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Atualidade / Arquivo

Crianças rejeitadas sonham voltar para os pais biológicos

Depois de terem sido retiradas a um lar que os prejudicava, os meninos que não são adoptados acalentam o desejo de poder voltar às suas famílias.

A Casa dos Rapazes em Faro é uma instituição que se dedica à protecção de crianças em risco. Duas dessas crianças são o Ruben e o Márcio ambos com 10 anos, uma idade que os coloca fora das preferências dos casais adoptantes. Os meninos sentindo-se rejeitados alimentam um sonho: voltar a casa.

Apenas um em cada 20 candidatos opta por adoptar uma criança acima dos 10 anos, o que coloca as crianças com mais idade praticamente fora do circuito de adopção. Estes meninos julgam-se presos à Casa dos Rapazes até à maioridade e começam a alimentar a esperança de regressarem, aos pais biológicos, padrastos ou avós.O que nem sempre acontece.

Ruben é natural de Olhão onde vivia com a mãe e a avó, chegou à Casa dos Rapazes há dois anos e sabe que a sua permanência na instituição pode estar a terminar. “Está quase a acabar o meu tempo aqui, o juiz disse dois anos”, acredita o menino, pouco consciente do futuro que o aguarda.

Se a família continuar a enfrentar graves problemas financeiros e não tiver capacidade para cuidar do Ruben, a criança poderá ter que ficar na instituição por mais um período de tempo, que por vezes poderá ser até à maioridade.

Márcio é outro dos rostos desta tragédia silenciosa. Também foi retirado à família constituída pela mãe, padrasto e quatro irmãos. Viviam perto do largo da feira, no centro da capital algarvia e um dia tudo mudou para ele. “Estava na escola e trouxeram-me para a casa dos rapazes”, recorda com a inocência própria das crianças.

Infâncias supensas

Embora se sinta feliz na instituição, onde tem que respeitar regras e horários, bem como lavar os dentes todos os dias – ao contrário do que acontecia na sua casa – Márcio é bastante explícito quanto às saudades que sente da mãe, do padrasto e dos irmãos.

As duas crianças são o paradigma das muitas infâncias suspensas em Portugal: sem poderem regressar às famílias biológicas e longe das preferências dos casais adoptantes, resta-lhes o limbo das instituições.

Ruben e Márcio sem perceberem bem o que os levou até este novo lar, que lhes poderá vir a proporcionar mais do que as suas famílias, estão na eminência de ficar na Casa dos Rapazes até atingirem os 18 anos, segundo explicaram à agência Lusa, António Barão e a psicóloga Dora Barbosa, presidente da instituição e a directora técnica, respectivamente.

Ambos desejam o melhor para as crianças, que seria obrigatoriamente o regresso às famílias, mas para Dora Barbosa as ilusões acabam rapidamente. “Há suporte afectivo mas depois falta suporte financeiro. Muitas das vezes há negligência a nível da alimentação, escolaridade ou de higiene”, lamentou a psicóloga.

António Barão responsável pela instituição que alberga 60 crianças e jovens, sabe, por experiência própria, que o ideal por vezes anda de mãos dadas com o impossível, e se alguns rapazes acabam mesmo por ficar até aos 18 anos, há outros que mesmo depois de atingirem a maioridade voltam à casa que os criou.

“Muitos dos rapazes não sabem que rumo dar à vida e sentem-se sós, por isso, continuam ligados à instituição, nem que seja para virem comer e lavar a roupa, embora vivam fora da Casa dos Rapazes e sigam os seus próprios horários”, referiu o presidente.

Maior flexibilidade de quem adopta

Segundo Armando Leandro, presidente da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco, não critica nem condena as famílias por preferirem adoptar crianças até aos seis anos e completamente saudáveis, mas acredita ser “necessário um incremento da cultura de adopção”.

Visão partilhada por Idália Moniz, secretária de Estado Adjunta e da Reabilitação que em declarações à Lusa clarificou que a celeridade nos processos de adopção passam obrigatoriamente por uma maior flexibilidade dos candidatos em aceitar crianças com problemas de saúde ou com mais idade.

Segundo dados oficiais, de um total de 2113 candidatos à adopção apenas um está disposto a aceitar uma criança com problemas de saúde graves.

Das listas nacionais de adopção estão em condições legais para serem adoptadas 806 crianças e jovens, com idades entre os 0 e os 15 anos. Destas 75 têm problemas de saúde graves, 163 têm problemas ligeiros e 67 possuem uma deficiência.