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"Continuo a orgulhar-me da minha arquitectura do bairro"

É o 'pai' da Bela Vista. O arquitecto José Charters Monteiro, 65 anos, liderou em 1975 uma equipa de 30 especialistas (sociólogos, geógrafos e engenheiros) que construiu um bairro a pensar nos operários da Setenave.

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Na altura, apelidaram-no de fascista, por não ter desenhado casas mais espaçosas. 34 anos depois, José Charters Monteiro olha para a sua obra com orgulho e não se revê nas críticas de autarcas e moradores à sua arquitectura.

O que sente ao ver o bairro que projectou como centro de distúrbios sociais?

O problema da Bela Vista é humano e não de caliça. O bairro é uma amostra de gente socialmente desprezada há uma dezena de anos. As casas são mais do que decentes, parte da população é que não as sabe habitar. Muitas das pessoas vieram de bairros de lata, sem preparação para viver em casas e muito menos em andares acima do solo. É de lá que despejam o lixo e muitas vezes fazem até as suas necessidades fisiológicas.

A população e autarcas de Setúbal criticam a arquitectura do bairro, argumentando que faz aumentar o sentimento de exclusão.

Não me revejo nessas críticas. O bairro tem uma arquitectura sóbria, não estigmatizante. Ele não é de certeza a causa dos crimes. É uma arquitectura civil no melhor sentido do termo: útil e até com alguma beleza. Com uma articulação entre espaços rara em Portugal. A hierarquia dos espaços verdes, do espaço colectivo, dos espaços de circulação e dos fogos é imbatível.

As pessoas põem em causa, por exemplo, as varandas sem divisórias, que impedem a privacidade. Ou a cor dos prédios (azul, amarelo e rosa), que as estigmatiza do resto da população de Setúbal.

As galerias (varandas) foram pensadas para serem espaços de convívio entre a comunidade. E não foram feitas à balda: estão viradas de modo a aquecer as pessoas no Inverno e a refrescá-las no Verão. As cores também não são um problema. Se pintássemos os prédios de branco, hoje teríamos de andar de óculos escuros para não ofuscar a vista, pois é uma zona de muito sol.

Sente orgulho na sua obra?

Sinto, nas condições em que foram feitas na altura. Entregámos as casas em tempo recorde (um ano e meio) e a custos muito baixos. O plano foi feito com uma enorme economia de meios. O país estava falido. O primeiro edifício tinha o custo de 2600 escudos (€13) o metro quadrado. Muito baixo se compararmos com o bairro do Siza Vieira na Falagueira, que custou três vezes mais.

Houve cortes de orçamento na altura?

Só na dimensão dos fogos. Não no material, que é muito bom. Aliás, em trinta anos tem resistido a todos os distúrbios e nunca foi reparado.

As casas são demasiado pequenas?

Não. As tipologias, à época, eram do melhor que havia: 65 fogos por hectare. Numa reunião com moradores, em 1975, apelidaram-me de fascista. Queriam o quê? Ter casas com lotes brutais, com quintinhas?

Tem ido ao bairro nos últimos tempos?

Sim, algumas vezes. Este ano, já lá fui.

E ouve as críticas das pessoas?

A mim não se queixam das casas nem da arquitectura. Mas qual é o resultado possível quando se amontoam três gerações no mesmo espaço? Se vivessem um mês na casa do Dias Loureiro, ela não ficaria em melhor estado.

Texto publicado na edição do Expresso de 16 de Maio de 2009