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Documentário da BBC defende cortiça portuguesa

Substituição das rolhas tradicionais em cortiça por vedantes alternativos nas garrafas de vinho ameaçará o ecossistema único garantido pelo montado de sobro, adverte o documentário da BBC.

Cada vez que saca uma rolha de cortiça de uma garrafa de vinho está a contribuir para preservar um ecossistema único. Nas suas mãos, está o destino de rouxinóis, cegonhas-pretas, aves de rapina, linces e de uma das mais notáveis árvores do mundo. O que é que isto tem a ver com o vinho? Nada. Mas tem tudo a ver com a rolha. É que, ao optar pela cortiça em detrimento de outros vedantes (rolhas de plástico ou cápsulas de alumínio), está a preservar uma das mais importantes áreas de vida selvagem da Europa e uma cultura rural que dá sustento a mais de 60 mil pessoas em Portugal, defende um documentário que a BBC 2 irá exibir na próxima terça-feira. Intitulado A Cortiça - Floresta numa garrafa, o documentário seguiu durante um ano a vida de Francisco Garrett, um alentejano cuja família colhe cortiça há cinco gerações, e mostra a importância da zona dos montados de sobro, que prosperam em solos pobres e secos. Além de ser a única árvore do mundo cujo casca pode ser removida periodicamente sem a matar (cresce novamente em nove anos), o sobreiro é local de nidificação de aves de rapina e de cegonhas-negras, propiciando ainda o desenvolvimento de algumas das raras flores selvagens da Europa. O montado de sobro é ainda habitat de inúmeras outras espécies vegetais e animais, incluindo raridades como o lince ibérico, o felino mais ameaçado do mundo, morcegos, pequenos mamíferos, répteis, anfíbios e até uma centena de diferentes aves que ali se reproduzem. "É este o elevado valor da cortiça colheita que tem origem nesta antiga paisagem protegida e na conservação da vida selvagem. Mas se rolhas de plástico e os revestimentos de plástico substituírem gradualmente a cortiça nas garrafas do nosso vinho, toda esta realidade pode estar prestes a mudar", alertam os autores do documentário num comunicado à imprensa. Os montados de sobro, sustentam, são não apenas vitais para um inestimável ecossistema mas também para o emprego numa região onde há poucas alternativas. "O futuro para a vida selvagem e para o povo do montado, em última instância, está dependente das escolhas que fazemos como consumidores de vinho".

Vedantes sintéticos não são perfeitos

Introduzidos em 1970, os vedantes alternativos (sobretudo cápsulas de rosca em alumínio, mas também vedantes de plástico) conquistaram já uma quota de 20 por cento de um mercado onde a cortiça era, até há poucos anos, quase hegemónica. Esta tendência tem sido alimentada sobretudo pelos produtores do "Novo Mundo" do vinho, como a Austrália, a Nova Zelândia e o Chile. No caso dos revestimentos de alumínio, o documentário acusa-os de impedirem o vinho de "respirar" e concentrarem sulfuretos através dos quais a bebida pode adquirir o cheiro a ovo podre no momento em que a tampa é removida, um problema que afecta uma em cada 50 garrafas comercializadas no Reino Unido. O documentário sublinha que desde 2000 que a indústria transformadora de cortiça investiu milhões de euros para eliminar o TCA, um químico que está na origem do aroma designado usualmente como o "sabor a rolha" do vinho e que tem prejudicado a reputação do vedante natural. O esforço, garantem os autores da investigação, levou a que o TCA fosse eliminado em 2006 das fábricas transformadoras, "pelo que os casos que possam persistir poderão dever-se a uma contaminação aquando do armazenamento pelos produtores e engarrafadores de vinho, e não pelo fabricante das rolhas".

A opção mais amiga do ambiente

A rolha de cortiça é também sugerida como a opção para aqueles que se preocupam com o ambiente: é a única que permite um encerramento biodegradável e com baixo consumo de energia. Estima-se ainda que os montados de sobro absorvam, por ano, 4,8 milhões de toneladas de dióxido de carbono. Já os vedantes sintéticos, sendo derivados do petróleo e do plástico, indústrias altamente nocivas, são responsáveis pela criação de elevadas emissões de gases de efeito de estufa nos seus processos de produção e reciclagem. Segundo um relatório do The World Wildlife Fund, três quartos das florestas de sobreiro do Mediterrâneo Ocidental poderão desaparecer num espaço de 10 anos, provocando a perda de cerca de 60 mil empregos nos países produtores de cortiça, com Portugal, o maior produtor mundial, à cabeça. O documentário será exibido às 20h de dia 9 no programa "Natural World" (Mundo Natural) da BBC2, com repetição no domingo, dia 14, no mesmo canal. Foi produzido por Mike Salisbury e Paul Morrison, editado por Tim Martin e é narrado por Monty Don.

  • Os gregos usavam cortiça há 2500 anos, mas, em Portugal, a extracção das rolhas a partir do sobreiro foi registada pela primeira vez em 1722.
  • Em Portugal, vendem-se todos os anos 15 mil milhões de rolhas de cortiça.
  • Hoje os montados de sobro cobrem 1.803.830 hectares de terras no país (32,5% do total da massa terrestre nacional)
  • Apenas 15% da cortiça colhida é utilizada em rolhas, mas estas representam quase 70% das receitas da colheita.
  • A esperança média de vida de um sobreiro é de 200 anos. Este pode ser descortiçado 15 a 18 vezes durante sua vida útil.
  • Em média um sobreiro produz o suficiente para 4000 garrafas por colheita.
  • FONTE: A Cortiça - Floresta numa garrafa / BBC 2