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Corrupção marca campanha eleitoral

Manifestações violentas e acusações de corrupção ensombram a campanha eleitoral no México. Felipe Calderón e Andrés Obrador chegaram a um «empate técnico» nas sondagens.

E o terceiro em liça, Roberto Madrazo, do Partido Revolucionário Institucional (PRI), o ex-«partido quase único» não se dá por vencido. As sondagens dão o PRI em primeiro lugar nas eleições legislativas, que se realizarão também a 2 de Julho, à frente do PAN e do PRD (Partido Reformador Democrático), sendo este o líder da coligação de Obrador.

Os outros dois candidatos, Patricia Campa, da Alternativa Social Democrata e Camponesa, e Roberto Campa, da Nova Aliança, contam pouco. Líderes de partidos criados em 2005, só aspiram a sobreviver ao primeiro embate com os «dinossauros» da política mexicana.

No início da campanha, em Janeiro, o conservador Felipe Calderón estava em clara desvantagem face ao favorito AMLO. Mas chegou a inverter a tendência com uma estratégia simples: distanciar-se de Fox e dos resultados menos bons dos últimos seis anos, bipolarizar a campanha ignorando o PRI, dado como moribundo, e apresentar Obrador (única alternativa à sua própria vitória) como um louco e perigoso esquerdista, amigo de Hugo Chávez, Fidel Castro e Evo Morales.

Até Maio, a campanha panista, bem secundada pela imprensa privada e pela Igreja Católica, parecia imparável.

Líder de sondagens

De há um mês a esta parte, AMLO reconquistou a liderança das sondagens, ainda que por uma margem mínima, graças sobretudo ao cunhadogate (alegado escândalo envolvendo um cunhado de Calderón) e a campanha «oficialista» perdeu gás. Calderón já aceita o apoio de Fox, recuperou parte do programa social dos seus adversários e deixou de ser o defensor incondicional do livre comércio e das privatizações.

Em 2001, Fox, o gigantón com botas e chapéu à «cowboy», tinha capitalizado o desejo de mudança de milhões de mexicanos. O seu estilo comunicativo e popular era muito diferente do ar sisudo e engravatado de Calderón. Graças a ele, Fox «caçou» votos muito além da direita conservadora, de que nunca foi líder.

Com AMLO acontece o mesmo, mas pela esquerda. A perseguição movida contra o carismático ex-presidente do Distrito Federal (que concentra cerca de 20% da população do México), obrigado a demitir-se por uma questiúncula administrativa empolada pelo PAN e pelo PRI, fez dele o porta-bandeira de todos os excluídos e vítimas dos abusos do «establishment».

Obrador ganhou as «primárias» do PRD contra a vontade do líder histórico do partido, Cauthemoc Cardenas, fez uma coligação com dois pequenos partidos de esquerda e arrolou vários dissidentes do PRI.

Os pobres primeiro

Com o seu lema «Os pobres, primeiro», Obrador pôs o dedo na ferida da propaganda oficial que garante que «o México está no bom caminho»: o aumento da pobreza, da exclusão e das desigualdades sociais no país da América Latina que mais exporta e mais atrai investimentos estrangeiros. É este paradoxo que leva 400 mil mexicanos a arriscar todos os anos a vida para entrar ilegalmente nos EUA fugindo ao desemprego e à miséria.

«O México está à beira de uma explosão social», sentencia o mediático «subcomandante Marcos», líder da revolta zapatista de 1994, que se negou a apoiar Obrador.

As manifestações desta tensão não faltam: esta semana, a polícia dispersou violentamente dezenas de milhares de professores que ocupavam, há três semanas, o centro da cidade de Oaxaca, causando uma centena de feridos. Os confrontos entre a polícia e camponeses ou mineiros multiplicam-se, sempre com vítimas mortais, e a insegurança urbana e a violência dos cartéis da droga e quadrilhas de sequestradores são a face obscura do «milagre económico» mexicano.

Obrador propõe as receitas clássicas para reduzir o fosso entre ricos e pobres: obras públicas, infra-estruturas, pensões de reforma para todos os maiores de 70 anos, mais consumo interno e menos exportações. Os seus adversários acusam-no de ter deixado a Cidade do México pesadamente endividada. Mas a população agradece.

Apesar do «pacto de boa conduta», assinado quarta-feira pelos principais partidos sob os auspícios do Instituto Federal Eleitoral, as próximas semanas vão ser «quentes». No México, não há segunda volta, e os candidatos vão ter de dar tudo por tudo para roubar audiência ao Mundial de Futebol. Segundo os politólogos, se as águias aztecas não são eliminadas antes (por Portugal?), uma vitória no jogo de 1 de Julho pode dar asas a Calderón.