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Dalila Rodrigues afastada do Museu de Arte Antiga

A tutela invoca como razão para a saída da directora apenas a sua discordância quanto ao modelo de gestão dos museus nacionais.

Depois de ontem à tarde a directora do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), Dalila Rodrigues, ter inaugurado com êxito a exposição "Tapetes em Portugal", a tutela chamou-a hoje de manhã para lhe comunicar que não seria convidada para nova comissão de serviço.

"Sinto-me ofendida", disse ao Expresso Dalila Rodrigues. "Este é simplesmente o afastamento de uma pessoa que expressou livremente o seu pensamento", continua. A ex-directora do MNAA foi a primeira e única a discordar abertamente do actual modelo de gestão dos museus nacionais, para os quais defendia uma autonomia financeira. "O meu contributo era no plano das ideias e sinto-me tristíssima que neste país já ninguém possa expressar a sua opinião. De repente tornei-me incómoda".

Opinião crítica na base do afastamento

Ontem, enquanto era cumprimentada na inauguração da exposição do MNAA por Manuel Bairrão Oleiro, director do Instituto de Museus e da Conservação, este comunicou-lhe que queria falar com ela hoje no Palácio da Ajuda. "Pensei ingenuamente que o assunto fosse a programação do próximo ano que estava a ultimar, mas foi-me dito de imediato que seria acertada do cargo". A única razão invocada por Bairrão Oleiro para a não continuidade de Dalila Rodrigues à frente do MNAA foi a sua posição face ao modelo de gestão.

"O senhor director do Instituto de  Museus e da Conservação já alegou que eu impus uma série de condições para me manter na direcção do museu, mas isso é completamente falso", continua Dalila Rodrigues. "A única questão que lhe coloquei, depois de conhecer a razão do meu afastamento foi se tinha sido uma decisão dele ou da senhora ministra. Respondeu-me que foi uma decisão conjunta".

A ex-directora do MNAA não deixa de levantar a mesma critica à tutela e acusa o Ministério da Cultura de uma "total incapacidade para encontrar um modelo de gestão adequado".

Trabalho exemplar

Durante a sua gestão, iniciada em Setembro de 2004, o Museu Nacional de Arte Antiga duplicou o número de visitantes. Em 2003 passaram pelo museu das Janelas Verdes 71.973, em 2006 os visitantes foram 192.452. Pela mesma ordem de comparação, antes e depois da sua direcção, as receitas da instituição passaram de 250 mil euros, em 2003, para um milhão e 109 mil euros, em 2006.

"Os resultados são estes. Estão à vista de todos. Apesar de, para o dr. Oleiro, o meu tenha sido um bom trabalho de divulgação. Até dos tectos todos a cair e actualmente completamente restaurados se esqueceu", adianta ainda e vai mais longe: "Em finais de Março deste ano, quando Paolo Pinamonti foi afastado do S. Carlos, alguém me avisou que a próxima a ser convidada a sair seria eu, não quis acreditar. Mas, de facto, ambos tínhamos discordado da tutela", comenta ainda Dalila Rodrigues, que, já em casa, passou todo o dia de hoje a receber telefonemas de anónimos e amigos do museu que lhe quiseram manifestar todo o apoio. A onda de solidariedade pode mesmo vir a ser semelhante à que juntou várias individualidades em defesa do ex-director artístico do S. Carlos.

O Ministério da Cultura não comenta a decisão. Entretanto, já fez saber que em substituição de Dalila Rodrigues, cuja comissão de serviço terminaria em Novembro, dirigirá o MNAA Paulo Henriques, transitando do Museu do Azulejo.