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Desventuras nas Nações Unidas para quatro cozinheiros lusos

Acabou mal a Quinzena Gastronómica de Portugal nas Nações Unidas: os quatro cozinheiros convidados para representar o nosso país foram proibidos de trabalhar ... na cozinha. Vieram-se embora e protestaram junto do embaixador português na ONU.

Mafalda César Machado (texto) e Tiago Miranda (foto), em Nova Iorque

Há histórias que começam bem e acabam mal. Assim aconteceu com a Quinzena Gastronómica promovida em Nova Iorque pela Missão de Portugal junto das Nações Unidas. O objectivo era divulgar a riqueza da cozinha nacional, pondo em evidência a multiplicidade das suas raízes, partilhadas com tantas das nações hoje representadas na ONU.

Coincidindo com a Presidência Portuguesa da União Europeia, seriam realizados almoços diários para centenas de pessoas com "dress code" rigoroso, para além de uma recepção ao corpo diplomático e uma refeição exclusiva para os meios de comunicação especializados na área da gastronomia, vinhos, turismo e viagens. Local escolhido, a Sala de Jantar dos Delegados, utilizada pelos mais altos representantes dos diversos países nas Nações Unidas.

Para a primeira semana (15 a 22 de Outubro) foram convidados quatro dos mais prestigiados chefes portugueses: Marco Gomes, Pedro Nunes, Luís Moreira e Francisco Meirelles, apoiados por José Meirelles que gere dois dos mais conhecidos e apreciados restaurantes de Nova Iorque. Caber-lhes-ia prepararem e apresentarem localmente as respectivas especialidades. Tudo com o patrocínio do Turismo de Portugal, para além da TAP, ViniPortugal, BES, BCP ou CGD.

Logo no domingo as coisas começaram a correr mal, pois a responsável da cozinha das Nações Unidas, Sue Irocula, não só os recebeu mal, como lhes negou condições mínimas de trabalho. Na segunda-feira foram afastados dos postos normais de trabalho e relegados para bancadas de apoio. Conforme se refere na carta subscrita pelos quatro elementos e enviada ao embaixador João Salgueiro, "entre escassez de produtos, indisponibilidades, antipatia e falta de colaboração de toda a cozinha, até à ausência de qualquer apoio institucional, percebemos que, certamente, algo estava muito errado"

Na terça-feira ao fim do dia, a mesma responsável ameaçou chamar a segurança para expulsar os portugueses da "sua cozinha". Foi a gota de água que fez transbordar o copo. A delegação abandonou as instalações da ONU e dissociou-se da Quinzena Gastronómica. No final da referida carta ao representante diplomático português afirma-se: "Aceitámos este convite da mesma forma como encaramos a nossa cozinha - de alma e coração. Aceitámos trabalhar sem qualquer contrapartida financeira por acharmos que a ocasião o merecia. Estamos tristes porque, depois de viajar pelo mundo inteiro a divulgar o património culinário português, deixando sempre um rasto de simpatia, dedicação e profissionalismo nos vimos, pela primeira vez, inexplicavelmente mal tratados".

Uma semana gastronómica transformou-se numa breve passagem de quatro cozinheiros portugueses por Nova Iorque. E as Nações apresentaram-se tudo menos Unidas.

A assessora de imprensa da Missão de Portugal nas Nações Unidas, Mafalda Rodrigues, garante que "a quinzena gastronómica continua a decorrer contando com a presença, tal como planeado, de chefes de cozinha madeirenses a partir do próximo sábado".

A mesma fonte informa ainda que, até ao momento, não receberam qualquer carta dos cozinheiros, mas o Expresso sabe que a missiva foi enviada ao embaixador de Portugal na ONU.