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Coro de protestos pela Festa da Música

O EXPRESSO inicia uma campanha de apoio ao maior evento de música clássica realizado em Portugal.

Ao fim de sete anos a Festa da Música abandona Lisboa devido a cortes orçamentais. O evento que conseguiu levar a música clássica a todas as faixas etárias e classes sociais era o ponto mais alto de toda a programação do maior equipamento Cultural de Lisboa.

Só na última edição venderam-se cerca de 50 mil ingressos, sendo a taxa de ocupação das sete salas disponíveis para os 115 concertos realizados de 94%. Essa 7.ª edição da Festa da Música, dedicada ao Barroco, foi considerada a segunda melhor de sempre. Só em 2005 a Festa recebeu mais visitantes. A importância do evento e o seu sucesso em Lisboa levou mesmo o ex-presidente da República, Jorge Sampaio, a condecorar em 2005 o seu criador e director artístico, René Martin, com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique.

A Festa deste ano, que já estava programada, seria dedicada às Escolas Nacionais, de Grieg a Bizet, de Mussorgsky a Manuel de Falla, de Borodin a Vianna da Motta, e esperava contar com o apoio financeiro da Câmara Municipal de Lisboa (CML), tal como acontecera o ano passado. Mas o novo modelo criado por António Mega Ferreira, presidente do Conselho de Administração do CCB, não deverá receber a mesma verba da autarquia lisboeta.

O vereador da Cultura da CML, José Amaral Lopes, afirmou ao EXPRESSSO que o protocolo de colaboração financeira assinado entre a autarquia e o CCB para a Festa da Música terminou a partir do momento em que o modelo se alterou. O protocolo previa o apoio da Câmara com uma verba no valor de 100 mil euros anuais até 2008. “O protocolo estava estipulado com base no modelo Festa da Música, um evento de qualidade, com um reconhecimento e padrões internacionais acima da média. O novo projecto ainda não o conheço, o que não quer dizer que a autarquia não esteja disposta a colaborar mas não nos mesmos moldes”, afirma Amaral Lopes.

O vereador da Cultura diz precisar que lhe seja apresentada uma nova proposta que terá de analisar e posteriormente apresentar em reunião de Câmara, “o que não é de modo nenhum automático”. Amaral Lopes adianta ainda que mesmo que se decida apoiar o novo projecto ‘Os Dias da Música’, a verba que será disponibilizada não poderá ser idêntica. “Se o Estado corta violentamente o orçamento do CCB, que legitimidade tem o CCB para exigir que a autarquia mantenha o mesmo apoio?”, conclui.

 

TRÊS PERGUNTAS A

Isabel Pires de Lima, Ministra da Cultura

De quem é a responsabilidade do fim da Festa da Música?

É uma decisão do Conselho de Administração do Centro Cultural de Belém, que tem a total liberdade de constituir a sua programação de acordo com o orçamento que tem disponível. O Ministério não interfere nem nunca interferirá nas opções programáticas do CCB. Devo dizer, no entanto, que estou em total consonância com a opção tomada.

Porque é que a Festa da Música não esteve entre as suas prioridades?

Essa é uma questão que deve ser respondida pelo Conselho de Administração do CCB, mas que, na minha opinião, passa obviamente por uma gestão equilibrada de um orçamento que não deve ser esgotado em dois terços num período de três dias.

Quem fica a perder?

A programação do CCB é que fica a ganhar. Devo dizer que as opções programáticas para 2006/ 2007 revelam um aumento de qualidade muito substancial em relação à temporada anterior.

 

TRÊS PERGUNTAS A

António Mega Ferreira, Presidente do Conselho de Administração do CCB

Quem é o responsável pelo fim da Festa da Música?

Conselho de Administração do CCB, designadamente o seu presidente, que sou eu.

Que alternativas havia?

No actual quadro orçamental, pensamos que a melhor alternativa é a que propomos: a realização de um evento de alta qualidade com um programa menos intenso e uma mais racional gestão dos recursos e do controlo orçamental. A hipótese de reformulação da Festa da Música para o orçamento disponível (400 mil euros, em vez de 1,2 milhões de despesa da edição de 2006) seria uma forma insustentável de vender gato por lebre.

Depois de o CCB ver ocupado o Centro de Exposições pela Colecção Berardo, contra a sua vontade, e do fim da Festa da Música, porque não se demitiu?

Quanto ao Centro de Exposições, o que está em jogo pode ser de tal forma importante para o país que demitir-me sem que o futuro museu possa provar a sua utilidade poderia ser lido como um gesto de soberba pessoal. Quanto ao fim da Festa da Música, sejamos claros: não é uma tragédia, é um contratempo. Se tiver que me demitir, não há-de ser sem fazer tudo o que está ao meu alcance para superar as crises e criar soluções alternativas viáveis.