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Conversa global

Se quer dizer o que pensa e pensa que não pode, está enganado. Crie um blogue e mergulhe na grande conversa global. Está tudo no livro ‘Geração Blogue’, do especialista italiano em cultura digital, Giuseppe Granieri.

Num dos seus últimos combates políticos, aquela que poderá vir a ser a primeira mulher presidente de França, Ségoléne Royal, definiu a sua estratégia: “Levei toda a campanha eleitoral a fazer fóruns. Quando falamos com as pessoas, ao fim do dia estamos cansados mas cheios de ideias. Se continuamos a fazer política só entre nós, nunca chegaremos a nada”.

Esta história, é apenas a última de tantas outras que Giuseppe Granieri, um dos maiores especialistas italianos em comunicação e cultura digital, conta no livro ‘Geração Blogue’ (Editorial Presença, 2006).

Além do impacto que a blogosfera – gigantesca “rede de passa-a-palavra”, como lhe chama Granieri –, está a ter sobre alguma classe política, o especialista analisa ainda a forma como esta se relaciona com os media tradicionais. Mas já lá vamos.

A blogosfera é constituída actualmente por cerca de 40 milhões de diários mais ou menos íntimos – número avançado por Andrew Wychoff, da OCDE, no 16.º Congresso das Comunicações. Cada um desses diários – os blogues –, sustenta Granieri, “são um ‘format’ diferente, novo, que não é possível descrever com base em modelos já conhecidos”. Na medida em que qualquer pessoa com acesso à Internet pode criar um novo blogue, a sua difusão acabou por ligar milhões de indivíduos “convertendo a rede de conteúdos em infra-estrutura de discussão”.

Cada texto publicado – ou «post» – pode ser comentado por qualquer pessoa, gerando uma enorme cadeia de comentários. Frequentemente, os bloguistas estabelecem links entre comentários submetidos em diferentes blogues, mas também para outros sites com informação relevante, o que só vem estender ainda mais o debate.

Para Granieri, este sistema em que milhões de pessoas filtram conteúdos e a partir deles produzem outros novos, permite falar em “meio de comunicação de massas através da Rede”. O especialista italiano chega mesmo a afirmar: “Pela primeira vez na história do homem, a opinião de uma só pessoa pode tornar-se efectivamente pública”.

E isto acontece, não há luz da lógica editorial como é apanágio dos média tradicionais, mas através do reconhecimento dos membros da comunidade que promovem estas opiniões, comentando-as, linkando-as, tornando-as acessíveis a um número cada vez maior de membros.

O lobo! O lobo!

Por mais paradoxal que possa parecer, nota Granieri, a relação entre os média tradicionais e a blogosfera é como a história de Pedro e o Lobo. “Depois de terem gritado: “O lobo! O lobo!”, alertando para as modificações que a Internet estava a operar na sociedade, “têm hoje muita dificuldade em compreender que algo aconteceu realmente”.

“Perante uma ocasião extraordinária para o seu trabalho – acrescenta Granieri – muitos profissionais do sector parecem cegos e, conhecendo apenas por terem ouvido falar, procuram convencer-se de que o lobo não existe”.

Ora, se tempos houve em que se confundiu blogues e jornalismo, hoje sabemos que quase nada terão em comum. Para o autor de ‘Geração Blogue’, “a blogosfera é o lugar da conversa sobre o mundo. Na grande conversação a única lei é o respeito recíproco, e a punição é uma redução de atenção”.

A primeira ‘campanha blogue’

Foi precisamente para captar a atenção dos eleitores que o Governador norte-americano, Howard Dean, entre finais de 2003 e o início de 2004, realizou a primeira campanha eleitoral centrada na blogosfera.

Com poucos recursos, impossibilitado de se deslocar a todos os Estados, a Internet tornou-se o sistema nervoso central da campanha: “Blog for América”.

Os resultados eleitorais foram desastrosos, mas Joe Trippi, uma das almas da equipa, afirmou: “A blogosfera foi o lugar em que tivemos ideias, ‘feedback’, apoio e dinheiro”.

A aventura pioneira de Howard Dean, constitui o ponto de partida para a análise que Giuseppe Granieri faz da relação entre o sistema político e a Internet.

“Dean abriu um caminho” afirma o especialista italiano, lembrando que, mais tarde, também George Bush e Jonh Kerry entraram na Rede “de maneira empenhada e contínua”.

A experiência norte-americana permite a Granieri afirmar que: “Na Rede as pessoas fazem política, participam no debate, interessam-se pelas questões relevantes, decidem e agem em conformidade.”