Siga-nos

Perfil

Expresso

Atualidade / Arquivo

“Cada país escolhe os seus amigos”

Samuel Santos é o único membro do Governo de Daniel Ortega que já acompanhava o líder revolucionário sandinista na década de 1980. De visita a Madrid, comenta ao Expresso a "tournée" de George Bush por cinco países latino-americanos.

EXPRESSO: Com Daniel Ortega de volta ao poder, depois de 17 anos de governo da direita, a Nicarágua sente-se de algum modo humilhada por não ter sido incluída na "tournée" latino-americana de Bush?

Samuel Santos: Absolutamente nada! Já não estamos na década de 1980, quando os americanos colocavam etiquetas ideológicas a todos os países da América Latina e financiavam a guerra contra o governo sandinista de Daniel Ortega. O que conta hoje é saber se os remédios utilizados para resolver os problemas da miséria, do analfabetismo, da saúde dão ou não os resultados desejados. E, naturalmente, cada país é livre de escolher os seus amigos.

P: Pensa que com a visita ao Brasil de Lula da Silva, por exemplo, Bush aposta na esquerda moderada, contra o ‘populismo’ de Chávez e Morales?

R: Penso que como vizinho do Norte, os Estados Unidos procuram principalmente ultrapassar os problemas criados na região por políticas intervencionistas que seriam consideradas hoje como fenómenos anacrónicos. Neste aspecto, é bom que a Administração americana volte a situar a América Latina entre as suas prioridades. Depois dos atentados do 11 de Setembro, Bush descuidou muito o chamado ‘pátio traseiro’ dos Estados Unidos e é natural que pretenda agora corrigir o tiro. O continente latino-americano tem e terá sempre uma grande importância estratégica e económica para os americanos.

P: Como explica, então, que durante esse ‘descuido americano’, de menor intervencionismo, as urnas tenham colocado no poder líderes populistas como Chávez e Morales e que a economia da região goze agora de melhor saúde?

R: O que passou foi que os povos latino-americanos estão cansados de passar fome, da miséria, do analfabetismo e da corrupção política. A Nicarágua constitui um bom exemplo disso! O país que encontrámos depois de 17 anos de neoliberalismo e de capitalismo selvagem oferece uma imagem desastrosa. Basta dizer que com Daniel Ortega no poder (1979-1990), atacado brutalmente pelos Estados Unidos, o analfabetismo baixou de 65% para 12,5%, contra 35% agora! No entanto, Washington nunca deixou de ajudar o regime corrupto de Violeta Chamorro. Seria pois conveniente que Bush se mostrasse agora mais sensível à situação social e às necessidades reais dos povos latino-americanos.

P: Daniel Ortega também já não se parece muito com o líder revolucionário sandinista dos anos 1970-1990. Agora é muito mais realista e pragmático...

R: Ortega continua a ser um líder nitidamente revolucionário! Mas agora é um líder mais maduro, um autêntico homem de Estado. A Nicarágua, a América Latina e o mundo mudaram muito desde a década de 1980. Mas as nossas propostas e as nossas preocupações são as mesmas de há vinte ou trinta anos. Porque depois de dezassete anos de neoliberalismo, de capitalismo selvagem e de corrupção, 70% do povo nicaraguense encontra-se hoje numa situação de pobreza extrema, muito mais dramática, pois, do que a que deixámos em 1990, após ter combatido e acabado com a violência dos ‘contra’, armados e financiados pela Administração norte-americana.

P: Mas Ortega, que prestou juramento ‘perante Deus e a Pátria’, parece agora tocado por um certo misticismo. Já não fala de reforma agrária nem de privatizações, mas de ‘revolução espiritual’ e de uma ‘Nicarágua de irmãos’...

R: Para acabar com a miséria, a pobreza, o analfabetismo, a corrupção e a injustiça social, não existem formulas mágicas nem se trata de descobrir o gelo. O futuro passará necessariamente por mais educação, mais trabalho e mais desenvolvimento económico e social. Estamos no Governo há menos de dois meses e já tomámos medidas concretas, como a volta das crianças à escola e a recuperação de 250.000 hectares de boas terras que estavam abandonadas. Doravante haverá uma distribuição mais justa dos sacrifícios e da riqueza. Ou seja, não pensamos fazer nada muito diferente da política seguida no Chile por Michèle Bachelet, no Brasil por Lula da Silva, na Argentina por Kirchner, etc.

P: Uma das primeiras decisões de Daniel Ortega, foi a adesão à Alternativa Bolivariana para a América lançada por Hugo Chávez. Crê que essa iniciativa é compatível com o Tratado de Livre Comércio América Central-Estados Unidos?

R: Temos excelentes relações comerciais com os Estados Unidos, e o nosso objectivo é melhorá-las e aumentá-las, porque criam trabalho e riqueza. Mas isso não é incompatível com a Alternativa Bolivariana, que mistura comércio e solidariedade. Por exemplo, é nesse âmbito que se situa a compra de petróleo venezuelano, com excelentes condições de preço e pagamento - uma parte a crédito e outra em troca de produtos e de serviços. Para a Nicarágua, a ajuda da Venezuela é tão preciosa como a que recebe da União Europeia e igualmente dos Estados Unidos, esta última através do Programa do Milénio para a região.

P: Em que medida Hugo Chávez poderia ter no futuro o mesmo papel que Fidel Castro desempenhou durante tantos anos - e desempenha ainda - na América Latina?

R: Fidel não tem sucessor! Fidel é Fidel! Por méritos próprios, conquistou um lugar na história que ninguém lhe poderá negar nem roubar. É um líder adorado e respeitado, que foi - e seguirá sendo! - uma fonte de inspiração para todos os povos latino-americanos. Chávez? Admira profundamente e respeita Fidel, é um grande líder para a Venezuela, um grande amigo da Nicarágua e também, sem dúvida, um bom ‘espelho’ para todo o continente latino-americano.

P: A Venezuela está a criar um exército potente e bem armado. Em que medida isso pode ser uma fonte de preocupações para os países vizinhos?

R: Pode ser que exista uma certa preocupação na região... Mas ninguém põe em causa que a Venezuela tem todo o direito do mundo a modernizar as suas forças armadas, em função das necessidades do país. É possível que não tenha outra alternativa. Nós passámos pela mesma experiência na década de 1980: perante a violência armada dos ‘contra’, não tivemos outro remédio senão comprar armas, e contámos então com a solidariedade de países amigos. Não posso nem quero, pois, julgar a política millitar da Venezuela. Mas, para o meu país, o mais importante hoje, felizmente, já não é comprar armas, mas investir em fábricas e na compra dos bens necessários para o progresso do povo.

P: Certos analistas políticos, principalmente americanos, apostam que a América Latina entrou numa nova fase, de lenta mas inevitável viragem para políticas mais moderadas, ou seja, que o ‘populismo’ não teria futuro...

R: O que sucede é que os povos latino-americanos começam a ver a sua realidade e já não se deixam enganar tão facilmente como dantes pelos cantos de sereia dos políticos demagogos. A Nicarágua é um bom exemplo! Só assim se explica a volta ao poder do sandinismo, de Daniel Ortega, sobretudo depois da experiência de 17 anos de maioria ultraconservadora e reaccionária, que contou sempre com o apoio dos Estados Unidos. Convém recordar, aliás, que a nossa vitória nas urnas, foi conseguida também contra os americanos, que apoiaram descaradamente o candidato da direita Eduardo Montealegre.