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Dar um pontapé na sida

Imagem do documentário "Amanhecer em Lusaka", de Silas Hagerty

Silas Hagerty

Em África, o futebol é uma religião. Uma ONG descobriu que pode também ser uma importante arma contra a principal epidemia que afecta o continente. (veja o vídeo no fim do artigo)

Como combater a sida num continente onde cerca de 22,5 milhões de pessoas vivem com a doença? A pergunta não tem resposta fácil mas a encontrada pela Grassroot Soccer é, no mínimo, engenhosa: esta ONG, fundada no Vermont, Estados Unidos, em 2002, quer utilizar o futebol para disseminar entre os jovens africanos o conhecimento sobre a sida e VIH.

Desde que o primeiro programa foi lançado, em 2003, mais de 200 mil crianças passaram pelos campos de treino da Grassroot Soccer em 11 países africanos, incluindo o Zimbabué, o primeiro país a receber a iniciativa, África do Sul, Zâmbia, Botswana, Etiópia, Lesoto, Libéria, Sudão, Namíbia, Costa do Marfim e Burkina Faso. Entre pontapés na bola, os técnicos da ONG ensinam como fintar o vírus num continente onde a doença é ainda um tabu apesar de constituir uma epidemia letal, que dizima cerca de 1,6 milhões de vidas todos os anos.

Para fazer chegar a mensagem aos mais jovens, os responsáveis da organização perceberam que teriam que ir além das tradicionais técnicas de distribuição de material e informação sanitária. Para isso, treinaram vários ex-jogadores, muitos deles antigas estrelas da modalidade em África, para, com o futebol como pano de fundo, fomentarem a consciencialização sobre a sida e ensinarem estratégias de prevenção da doença.

O princípio é simples: os responsáveis da ONG acreditam que as crianças aprendem melhor ouvindo as pessoas que respeitam e, por isso, os seus ídolos têm uma maior facilidade em fazer-lhes chegar a mensagem. Por outro lado, os resultados são mais positivos se elas forem envolvidas no processo - muitas participam transmitindo informações sobre a doença aos colegas - ao invés de serem meros espectadores.

"Em África, todas as crianças querem crescer e ser um futebolista profissional. É o desporto mais popular, por isso pode imaginar o que acontece quando estes heróis entram nas suas salas de aula e os ensinam sobre a sida. Saltam, riem, falam e tocam estes jogadores. Ouvem o que eles dizem com os ouvidos bem abertos e estão mais receptivos ao que aprendem", contou numa entrevista Ethan Zohn, um dos fundadores da ONG.

A bola que representa a sida

As estratégias recorrem, muitas vezes, a jogos simples. Num deles, os jovens são divididos em duas equipas, alinhadas frente a frente. Os elementos de uma das formações passam, atrás das costas, uma pequena bola aos seus colegas enquanto a outra equipa tem que adivinhar onde está a bola. A pequena esfera representa a sida e a mensagem é simples: as aparências iludem e a cara de uma pessoa não é suficiente para dizer se ela tem ou não a doença.

"Sabemos que as crianças não estão interessadas na sida, mas sim no futebol. Tanto melhor se unimos as duas coisas", afirma um dos treinadores no filme, "Amanhecer em Lusaka", um pequeno documentário de sete minutos gravado num dos campos da iniciativa na Zâmbia pelo jovem realizador independente americano Silas Hagerty. (veja o vídeo no fim do artigo)

Futebolistas solidários

A Grassroot Soccer foi co-fundada por Tommy Clark, um ex-jogador de futebol que actuou alguns anos no Zimbabué, e Ethan Zohn, vencedor do "reality show" 'Survivor: Africa', que foi guarda-redes do Highlanders FC, também do Zimbabué.

A ONG pretende envolver cerca de 1,25 milhões de jovens africanos nos seus programas até ao final de 2010 e afirmar-se como o melhor programa de prevenção da sida em África. Para isso, conta com o financiamento de várias entidades, incluindo a Fundação Bill e Melinda Gates, o banco Barclays, a DaimlerChrysler e Johnson & Johnson, entre outras.