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Cegueira aumenta por falta de medicamentos

O elevado preço dos medicamentos é a razão principal de existirem mais de 30 milhões de cegos nos países mais pobres do mundo.

O acesso dos países pobres a medicação genérica mais barata seria, segundo um estudo da Oxfam, suficiente para salvar da cegueira 55 milhões de pessoas na próxima década. Tudo porque, “evitaria que os doentes tivessem de pagar preços inacessíveis por medicamentos de marca, que acabam por ser ainda mais caros do que nos países desenvolvidos”, argumenta Ariane Arpa, directora da Oxfam.

Segundo a especialista, “à medida que aumenta a esperança média de vida no mundo em desenvolvimento, o problema da cegueira nestes países tende a agravar-se caso não seja modificado o sistema de patentes e assegurada a comercialização de medicação genérica nos países mais pobres”. Uma realidade que poderia ser evitável, segundo Ariane Arpa, tendo em conta que segundo as estatísticas, “a cegueira é evitável em três de cada quatro casos”.

Ariane Arpa dá como exemplo o tratamento das cataratas, responsáveis por 50% dos casos de cegueira nos países mais pobres. Diz a especialista que “as cataratas podem ser tratadas com lentes de ultima geração que custam cerca de 116 euros por unidade e estão protegidas por, pelo menos, seis patentes diferentes tornado o tratamento muito caro”. Os especialistas consultados pela Oxfam para este estudo revelaram que “a versão genérica destas lentes poderia custar escassos sete euros por unidade”. Face a esta realidade, a opção é aplicar um tratamento menos eficaz e com reduzida taxa de sucesso.

A directora da Oxfam acredita que modificando o sistema de patentes e levando os genéricos aos países pobres se estaria a garantir a milhões de pessoas a possibilidade de uma vida digna, sem dependência de terceiros e longe da mendicidade a que ficam sujeitos muitos invisuais nos países subdesenvolvidos. Mas para a indústria farmacêutica, este não é o caminho. As grandes companhias farmacêuticas argumentam que “a modificação do sistema de patentes e o ataque à propriedade intelectual eliminará os incentivos à investigação”.

Um argumento que Ariane Arpa deita por terra referindo que “só 21 das 1556 novas substâncias comercializadas entre 1975 e 2004 estavam direccionadas para o tratamento de doenças especificas dos países pobres, como o paludismo e cerca de 90% das vendas farmacêuticas concentraram-se na Europa, América e Japão, sendo os mercados pobres marginais e não constituindo qualquer ameaça à capacidade de inovação das grandes indústrias .

O caso da Bolívia é tomado como exemplo neste estudo. Neste que é o país mais pobre da América latina, as regras de propriedade intelectual são restritivas proibindo a venda de genéricos. Como resultado,  a comercialização de medicamentos é mais cara do em Espanha.

O relatório agora apresentado enfatiza que “as regras da propriedade intelectual da Organização Mundial do Comércio e outros acordos comerciais protegem os interesses das grandes companhias farmacêuticas à custa de milhões de doentes”.

Ariane Arpa relembra que “no mundo existem cerca de 37 milhões de pessoas cegas, aproximadamente o mesmo número dos portadores do vírus de HIV/Sida”.