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Confusão é a palavra para Bolonha

No segundo dia da IV Convenção da European Universities Association (EUA), a decorrer em Lisboa, professores e membros das associações de estudantes não têm dúvidas de que a reforma do Ensino Superior não é ainda um processo claro, transparente e objectivo.

Até que ponto as universidades "produzem" graduados com capacidades suficientes para responder às exigências do mercado de trabalho? Esta é uma das perguntas-chave que docentes e alunos querem ver esclarecida pelas directrizes do Processo de Bolonha já em curso em muitos países. E a questão prende-se essencialmente com dois paradigmas: por um lado, o legado de prestígio e erudição académica que as universidades não querem perder e, por outro, a transformação do conceito de profissão.

É ponto assente que o emprego permanente já não é o modelo da sociedade actual. A flexibilidade e polivalência passaram a caracterizar os requisitos privilegiados pelas empresas à procura de maior competitividade, ao mesmo tempo que mudar de emprego ou de funções se tornou a prática mais comum no seio das mais recentes gerações de profissionais. Perante este quadro, os professores responsáveis pelas alterações dos currículos das licenciaturas, face ao Processo de Bolonha, não sabem literalmente o que fazer.

"Que tipo de conteúdos vamos ensinar aos nossos alunos? Continuamos a oferecer-lhes currículos técnicos e específícos consoante a sua área de estudo, ou criamos novos temas de aprendizagem baseados em conhecimentos mais básicos e abrangentes, ou seja, metodologias que os ajudem nos vários empregos que poderão vir a ter?", a questão é lançada por Marino Regini, vice-reitor da Universidade de Milão. Ninguém sabe a resposta. Ainda por cima, porque a reforma que a Europa quer pronta em 2010 não está a ter em conta a ausência de diálogo entre a sociedade, nomeadamente as entidades empregadoras, e as instituições de ensino superior. "Um diálogo que tem que ser equilibrado. Não podemos deixar que sejam os empregadores a decidir por nós o que devemos ensinar aos nossos alunos e em quanto tempo", defende Regini.

Os verdadeiros protagonistas da mudança a que o Processo de Bolonha obriga confrontam-se com um enorme conjunto de dúvidas. Ainda não há certezas de nada nesta discussão confusa e complexa da reforma do ensino superior. É por isso que as críticas à falta de transparência das directrizes europeias são muitas. Uma das principais é também a falta de lógica na obrigatoriedade de redesenhar licenciatura mais curtas para dar resposta mais rápida às necessidades do mercado de trabalho, significando isso uma perda clara na qualificação dos alunos. "É absolutamente absurdo falarmos em três anos para uma licenciatura e depois acrescentarmos-lhe mais um ou dois para que o aluno possa exercer alguma profissão e esteja qualificado para ela ao mais alto nível, que é obviamente o que pretendemos", reclama Bruno Carapinha, membro do Comité do Processo de Bolonha enquanto representante da National Unions of Students in Europe.

Mas a maior preocupação recai sobre a falta de atenção que Bolonha parece querer dar às licenciaturas, o chamado 1.º ciclo em linguagem académica.

"Os estudantes de hoje já não sabem o que podem fazer se tirarem apenas uma licenciatura. Estão a ser bombardeados com a necessidade de tirarem pelo menos um mestrado e até mesmo um doutoramento. O Processo de Bolonha só está a confundi-los. E é urgente explicar-lhes com que grau académico devem ou podem ficar", afirma ao Expresso David Crosier, director do Programa de Desenvolvimento da EUA, aludindo a uma consequência imediata das directrizes europeias que apostam no novo conceito do «long life learning»: "Que dinheiro temos nós para encorajar os alunos a estudar mais, como determina Bolonha. O 'long life learning' cria um efeito absolutamente perverso neste processo", continua. "Antigamente o mercado de trabalho tinha confianças nas capacidades profissionais de um licenciado. Hoje exige no mínimo um mestre. Isto não acontece só porque pretende dos seus empregados maior qualificação, acontece porque nem nós sabemos que competências queremos oferecer a um licenciado", conclui.