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"É preciso acabar com o elitismo"

Joana Pereira Bastos

Joana Pereira Bastos

Editora de Sociedade

Sem aumentar os apoios e flexibilizar os horários, vai ser muito difícil atrair novos alunos e recuperar o tempo perdido. Quem o garante é Rui Santiago, director do Mestrado em Políticas e Gestão do Ensino Superior da Universidade de Aveiro.

O Governo assinou recentemente um contrato de confiança com as Instituições de Ensino Superior que prevê a formação de 100 mil portugueses em quatro anos. Parece-lhe uma meta realista?

Não me parece realista, nem muito exequível. Acho que é um lapso muito curto para recuperar tanto tempo perdido. A única forma de o conseguir é ir buscar as pessoas que não conseguiram entrar para o Ensino Superior na altura mais complicada do numerus clausus. Houve toda uma geração perdida por causa do enorme constrangimento de vagas, em alguns casos, como o de Medicina, por razões puramente corporativas. Esta é uma boa oportunidade para as faculdades e institutos politécnicos se consciencializarem disso.

E é possível cumprir a meta dos 100 mil sem sacrificar a exigência e a qualidade da formação?

Costumo dizer na brincadeira que a qualidade é um bocadinho como o lince da Malcata. Toda a gente fala nela, mas ninguém a vê. A questão é que, no imediato, a qualidade é um pouco ininteligível e, em alguns casos, só se pode medir com rigor a dez ou até a 30 anos de distância. Mas acredito ser possível conjugar a democratização do ensino com a manutenção da qualidade e da exigência.

Sem bolsas e mais apoios financeiros, é possível convencer os portugueses a tirar cursos de especialização tecnológica e mestrados?

Sem compensações é muito difícil cativar uma percentagem significativa da população. Como professor, já tive alguns casos de alunos com boas médias que se viram obrigados a desistir ao fim do primeiro ciclo de Bolonha e não seguir para o mestrado porque isso representava um esforço incomportável. Eram de famílias que tinham rendimentos baixos, mas não tão baixos que tivessem direito a bolsa. Por isso, é absolutamente fundamental aumentar os apoios e flexibilizar os horários para permitir que os jovens trabalhem durante a sua formação académica superior. É preciso acabar com o elitismo que, apesar do esforço feito nos últimos anos, ainda se mantém no Ensino Superior português.