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Caçador de infiéis

Comprámos o kit de infidelidade e tentámos convencer algumas cobaias a usá-lo. A experiência foi, no mínimo, traumática.

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Nem todos foram fadados para serem detectives privados. Senão haveria homens de gabardina e escritórios fumarentos em cada esquina e a cidade seria a preto-e-branco, como nos filmes noir dos anos 40. Espiar a própria mulher, mesmo que as suspeitas de infidelidade cresçam até se tornarem tão óbvias que só apetece dizer 'dah, acorda para a vida!' não deve ser fácil, supomos.

Basta imaginar as perguntas existenciais que faz um marido desconfiado a partir do momento em que ele decide sair de casa, de óculos escuros e chapéu de feltro - Ok, estamos no século XXI, pode ser um boné de basebol - e meter-se num táxi, atrás do carro da esposa, que pela terceira vez numa semana combinou um copo com as colegas do trabalho nas docas: "E se ela me descobre?", "E se afinal vai ter mesmo com a Tareca e a Nuxa?"; "E se o acelerado do taxista bate nas traseiras do Renault, escondo-me no banco de trás enquanto eles discutem sobre quem tem a culpa?" E se ela estacionar, não perto das docas mas entrar numa garagem de um prédio das avenidas novas? O que prova isso? "Pode andar simplesmente numa consulta nocturna de astrologia", defender-se-ia o marido, perante o olhar de tédio do taxista.

Rebobinando. Em 2009, há métodos mais fáceis, e não menos infalíveis, para descobrir a (tão temível) verdade. Foi por isso que nos pusemos a pesquisar na Internet. E foi por isso que, depois de uns cliques no Google, comprámos um kit, o Checkmate, que até tem o nome da jogada final, e decisiva, de um jogo de xadrez. Teoricamente, com umas gotas e uns pozinhos é possível tirar as teimas, sem ser preciso ser um Kasparov. Faz lembrar o CSI, mas sem o glamour da série. Aqui não há batas brancas, nem detectives (voltamos a eles) com palavras sábias, que em dois intervalos e em 50 minutos descobrem o culpado através dos vestígios de ADN.

Depois de aberto o pack, que nos foi enviado pelo correio, faltava o mais difícil: convencer alguém a usá-lo para saber se resultava. Ou seja, uma cobaia. O trabalho não podia ser mais espinhoso. As nossas 'fontes' fugiram, não a sete mas a oito pés, mesmo com a garantia de que lhes alterávamos a identidade. "Mas porque me escolheu a mim? O meu casamento está de pedra e cal", a resposta não poderia ser mais clássica. Mesmo depois de alguém nos garantir que 'Carlos' (sim, não era o nome verdadeiro) há muito que desconfiava que a mulher andava a 'pular a cerca', (expressão duvidosa made in Brasil). Ao fim de dezenas de telefonemas e e-mails, lá emprestámos um dos frascos a um amigo de um conhecido que nos havia sido aconselhado por um ex-colega. Confusos? Também nós.

A experiência não poderia ser mais desastrosa. Uma semana depois, via e-mail, o tal amigo do conhecido, etc, etc, confessou-nos que à última hora não teve coragem para deitar as gotas numa peça de roupa interior, onde supostamente poderia ser detectado o sémen do amante. Nem com as nossas palavras de compreensão, e incentivo, o tal contacto não nos voltou a contactar, pelo menos até ao fecho da edição. Se ele estiver a ler isto, deve estar a encolher-se todo, ou então a rir-se às bandeiras despregadas, pois lá conseguiu enganar à grande um jornalista.

Esgotados os argumentos, decidimos enveredar pela jogada clássica. Contactámos a empresa que vende o produto em Portugal - e se vendem, pois segundo o seu representante, cerca de 300 pessoas por mês, bastante mais homens do que mulheres, compram o kit da infidelidade - e pedimos para nos fornecerem os contactos de alguns clientes para nos relatarem as suas 'investigações'. Mais um tiro bem longe do alvo. Grande parte dos tais clientes compra o Checkmate por telefone, muitas vezes através de um número não identificado, e pedem para lhes enviarem a encomenda para anónimos apartados. Aqueles que enviam os pedidos por e-mail pedem a todos os santinhos e mais alguns o máximo de sigilo. O argumento do "não publicaremos os nomes verdadeiros" revela-se tão certeiro como um remate do Nuno Gomes à baliza.

Podemos contar-vos dois casos de que temos conhecimento", explica Vasco Jorge, o representante da marca, uma semana mais tarde. Como? Sim, era mesmo isso. Podíamos saber como correram duas das mais de trezentas experiências mensais, mas só através do relato dos vendedores do produto. Era mau. Ou pelo menos pobrezinho, dado o vasto manancial possível de histórias humanas/dramáticas/redentoras, que uma reportagem como esta poderia trazer ao jornalista, e a você caro leitor.

O que fariam no nosso lugar? Ouviriam os dois casos, conformados com a falta de sucesso? Bem, foi isso que fizemos. Pois ninguém nos respondia às malditas perguntas que nos fervilhavam na cabeça durante as últimas semanas: Há muito tempo que desconfia que o seu cônjuge (parceiro) lhe é infiel? Quais foram os principais indícios dessas suspeitas? Houve um momento-chave da sua vida de casado que o fez decidir a comprar o kit? Ficou nervoso quando fez o teste? O seu cônjuge não desconfiou de nada? Qual foi o resultado?

Bastava que metade destas questões fosse respondida para termos uma reportagem (minimamente) decente. Em vez disto, limitamo-nos a contar uma versão pálida de dois casos, na terceira pessoa, cujos pormenores nos escapam por completo. Na primeira história, pelos vistos há um marido desconfiado, de idade avançada, que sofre de impotência e cuja mulher, de sexualidade activa, lhe anda a trair dia sim dia não. O tal marido não precisou de fazer mais de um teste para provar o que já sabia, há muito.

O teste deu positivo (é verdade, quando a cor da amostra fica roxa não há volta a dar). Ele decidiu confrontá-la com as evidências ou preferiu continuar no silêncio até novas provas? Duplo ponto de interrogação. Se a confrontou, qual foi a reacção dela? Provavelmente não foi a conversa mais amena do casal. Ela confessou ou não considera o teste uma prova válida? Népias de informação. Como está agora o casamento deles? Continuam juntos ou separaram-se? Ninguém sabe. Só eles. Ela prometeu parar de ser infiel? Huum, aqui mesmo sem dados concretos, não é preciso ser um génio para adivinhar a resposta.

No outro caso, contado pelo responsável da empresa, as desconfianças do marido revelaram ser infundadas. O teste deu negativo (cor castanha). Gostaríamos de ter perguntado: Ele aceitou o teste como prova de que estava enganado? Vai continuar alerta porque não se sente ainda convencido? Aceita que errou ao desconfiar da mulher? Contou-lhe que fizera o teste às escondidas mas que está arrependido por isso ou vai comprar mais kits de infidelidade para tirar as teimas? Mas ficámos no escuro.

Durante as semanas em que esperámos por um mísero depoimento, uma notícia saltou-nos à vista como uma bola de pingue-pongue: "E se, por apenas 99 euros, pudesse descobrir se o parceiro o está trair? Agora já é possível, com o 'Localizador de Infidelidades GPS', à venda na Internet. O aparelho tem o formato de uma pen drive, tem uma mini-antena GPS, funciona a pilhas e é resistente à água. Para activá-lo basta gravar as coordenadas da posição inicial e colocá-lo em modo de gravação. Escondido numa mala ou num bolso, o detector vai registar o caminho percorrido com todos os detalhes, inclusive as localizações e durações das paragens feitas."

Não, chega de testes, de cobaias, de depoimentos no anonimato e de casos contados por terceira pessoa. Um conselho, talvez inspirado na leitura de dezenas de revistas femininas nos últimos dias: se quer mesmo saber se ela (ou ele) lhe é infiel, porque não lhe pergunta? É que nem todos foram fadados para serem detectives privados.

O teste Checkmate vem com instruções claras. Basta segui-las para saber, garantem eles, se o seu parceiro é fiel.

O teste Checkmate vem com instruções claras. Basta segui-las para saber, garantem eles, se o seu parceiro é fiel.

Para o homem. "Se suspeita que a sua parceira possa ter relações com outra pessoa, tem que assegurar que não teve relações com ela nos últimos sete dias antes de realizar o teste. O teste apenas detecta a presença de sémen e não identifica a sua origem." Para a mulher. "Antes de fazer o teste, deverá considerar situações como a masturbação. Espere até ao momento certo. Se ele toma um duche, veste roupa nova e sai com amigos numa sexta-feira, então o sábado seria um bom dia para fazer o teste." Como fazer o teste?

Passo 1: Se visualizar uma mancha suspeita deite o conta-gotas do kit no local e deixe o líquido ser absorvido pelo tecido. Passo 2: Coloque um dos papéis absorventes na zona molhada e pressione-o até ficar completamente molhado. Se o sémen estiver presente, passará para o papel de teste. Passo 3: Misture o líquido do primeiro frasco com um segundo frasco do kit e agite durante 30 segundos para os misturar completamente. Passo 4: Depois do papel de teste ter secado, agite o frasco número dois novamente e, usando o conta-gotas, retire uma pequena quantidade de líquido. Adicione 1-3 gotas no papel-teste. Se houver sémen, visualizará uma cor roxa no papel. Se uma cor púrpura não aparecer nos primeiros 15 segundos, é um teste negativo.

Versão integral da reportagem publicada na edição do Expresso de 20 de Junho de 2009, Revista Única.