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Basil Davidson (1914 - 2010)

Pertenceu aos serviços secretos britânicos, foi jornalista, escritor e militante anti-colonial. O único repórter que visitou as regiões libertadas da Guiné, Moçambique e Angola.

José Pedro Castanheira (www.expresso.pt)

Historiador e jornalista, Basil Davidson faleceu no dia 9 de Julho, com 95 anos. Um dos melhores conhecedores de África, foi o único repórter que, durante as guerras coloniais, visitou as regiões libertadas da Guiné, Angola e Moçambique, conduzido pela mão de Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Eduardo Mondlane. Deixou quase 40 livros escritos, vários dos quais editados em Portugal. "Na vida, e especialmente no jornalismo, tem de se ter sorte, muita sorte!" - gostava de dizer.

Três vezes na Guiné...

À Guiné, deslocou-se inclusivamente por três vezes. A estreia foi em 1967, acompanhado por Amílcar Cabral. "Mas não foi uma missão de guerra. Aliás, nunca levei qualquer arma comigo" - esclareceu, numa entrevista concedida ao Expresso e publicada em 3 de fevereiro de 2001. À Guiné haveria de voltar mais duas vezes (em 1972 e em 1974). Sobre a sua experiência guineense acabaria por escrever um livro, "No Fist Is Big Enough to Hide the Sky".

...duas em Moçambique...

Moçambique foi a segunda das colónias portuguesas cujo solo pisou. Foi em Julho de 1968, ainda sob a liderança de Eduardo Mondlane, que estava presente, bem como Samora Machel. Voltou a Moçambique uma segunda vez durante a guerra, mas já depois de Mondlane ter sido assassinado, vítima da explosão de uma carta armadilhada, uma iniciativa da polícia política portuguesa, a PIDE.

... e uma em Angola

Com Agostinho Neto, no interior de Angola, no Verão de 1970

Com Agostinho Neto, no interior de Angola, no Verão de 1970

A última colónia em armas que Basil Davidson visitou foi Angola, no Verão de 1970. Acompanhado durante parte do percurso pelo próprio líder do MPLA, Agostinho Neto, "passei cinco semanas a andar a pé". Com a proverbial ironia britânica, acrescentou: "Acho que desde então nunca mais caminhei..."

Das cinco colónias portuguesas de África, só não foi a São Tomé e Príncipe.

Quanto a Cabo Verde, teve o ensejo de a visitar várias vezes, mas só depois do 25 de Abril. "Uma bela terra e um belo povo." A primeira vez foi logo no Verão de 1974, numa viagem de avião a partir de Bissau, acompanhado de Corsino Tolentino. Escreveu um livro sobre Cabo Verde, a que deu o título certeiro de "As Ilhas Afortunadas".

Major dos Serviços Secretos na Segunda Guerra

Basil Davidson nasceu a 9 de Novembro de 1914, em Bristol. Foi com o olhar puro e generoso da juventude que acompanhou a guerra civil de Espanha. "Ainda alimentei o projecto de me oferecer como voluntário" para as fileiras republicanas - onde combateram inúmeros jornalistas e intelectuais ingleses e europeus. O projeto ficou adiado durante um par de anos, até estalar "a nossa guerra".

Pertenceu ao Exército britânico durante quase seis anos. "Alistei-me como voluntário em Janeiro de 1940 e larguei o Exército após a libertação da Itália", na Primavera de 1945. Pertenceu ao SOE - Special Operations Europe, uma espécie de antecessor do MI6, os conhecidos serviços secretos britânicos.

Davidson começou por ser enviado para a Hungria, a que se seguiu a Jugoslávia, com a tarefa de organizar uma rede, entre os intelectuais, estudantes e jornalistas, de apoio às posições da Grã-Bretanha e dos aliados.

Nas suas deambulações enquanto major dos serviços secretos britânicos veio a Lisboa pela primeira vez em 1941. "Um lugar magnífico, com um belo clima."

De regresso à Jugoslávia, conheceu Tito, o futuro presidente da Federação Jugoslava, e empenhou-se no apoio aos 'partizans' e á sua luta contra os ocupantes nazis.

Finda a campanha jugoslava, Davidson instalou-se em Itália com objectivo idêntico: apoiar a rede da resistência antifascista.

Jornalista na "Economist" e no "Times"

Depois de seis anos no Exército, foi o regresso à vida civil. No jornalismo, trabalhou para a "Economist", "The Times", "Daily Herald", "Daily Mirror", "New Statesman". O primeiro livro foi o "Partisan Picture" (1946). "Teve um grande sucesso, mas a uma escala reduzida, porque na realidade eu nunca vendi bem..."

A partir de 1951, envolveu-se no estudo de África, uma paixão que "acabaria por se apoderar de mim para o resto da minha vida". Viajou muito, leu e ouviu quanto pôde, aprendeu sempre.

O primeiro país que estudou foi o Gana, quer devido à forte personalidade de Nkrumah quer pelo facto de ter sido o primeiro país da África Negra a conquistar a independência em 1957 após a II Guerra Mundial.

Savimbi era um "escroque"

Davidson foi um elemento activo do CFAMG, o Comité para a Libertação de Angola, Moçambique e Guiné. Sem exceções, conheceu todos os líderes dos movimentos de emancipação das colónias portuguesas. "Tudo gente notável. É surpreendente como as colónias portuguesas, com um sistema educativo e de formação tão fraco e pobre (quase inexistente!), produziram gente tão notável!"

Basil Davidson numa base da Frelimo, em julho de 1968, a que chegou acompanhado por Eduardo Mondlane e Samora Machel

Basil Davidson numa base da Frelimo, em julho de 1968, a que chegou acompanhado por Eduardo Mondlane e Samora Machel

O britânico insiste no qualificativo: os movimentos emancipalistas "tiveram dirigentes notáveis, mesmo insubstituíveis". E enumera alguns: os cabo-verdianos Amílcar Cabral e Aristides Pereira; os angolanos Agostinho Neto, Mário de Andrade, Viriato da Cruz e Lúcio Lara; os moçambicanos Marcelino dos Santos e Samora Machel.

"Gente inteligente, não chauvinista, com um elevado sentido moral. Não se encontra gente com estas características em parte alguma de África!" Nem mesmo na África do Sul - "que também produziu dirigentes notáveis", como Nelson Mandela ou Oliver Tambo, "que também conheci". Em contrapartida, Davidson define Jonas Savimbi simplesmente como "um escroque".

Cabral poderia ter sido secretário-geral da ONU

A Guiné foi um dos países que melhor estudou e acompanhou - e o PAIGC o movimento de libertação que mais admirou. Talvez por isso, a Guiné foi fonte de inúmeras desilusões, sobretudo a partir do golpe de Estado de 1980, em que Nino Vieira depôs o Presidente legítimo, Luís Cabral, meio-irmão de Amílcar.

Profundo conhecedor de África, perdeu a conta aos países que visitou. A Eritreia foi dos últimos que percorreu e sobre o qual escreveu.

Com uma experiência tão vasta e diversificada, qual foi o maior líder africano que conheceu? A resposta é imediata, sem ponta de hesitação: "Amílcar Cabral." Incluindo Nelson Mandela, "que também conheci, mas só antes de ser preso". A Cabral dedicou um livro: "Os Africanos. Uma Introdução à sua História Cultural" (Edições 70, 1981). "É simultaneamente um livro de história e de antropologia e que considero o meu trabalho mais importante." Se Cabral "tivesse vivido mais tempo, teria sido muito provavelmente secretário-geral da ONU".

Condecorado por Sampaio

Basil Davidson foi condecorado pelo Presidente Jorge Sampaio em 2002, como Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. No ano seguinte, foi a vez do Presidente da Cabo Verde, Pedro Pires, o agraciar com o Primeiro Grau da Ordem Amílcar Cabral.

 

"Os Camponeses Africanos e a Revolução" (Sá da Costa, 1975)

 "Mãe Negra. África: Os Anos de Provação" (Sá da Costa, 1978)

"A Política da Luta Armada: Libertação Nacional nas Colónias Africanas de Portugal" (Caminho, 1979)

"À Descoberta do Passado de África" (Sá da Costa, 1981)

"Os Africanos. Uma Introdução à sua História Cultural" (Edições 70, 1981) 

"As Ilhas Afortunadas. Um estudo sobre a África em transformação" (Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco, 1988)

"O Fardo do Homem Negro" (Campo das Letras, 2000)