunos que vão fazer a prova de Física e de Química apenas na segunda chamada. O PSD defende ainda uma igualdade de oportunidades para as outras disciplinas, apesar de reconhecer que «é difícil, face aos timings apertados» do calendário de exames e de acesso às universidades que está em contra-relógio.

A Confederação de Pais concorda. Considera também que o Ministério devia dar uma segunda hipótese aos alunos que fizeram os exames de Matemática, cuja média nacional bateu recordes. Apesar dos novos programas, a média não ultrapassou os sete valores e implicou a maior taxa de chumbos (29%, ver PDF).

Para Ramos André, assessor da ministra da Educação, «está completamente encerrado» o processo de repetição de exames. Os casos de Química e de Física «são excepcionais» e o Ministério não admite mais provas extraordinárias. Aliás, do ponto de vista político, as reflexões e as medidas ficam para mais tarde. «Será promovido um amplo debate nas escolas», diz, explicando que nos primeiros três meses do ano lectivo, os professores serão chamados a apresentar as suas críticas sobre os resultados. A discussão será alargada a todas as disciplinas do 11.º e 12.º. No final, serão recolhidas as propostas - do que pode ser feito a nível da escola e a nível nacional - e «estudadas as alterações necessárias», conclui.

Até lá, os comentários oficiais foram todos remetidos para a directora do Gabinete de Avaliação Educacional, Glória Ramalho, que desvaloriza a chuva de críticas que caiu sobre os exames nacionais. «Não há gralhas, nem erros ou más formulações. Trabalhámos com os autores dos programas e não nos pusemos a inventar nada», disse ao EXPRESSO. No entanto, admite que o exame de Química do novo programa do 12.º «foi muito diferente do anterior» pelo que os maus resultados se devem ao facto de «ainda não haver uma apropriação social do programa». É também nesta disciplina que a responsável do Ministério abre uma segunda excepção, admitindo «a ambiguidade de um termo» usado na prova. «Em vez de esquema usa-se a palavra equação química», diz, em jeito de resumo dos problemas dos exames.

Correcção avaliada

O debate parece agora transferir-se dos eventuais erros dos enunciados, para os problemas de correcção. Nuno Crato, da Sociedade Portuguesa de Matemática, admite que existem «dúvidas sobre a validade das provas e critérios de avaliação, assim como da sua consistência de ano para ano». A solução, segundo o matemático, poderia passar por «um sistema de avaliação independente que analisasse todo este processo» e estivesse fora do âmbito das estruturas do Ministério.

Anabela Martins, da Sociedade Portuguesa de Física, assume que o insucesso na disciplina «ultrapassa os problemas dos exames, que estão muito ligados aos critérios de correcção». Para a professora «os alunos mais criativos foram penalizados com o novo modelo de prova», repleto de questões abertas e com uma grelha de correcção muito estreita nos novos exames feitos para os programas estreados no 12.º ano.