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De Lisboa para Kandahar

O país vive a pior onda de violência desde 2001. A NATO entrou em força no Sul.

Desde shá uma semana que os militares portugueses assumiram a segurança do aeroporto de Kandahar, capital do Sul do Afeganistão.

Os 140 homens do primeiro regimento de infantaria paraquedista da Brigada de Reacção Rápida que partiram de Lisboa a 28 de Agosto mergulharam de cabeça na maior operação militar actualmente em curso no Sul do Afeganistão. Chegados a Cabul a 29 de Agosto, já estavam em Kandahar a 2 de Setembro, Dia-D da "Operação Medusa", desencadeada pelo comando Força Internacional de Assistência e Segurança (ISAF) para desalojar os talibãs desta região montanhosa, fronteiriça com o Paquistão.

Três dias mais tarde eram responsáveis pela segurança do aeroporto, o maior do país, com o apoio de um pelotão britânico. Em principio, os militares portugueses não participarão em acções de combate: não faz parte da sua missão o patrulhamento dos acessos a base. Mas securizar um perímetro de 15 quilómetros com um efectivo de 160 homens não é tarefa fácil e o êxito das operações em curso depende do bom funcionamento do aeroporto.

A NATO reconhece ter encontrado "uma resistência maior do que esperava", mas garante "ter alcançado em duas semanas dois terços dos seus objectivos e morto mais de 500 talibãs", segundo o porta-voz da Aliança em Bruxelas. Mas em Maio, ainda antes da NATO assumir (em Julho) o comando das operações em todo o Sul do Afeganistão, a coligação liderada pelos Estados Unidos também se orgulhara de ter "quebrado a espinha" dos talibãs na batalha de Panjwayi e morto ou capturado centenas de rebeldes. Dois meses mais tarde, estes não só tinham recuperado as posições perdidas como alargado o seu controlo as seis províncias do sul e sudoeste.

A ISAF não quer repetir o erro e pretende restaurar de forma duradoira a segurança na região. Mas os talibãs, melhor organizados e equipados do que antes, não são o único obstáculo a vencer. Numa região que produz cerca de 80% do ópio afegão, são muitos os interessados no tráfico: senhores da guerra, governadores, polícias.

E toda a intervenção militar que se prolonga sem resultados à vista cria na população amargura e desânimo, sentimentos fáceis de manipular e de transformar em revolta , quando civis são vitimas de bombardeamentos ou atacados "por engano" quando assistiam a uma boda ou a um funeral.

Kandahar não é Bagdade, mas o Afeganistão vive actualmente a pior onda de violência desde o derrube do regime dos talibãs em 2001. Desde o início do ano os atentados suicida já causaram 173 vítimas em todo o pais, incluído Cabul.

"Ainda não houve ataques-suicida contra o aeroporto de Kandahar", disse ao EXPRESSO, por telefone, o tenente coronel Serra Pedro, comandante da força portuguesa. Mas, há dias, um suicida fez-se explodir numa mesquita da cidade. Em Julho, outro bombista atacou uma coluna canadiana de reabastecimento, causando um morto e três feridos entre os militares. Num mes, o contingente canadiano, ponta de lança da operação Medusa, teve 34 mortos e os britânicos perderam 14 militares de uma vez no derrube de um avião de reconhecimento.

A NATO disse que com mais 2500 homens deslocados no sul poderia fazer mais e melhor. Os portugueses permanecerão em Kandahar "em principio quatro a seis semanas", mas o calendário das rotações pode sempre ser alterado e a missão no Afeganistão é de seis meses. Serra Pedro garante que "o moral é alto" e que os seus homens "sabiam ao que iam, foi para isso que nos preparamos. Se calhar até gostariam de uma missão com mais acção e movimento".