Siga-nos

Perfil

Expresso

Atualidade / Arquivo

"É mais fácil lidar com artistas do que com políticos"

O papel das divas e a vez em que Pinamonti se “vendeu um bocadinho” ao contratar a Gheorghiu.

A propósito do São Carlos tem-se falado muito em turismo cultural. Qual é o papel da ópera no turismo cultural?
Muito elevado. Veja o Festival de Aix-en-Provence, nos últimos anos tornou-se um impressionante pólo de atracção turística, há um mês no qual Aix está cheia de turistas que aproveitam para visitar a Provença e à noite vão à ópera. Posso dizer-lhe que em Lisboa já começa a acontecer a mesma coisa, pessoas que vêm a Lisboa ver um espectáculo e ficam mais uns dias na cidade. Aconteceu com A Valquíria, está a acontecer com o Montezuma, aconteceu no ano passado com o Rheingold. Há pedidos de agências que organizam a compra de bilhetes porque querem, em torno da ópera, organizar períodos de férias em Lisboa.

O que é preciso para garantir esse tipo de turismo? Prestígio do teatro? Grandes divas?
É preciso um teatro credível, com programas de qualidade. Mas não implica stars, é preciso é um programa interessante, com capacidade de captar a atenção. Fizemos esse trabalho nestes seis anos, até o Nicholas Payne, director de Convent Garden, ficou curioso com «A Valquíria» e veio cá ver esse espectáculo.Eu não frequentei muito as divas por razões financeiras – o TNSC não tinha dinheiro para isso –, mas também por uma opção artística: as divas não trazem uma mais-valia para a ópera. É uma vantagem efémera, uma operação de marketing publicitário que faz com que contratar uma diva pareça uma mais-valia artística. É uma manipulação. A cor magnífica da Angela Gheorghiu não tem nada que justifique chamá-la a ela em vez da Norah Amsellem, que cantou «La Traviata» em Madrid (não falo da Dimitra Theodossiou porque poderia ser mal interpretado, pois cantou aqui no São Carlos). Nada justifica a atitude de diva da Angela Gheorghiu. Eu fiz um erro, ao chamá-la para o grande concerto no Pavilhão Atlântico. Admito que foi um erro, um acto de fragilidade, cedi à ideia de ópera para o povo. Em termos financeiros foi rentável, mas…

Vendeu-se um bocadinho?
Exacto, acho que podemos dizer isso.

Já frisou a dimensão política da ópera. No seu trabalho sente-se mais um artista ou um político?
Não sou artista – porque não piso o palco, não sei cantar, nem dirigir, conheço a música mas não sou artista –, nem sou também político. Às vezes pergunto-me: mas o que é o meu trabalho? E respondo: é criar as condições para que os outros possam desenvolver bem o seu trabalho.

Trabalha entre a arte e a política. É mais difícil lidar com as divas de um lado ou do outro?
Com os artistas é mais fácil, porque há um momento em que têm que subir ao palco, por isso encontra-se sempre solução para os problemas. Há um momento em que os artistas têm que ser avaliados, mostrar aquilo que valem. Os políticos não, têm sempre uma fuga, podem escapar-se.