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Colégios de elite perdem alunos

Nos Salesianos do Estoril, algumas famílias deixaram mensalidades em atraso

Nuno Botelho

Dificuldades económicas obrigam pais a cortar nas atividades e até a tirar os filhos das escolas privadas.

Joana Pereira Bastos (www.expresso.pt)

Habituado a lidar com encarregados de educação para quem o dinheiro nunca foi problema, o diretor do colégio St. Peter's School, em Palmela, onde estudaram os filhos de José Mourinho, deparou-se este ano ano letivo com uma situação inteiramente nova. Ao seu gabinete chegaram pais a pedir se podiam fasear o pagamento das mensalidades - a rondar os 400 euros - ou pagar a dívida entretanto acumulada apenas quando recebessem o subsídio de férias. E alguns tiveram mesmo de recorrer a empréstimos bancários para o fazer.

"Nota-se que há falta de dinheiro nas famílias. No fundo, muitos pais que eram de classe média-alta deixaram de o ser e tiveram de alterar os seus hábitos. Já não trocam de carro ou vão passar férias ao estrangeiro e têm de fazer um grande esforço para poderem manter os filhos no colégio", conta Armando Simão. Em cerca de 1000 alunos, "houve 30 ou 40 famílias que acabaram mesmo por retirar os filhos para o ensino público".

Descontos na mensalidade

No panorama dos colégios privados, está longe de ser caso único. Com o agravamento da crise económica, as altas mensalidades cobradas começaram a pesar nos bolsos das famílias, mesmo nas que têm maiores rendimentos. Ao longo do ano letivo que está agora a acabar, os pais cortaram nas atividades extracurriculares, pouparam nas refeições e muitos deixaram acumular propinas em atraso. Mas agora que está na altura de renovar as matrículas para o próximo ano, há quem já não tenha alternativa senão transferir os filhos para as escolas do Estado.

"Das famílias dos 870 alunos que frequentam o colégio, diria que cerca de 1/3 está a passar por dificuldades. Algumas disseram-nos que iam ter de tirar as crianças porque já não conseguem pagar. No passado ano letivo, também já tinha acontecido", diz a irmã Conceição Amorim, diretora do Colégio de Santa Doroteia, em Lisboa.

Para minimizar o impacto da crise e evitar a saída de estudantes, muitos externatos aceitaram reduzir os preços e não vão subi-los no próximo ano. "Fiel ao princípio de não permitir que nenhum aluno saia por razões económicas", a Escola Salesiana do Estoril, por exemplo, fez "descontos nas mensalidades" aos pais que estavam a ter mais dificuldade em pagar. "A crise também tem afetado as famílias dos nossos alunos e os seus reflexos notam-se bastante", lamenta o padre Joaquim Taveira da Fonseca, diretor da instituição, frequentada por 1460 crianças e jovens.

Procura diminuiu

Muitas outras escolas privadas fizeram o mesmo nos últimos meses. Mas apesar da redução dos preços e de outras iniciativas para captar alunos, como a criação de bolsas de estudo para os melhores, o volume de novas inscrições baixou em muitos colégios, mesmo em alguns dos mais conceituados, onde as listas de espera são intermináveis.

No colégio Rainha Santa Isabel, em Coimbra, por exemplo, a procura é sempre muito maior do que as vagas existentes, o que faz com que todos os anos, em média, 1500 alunos fiquem de fora. Para o próximo ano letivo, a lista de espera continua a ser muito extensa, mas agora já não tem mais de 700 nomes.

"Sente-se o impacto da crise. Notamos que as pessoas apertam cada vez mais o cinto. Retiram os filhos das atividades e até deixaram de comprar os vídeos e as fotografias das festinhas da escola", conta a diretora, Maria da Glória Cordeiro.

A redução da procura está também a fazer-se sentir no Colégio Académico, em Lisboa, onde o baixo número de novas inscrições para o ensino secundário registado até agora deverá fazer com que, em Setembro, não seja possível abrir uma turma deste nível de escolaridade.

O problema é que todos temem que a situação piore no próximo ano letivo, já que o aumento de impostos só agora vai começar a fazer-se sentir. "Neste momento, já há colégios com problemas de dívidas a fornecedores. Se as coisas se agravarem, poderá haver situações de salários de professores e funcionários em atraso", alerta Rodrigo Queiroz e Melo, presidente da Associação dos Estabelecimentos de Ensino Particulares.

Estado apoia 26 mil alunos do privado

Sempre que há eleições, a questão da liberdade de escolha da escola dos filhos volta a ser discutida. Mas a verdade é que a lei já prevê há vários anos que o Estado apoie as famílias com menores rendimentos que optam por colocar os filhos em colégios privados. A comparticipação pública para o pagamento das mensalidades varia consoante os níveis de ensino e o rendimento dos agregados familiares. No 1º ciclo, por exemplo, o apoio pode chegar aos €1066 anuais. No total, 26 mil alunos beneficiam destas ajudas. Perante a crise económica, a Associação dos Estabelecimentos de Ensino Particulares (AEEP) quer que o Ministério da Educação aumente o valor dos apoios, alegando que sai mais barato aos contribuintes manter estas crianças no privado do que suportar o custo da escola pública. "O valor médio das comparticipações é muito abaixo de ¤1000, enquanto no ensino público cada aluno custa ao Estado cerca de €4 mil por ano", explica o presidente da AEEP, Rodrigo Queiroz e Melo.

Texto publicado na edição do Expresso de 26 de Junho de 2010