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Dividir para salvar

Na divisão de um fígado por dois doentes, pode residir a solução para travar as mortes por insuficiência hepática entre as crianças 

Anualmente, há 10 a 13% de crianças, vítimas de insuficiência hepática, que morrem enquanto esperam por um fígado para transplante. O alerta vem da organização United Network for Organ Sharing (UNOS) que denuncia ainda que só no ano passado, as extensas listas de espera condenaram à morte 41 bebés. Mas estes números podem mudar. O segredo está na partilha. A regra matemática que permite salvar mais vidas é a da divisão.

Se você estivesse à espera de um fígado capaz de o salvar e finalmente recebesse um, estaria disposto a partilhá-lo com outro doente? A americana Maggie Catherwood não teve dúvidas. Mas como ela há ainda poucos. Esta estudante de 21 anos partilhou o fígado que aguardava há anos com Allison Brown, uma bebé de oito meses, igualmente doente, noticiou a Associated Press. Uma operação bem sucedida que, se replicada, pode ajudar a mudar o estado das listas de espera para a recepção deste órgão no mundo inteiro.

Ao contrário dos outros órgãos, uma parte de um fígado saudável pode crescer e atingir as dimensões e um funcionamento normal em apenas um mês. É por isso que é possível realizar transplantes de fígado com dadores vivos. Mas a divisão de um fígado, tal como foi feita com Maggie e Allison, é diferente. Neste caso, o órgão é doado depois do seu portador falecer e é dividido em duas partes, cuidadosamente calculadas.

Para o cirugião responsável pelo transplante de Allison, Thomas Fishbein, do Hospital Universitário Georgetown, “com esta técnica poderíamos quase eliminar a morte na lista pediátrica de espera por um fígado”. Na verdade, segundo o especialista, quando há uma doação de um fígado e o destinatário é um bebé, o órgão tem de ser cortado para caber. Fishbein explica que “há muitos colegas que não querem desperdiçar o que sobra e oferecem-no ao próximo candidato na lista de espera”.

Mas esta operação de divisão não é muito comum. De acordo com  dados da UNOS, “por ano há cerca de seis mil transplantes hepáticos e no ano passado, apenas 123 órgãos foram divididos”. O cirurgião Fishbein assegura que “é muito raro um adulto aceitar dividir um órgão pelo qual aguardou tanto tempo em lista de espera”. Por outro lado, nem todos os hospitais têm a experiência e o conhecimento necessários para praticar ou incentivar esta divisão.

Tecnicamente, confessa o especialista, “é uma cirurgia com desafios acrescidos e um risco mais elevado de complicações pós-operatórias, tais como manter uma boa circulação sanguínea necessária para que o órgão sobreviva no novo organismo”. Num transplante deste tipo, o cirurgião tem calcular cuidadosamente a percentagem mínima de órgão que o paciente necessita durante o mês que o fígado vai levar para se regenerar. No caso de Allison, a bebé recebeu apenas 20% do fígado doado enquanto o restante foi colocado em Maggie.

Por outro lado, nem todos os fígados são passíveis de dividir, muito embora a UNOS adiante que cerca de 1000 órgãos doados por ano se podem qualificar para esta finalidade. O desafio de Thomas Fishbein e outros médicos é difundir esta prática para tentar salvar a vida de mais jovens e crianças.