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Dia da Terra: Reposição dos recursos vivos já é negativa

Nobel da Paz diz que a procura de recursos vivos da população do Planeta já excede em 30% a sua capacidade de regeneração. 

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

A procura de recursos animais e vegetais dos 6, 8 mil milhões de habitantes da Terra já excede em cerca de 30% a capacidade que o nosso planeta tem em repô-los ao mesmo nível, revelou Rajendra Pachauri quando esteve a semana passada em Lisboa.

O presidente do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) da ONU e Nobel da Paz 2007 com Al Gore, que deu uma conferência no Convento do Beato no âmbito do Mês da Sustentabilidade - uma iniciativa do Expresso e do BES -, disse que seriam necessárias 1,3 Terras para repor o equilíbrio dos seu recursos vivos.

A situação é mais preocupante na América do Norte e nos países da UE, onde a pegada ecológica de cada habitante (área do território de que necessita em termos recursos) é largamente superior à bio-capacidade da sua região. Em contrapartida, na América Latina e Caraíbas a situação é precisamente inversa.

Pachauri chamou a atenção para as fortes pressões que existem sobre o uso da Terra em todo o Mundo por causa do crescimento da população, do desenvolvimento económico, da urbanização e da procura de biocombustíveis.

10 kg de cereal para produzir 1 kg de bife

E destacou o fenómeno do aumento do consumo de carne em países emergentes, dando particular destaque aos 1300 milhões de habitantes da China, onde o crescimento tem sido exponencial nos últimos anos. O presidente do IPCC recordou que "para produzir 1 kg de bife são necessários 10 kg de cereal", mas há alternativas proteicas de origem vegetal sustentáveis para a alimentação humana.

"É preciso mudar o estilo de vida, em particular os hábitos alimentares, porque o ciclo da carne é muito intensivo em energia e em emissões de CO2. E há também um problema de segurança alimentar mundial no futuro: se cada vez mais pessoas comerem mais carne, não haverá cereais suficientes para as necessidades humanas, porque a conversão de calorias dos cereais em calorias de carne é muito pouco eficiente".

Quanto ao estado da Biodiversidade, o economista e cientista do ambiente indiano salientou que o actual ritmo de extinção das espécies é cem vezes mais elevado que no passado, traçando um cenário negro para as próximas décadas: "As taxas de extinção poderão crescer mil a dez mil vezes e uma em cada quatro espécies de mamíferos estará ameaçada de extinção".

Com o aquecimento global, os recursos hídricos portugueses poderão escassear no futuro

Com o aquecimento global, os recursos hídricos portugueses poderão escassear no futuro

Ivo Pires/Lusa

Stresse hídrico já atinge 700 milhões de pessoas

O cenário não é mais animador para a escassez da água: em 2025 mais de três mil milhões de pessoas poderão viver em países com problemas de stresse hídrico. Actualmente, esse já é o problema com que se confrontam cerca de 700 milhões de pessoas em 43 países, a maioria dos quais países em desenvolvimento.

Quanto ao Aquecimento Global, Pachauri explicou que o Árctico, África, as pequenas ilhas e os grandes deltas dos rios asiáticos e africanos (Mekong, Ganges, Nilo) serão as regiões mais afectadas.

Os sistemas e sectores mais prejudicados serão, por sua vez, os recursos hídricos, a agricultura, os sistemas costeiros, a saúde humana e ecossistemas como a tundra, a floresta boreal, as regiões montanhosas, a floresta mediterrânica, as florestas tropicais, os recifes de coral e a vida nas águas geladas do Árctico e da Antártida.

Em Portugal, o Nobel da Paz destacou "a redução da disponibilidade de água, as secas mais frequentes e prolongadas, o aumento do risco de incêndios florestais e a extensão da época dos fogos, o impacto negativo das ondas de calor na saúde pública, a redução de 30% no rendimento das culturas hortícolas, perdas de 62% na biodiversidade das espécies das regiões montanhosas, e a redução do fluxo de turistas no Verão".