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Do gozo à dependência

Televisão, Internet e videojogos têm cada vez mais depedentes. Há quem passe diariamente sete horas em frente à consola e chegue a precisar de terapia para deixar o vício.

Há cinco meses, Manuel C. (nome fictício) entendeu que estava nas suas mãos ganhar a «guerra» e decidiu adoptar uma estratégia para «vencer» o seu «adversário». «Levantei-me propositadamente pelas cinco horas», lembra. «Sabia que àquela hora o meu inimigo – um búlgaro – estava a dormir e eu podia enviar as minhas «tropas» para acabar com ele». O ataque não durou mais de meia-hora. O suficiente para vencer a batalha e voltar para a cama satisfeito. «Hoje, não sei dizer bem qual era o jogo, acho que se passava na Idade Média», afirma.

Manuel C. – que desde 2004 frequenta a consulta no Centro de Atendimento a Toxicodependentes das Taipas, em Lisboa –  tem o perfil típico de um dependente de videojogos. Confessa que chegou a gastar cinco a seis horas agarrado ao computador, mas actualmente joga apenas três vezes por dia: «Acordo, vou ao computador fazer a manutenção do jogo, que é fundamental. Senão, podem-me atacar. Depois vou trabalhar. Quando volto ao final da tarde, às vezes jogo, às vezes não. E depois, jogo antes de me deitar».

Aos 36 anos, Manuel C. apercebeu-se de que precisava de parar e procurou ajuda. «As dependências patológicas (com ou sem substâncias) são preocupantes por traduzirem um abuso de algo em quantidade e/ou em qualidade. Daí resultam não só danos físicos e psicológicos, como também danos familiares, sociais, sexuais e financeiros», explicou ao EXPRESSO o médico Luís Patrício, responsável pelo Centro das Taipas. «Cada vez mais nos damos conta de pessoas que têm manifesto excesso de uso destes audiovisuais. Respeitando os limites das tipificações podemos dizer que se trata de consumidores dependentes urbanos, jovens, liberais e da classe média».

Para o psiquiatra, o tratamento destas dependências tem que ser necessariamente adaptado a cada situação: «Se é evidente que, na maioria das situações importa fazer a ruptura com o consumo e com o comportamento de risco, em outras tal não pode suceder. O dependente de compras, tem que saber continuar a comprar, tal como o dependente de videojogos, de televisão, de sexo, de alimentação, tem que saber aprender a estar adequadamente nessa actividade».

Luís Patrício diz também que é preciso saber seleccionar o que se consome e saber como usar sem provocar danos: «Chegou a hora de dizer aos pais distraídos: eduquem as crianças. Ou dito de forma metafórica: basta de colocarem infantis a jogar na equipa dos seniores».