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Como Sócrates condiciona a informação

Governo socialista monta estratégia de comunicação contra «jornalismo de intriga e politiquice».

AO CONTRÁRIO do Governo PSD/CDS, que projectou institucionalizar (e viu vetada pelo então Presidente Jorge Sampaio) uma central de comunicação sediada na Presidência do Conselho de Ministros e tutelada por um director-geral, José Sócrates optou por centralizar em S. Bento a estratégia de comunicação do Executivo socialista e definiu regras espartanas: sempre que não esteja em causa divulgar ou promover acções do Governo, o silêncio é a alma do negócio.

«A estratégia de comunicação do Governo é um assunto interno sobre o qual não falamos», afirmou ao EXPRESSO Luís Bernardo, assessor do primeiro-ministro (PM). Esclarecendo que o papel dos assessores é «divulgar e promover o que o Governo está a fazer». Mais do que engrossar o caudal de informação, os assessores devem vender a obra de Sócrates. Nada de inovador, não fosse a forma radical como o Governo reage ao que considera ser «jornalismo de intriga» ou «politiquice».

«Tudo o que seja intriga ou politiquice é para desvalorizar. E aí não falamos», explicam em S. Bento. E o que é o jornalismo de intriga? «São aquelas notícias sobre o que A diz de B ou o que B diz de C». Contraditório, polémica e contestação não são, sequer, para enquadrar. «A trave-mestra da comunicação é explicar a acção do Governo», insiste Luís Bernardo. O resto é para secar.

«Emprenhar pelos ouvidos»

«Se um jornalista faz notícias viradas para a intriga é natural que alguns assessores tenham medo de falar com ele», explicam em S. Bento. Onde desconhecem queixas de jornais relativamente a gabinetes que primam por não responder a perguntas menos coladas à agenda oficial.

A título de exemplo: um «mail» do EXPRESSO para o assessor de imprensa do ministro da Administração Interna, António Costa, sobre críticas à atitude do Governo em relação à Prevenção Rodoviária Portuguesa, recebeu uma resposta, onde se lê: «Vejo que gosta de emprenhar pelos ouvidos». Posteriormente, um «mail» pedindo para se falar com o ministro sobre a reorganização da Segurança Interna, obteve como resposta: «Não será possível. Este é um tempo para o Governo ouvir, não para falar. Tratando-se do EXPRESSO, essa posição é mesmo reforçada!».

Um insistente pedido de entrevista à ministra da Educação não foi melhor sucedido - segundo o seu assessor, a ministra só dá a entrevista se não for ao jornalista que cobre a área no jornal. Quanto às tentativas para chegar à fala com o ministro da Presidência, Pedro Silva pereira no âmbito de um trabalho sobre a relação PS/Governo, obteve como conselho de um assessor: «Só se tentar apanhá-lo ... talvez no Parlamento».

Reuniões extintas

O gabinete de Sócrates sublinha que ter «sempre a liberdade de dizer que não falamos» e confirma que, «muitas vezes opta-se pela diversificação de contactos», privilegiando as direcções. E internamente, onde o PM sabe, por experiência de anos nos governos de Guterres, que a intriga não será menor do que a que germinará nos jornais, a questão também foi cortada pela raiz: acabaram as reuniões semanais entre assessores, para reforçar a eficácia e evitar fugas de informação.

Na condução do Governo, Sócrates segue o mesmo registo - prefere «partir pedra» em «petit comité» com os ministros mais ligados a determinado assunto do que alimentar discussões alargadas. E muitos dossiers só vão ao conselho de ministros quando o essencial está decidido

Sem ‘plano B’

A obsessão do primeiro-ministro por centralizar e manter o máximo controlo, quer da comunicação, quer da decisão, são vistos como uma vantagem. Ao contrário de António Guterres, que descentralizava em Jorge Coelho as funções de «bombeiro», José Sócrates prefere chamar a si a gestão do que de melhor e pior vai marcando a agenda.

Nos grandes anúncios é ele quem brilha e quando uma ameaça de crise espreita também é ele que telefona a aconselhar estratégias (foi assim, esta semana, com a ministra da Educação) e, sobretudo, a transmitir confiança. Enquanto o «élan» resistir, Sócrates não mudará nada. «A melhor estratégia de comunicação chama-se credibilidade», afirma Luís Bernardo, e S. Bento confia que «estes quatro anos vão ser sempre a este ritmo».

Se o ritmo se abalar, o epicentro da decisão continuará sediado em S. Bento, onde Almeida Ribeiro, adjunto político do PM, é peça-chave. Os vários gabinetes actuam com estilos diversos de acordo com os diferentes protagonistas. E até há quem garanta nunca ter recebido instruções especiais. Mas o apertadíssimo controlo da informação, a par do investimento na política de anúncios já apelidada pela oposição de «propaganda», não será coincidência.