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Atualidade / Arquivo

Descobrimentos no feminino

A historiadora Fina d'Armada revela que, afinal, as mulheres também ajudaram a desbravar os mares nunca dantes navegados.

Intérpretes, tecedeiras, “biscoiteiras”, escravas, “massadeiras”, curandeiras ou, simplesmente, esposas e amantes. Para aqueles que falam dos descobrimentos como um pedaço da nossa história “exclusivo dos homens”, o livro “Mulheres Navegantes”, da historiadora Fina d’Armada, revela o lado mais feminino das descobertas portuguesas.

“Sempre ensinei História e fui constatando um dado curioso: só ensinava a história dos homens, embora fosse paga pelos impostos de homens e mulheres”, conta a investigadora. “Achei que estava na altura de me debruçar sobre o papel feminino na nossa História.”

O tema dos descobrimentos foi fácil de escolher: “Além de ter nascido em Vila Praia de Âncora, terra do mar, o meu próprio apelido deriva dessa altura”, conta Fina d’Armada. O trabalhou culminou com mais de “cinco difíceis anos” de investigação. “Há uma mentalidade muito machista e contar a História no masculino é visto como regra”.

Aventureiras marítimas

No entanto, a historiadora estava “determinada a conseguir” e aos poucos foi descobrindo que as mulheres estiveram “sempre presentes” nas aventuras marítimas. “O Infante D. Henrique levou uma moura como intérprete nas suas viagens a África”, revela. “Também ninguém sabe que Bartolomeu Dias levou quatro mulheres para passar o Cabo da Boa Esperança.”

Fina d’Armada recorda ainda que sem mulheres não se podia ter povoado territórios como, por exemplo, o arquipélago da Madeira. Para que não sobrem dúvidas, a autora remata: “Há registos de Vasco da Gama ter imposto uma lei severa que proibia a presença de mulheres nas naus. Se elas não fizessem parte dos Descobrimentos esta lei teria sido desnecessária.”

Mas a presença feminina continua a ser posta em causa. “Quando telefono a alguns colegas a convidar para o lançamento do livro, e explico que é sobre a presença feminina nos descobrimentos, a resposta é quase sempre a mesma: «mas houve?»”. Fina d’Armada confessa que, em parte, a “culpa é dos historiadores, que sempre ignoraram as mulheres e hoje em dia continuam a fazê-lo.”

No entanto, o historiador e escritor Rui Tavares confirma que “as mulheres tiveram uma importância relevantíssima nos descobrimentos” embora admita “haver uma omissão do seu verdadeiro papel”.

O erro “não é exclusivo da História portuguesa” e o historiador salienta que o grande problema é conseguir chegar a arquivos sobre as mulheres. “A História é feita com fontes e, no caso das mulheres, faltam esses registos escritos para se contar o que realmente aconteceu”, esclarece Rui Tavares, lembrando que “as mulheres viveram sempre rodeadas de homens no poder, o que vem gerando um desequilíbrio de papéis até aos dias de hoje”.

Ainda hoje é difícil

As mulheres portuguesas continuam a apontar o dedo a este desequilíbrio e louvam o trabalho de Fina d’Armada. “É muito pertinente falar do papel das mulheres na nossa História”, considera Margarida Martins, presidente da associação Abraço. “Os homens salientam tanto o trabalho deles que este livro também deve ser encarado com naturalidade”. A escritora e actriz Sofia Sá da Bandeira partilha da mesma opinião e reforça que “nunca é demais falar no tema, até porque as mulheres carregam uma herança pesadíssima de não terem sido habituadas a pensar, nem a questionar". As duas personalidades femininas são da opinião que "ainda é díficil ser mulher em Portugal" e dão como exemplo os problemas de “ascensão na carreira” e a “falta de mulheres na política”.

“Feminista” convicta, Fina d’Armada não receia que o seu trabalho seja mal interpretado pelos homens: “Apenas luto pela igualdade. O fim do império masculino acabou quando abriram as portas das escolas às mulheres”.

O livro “Mulheres Navegantes, cuja investigação foi distinguida com o “Prémio Mulher Investigação Carolina Michaelis de Vasconcelos 2005”, chega às livrarias nacionais já este sábado.