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Cisão ou reconciliação

O partido está cada vez mais debilitado e a precisar de novo fôlego. O ponto alto das celebrações será na quarta-feira, com uma palestra e um comício.

No dia em que completa meio século de existência – foi fundado em 19 de Setembro de 1956 – o Partido Africano da  Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), a mais antiga formação política das ex-colónias portuguesas de África, continua a debater-se com uma forte dissidência interna, que se arrasta há cerca de quatro anos.

O problema do PAIGC é semelhante ao da sua sede. O sólido edifício do centro da capital guineense, que na época colonial acolhia a Associação Comercial, está a precisar de uma profunda renovação. Contudo, as obras em curso, para receber as festividades do cinquentenário, não passam de reparações pontuais, pois o tempo é curto e o dinheiro é pouco.

Agora na oposição, apesar de ter ganho as últimas legislativas, o partido, que conquistou a independência em 1974 e conduziu quase sempre os destinos do país, está cada vez mais debilitado e a necessitar, por isso, de um novo fôlego.

Desde que saiu do poder, em 1999, e voltou entre 2004/05, o PAIGC não conseguiu reencontrar a unidade perdida após o conflito militar de Junho de 1998. E as direcções que então se sucederam, nunca tiveram a coesão e a autoridade das precedentes.

Com o fim, há sete anos, da liderança quase absolutista do general Nino Vieira, as disputas pelo controlo das estruturas e do aparelho não cessaram até hoje.

Nas vésperas do VII congresso – inicialmente marcado para meados de Setembro e adiado sem qualquer explicação – o pleito pode redobrar de intensidade e conduzir mesmo à implosão do partido.

Apesar das divergências, ninguém deseja este cenário, que abriria caminho ao provável regresso ao poder do PRS, o partido do ex-Presidente Kumba Ialá, que não deixou boas recordações.

Este receio é que explica mais um processo de reconciliação, com tumultuosas sessões de reintegração dos dissidentes, na sua maioria "ninistas". Entre estes, figuram o actual primeiro-ministro e alguns membros do seu gabinete. Em comum, têm o facto de terem purgado um ano de suspensão, pelo apoio dado à candidatura presidencial do velho general, regressado do exílio com o beneplácito da cúpula militar que o destituíra.

A celebração do 50.º aniversário do partido começou no dia 12 de Setembro, data do nascimento de Amílcar Cabral, líder fundador e figura emblemática da Guiné e Cabo Verde. Cabral teve direito a uma discreta cerimónia de deposição de coroas de flores no monumento onde repousam os seus restos mortais. Não muito longe, uma estátua sua jaz no solo e a "Carocha" branca, que utilizava quando foi assassinado, em 1973, permanece abandonada ao sol e à chuva.

Muitos militantes esperam que as comemorações, que terão o seu ponto alto quarta-feira, com uma palestra e um comício, sejam propícias à aproximação da família do PAIGC e ajudem a ultrapassar querelas, algumas delas de ordem meramente pessoal.

Incentivos para tal não faltam. A presença de antigos "companheiros de luta" africanos é um desses estímulos. Da longínqua África do Sul, virá o Kgalema Motlanthe, secretário-geral do Congresso Nacional Africano (ANC), no poder. O PAICV, partido governamental cabo-verdiano enviou um membro da sua direcção. Angola vai ser representada pelo antigo ministro das Relações Exteriores, Paulo Jorge, um dos "históricos" do MPLA.

Contudo, Luanda não se limita às relações inter-partidárias. As festividades coincidem com a chegada a Bissau de uma missão, para tratar da abertura da primeira embaixada angolana na Guiné-Bissau, que deverá ser conduzida por Brito Sozinho, um diplomata muito chegado ao Presidente José Eduardo dos Santos.