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Banca salva Berardo da falência

Berardo conseguiu com três bancos um acordo muito favorável, mas negociação com Santander ficou de fora.

Anabela C. Campos, Nicolau Santos e Isabel Vicente

Joe Berardo acabou por conseguir um acordo muito favorável na negociação do reforço das garantias do empréstimo de cerca de mil milhões de euros que o investidor fez junto dos bancos para comprar acções do BCP, no decurso da guerra de poder que a instituição viveu em 2007 e onde foi uma das vozes mais activas.

De fora deste acordo ficou, porém, o Santander Totta, um dos quatro bancos que concederam empréstimos a Berardo para comprar acções do BCP, que hoje valem em Bolsa pouco mais de €190 milhões. Apesar de o montante ser de dimensão pouco significativa, o Santander não concordou com os activos que estavam a ser entregues como garantia. Por isso, as negociações acabaram por ser fechadas apenas com a Caixa, BCP e BES, onde está o grosso dos empréstimos, que venciam este mês, obrigando o investidor a reforçar as garantias e colaterais. A CGD e o BCP terão emprestado cada um cerca de €400 milhões, e o BES um montante inferior a 200 milhões.

Prolongar empréstimo

Ao que o Expresso apurou, o investidor - quarto maior accionista do BCP, com uma participação de 6,2% - conseguiu não só prolongar o prazo dos empréstimos como congelar o pagamento de juros por mais quatro ou cinco anos. O objectivo é dar espaço para que os mercados de capitais melhorem e a economia comece a recuperar.

Não terão, no entanto, ficado por aqui as vantagens acolhidas pelo mais mediático investidor do mercado português. Berardo entregou como garantia 75% da Colecção Berardo - um acervo de 862 obras de arte moderna e contemporânea avaliado em €316 milhões em 2007 - mas terá conseguido que ficasse de fora a Quinta da Bacalhôa, que produz vinho com aquela marca. E acabou por entregar apenas como colaterais activos detidos em Portugal, deixando de fora investimentos no exterior, nomeadamente no Canadá.

Berardo com risco sistémico

É na prática um excelente acordo, já que Berardo investiu mil milhões em acções do BCP, que agora valem pouco mais de €190 milhões. Ou seja, o investidor regista neste momento uma menos-valia potencial de €800 milhões. Um valor considerável, que obriga os bancos que fizeram os empréstimos a tratar o assunto com pinças, já que não chegar a acordo com Joe Berardo implicaria aprovisionar o montante da dívida e isso teria impacto nas contas das instituições.

Desconhece-se que montante da dívida contraída por Berardo terá sido paga desde que os empréstimos foram feitos, ou a nova data de pagamento dos mesmos. Sabe-se apenas que inicialmente os empréstimos tinham como garantia essencialmente as acções do BCP, muitas delas compradas no auge da guerra de poder no banco, quando as cotações do título andavam à volta dos quatro euros. Hoje valem menos de 80 cêntimos.

O Expresso não conseguiu confirmar junto de Joe Berardo a informação sobre o reforços das garantias e a renegociação das condições do empréstimo, uma vez que o investidor se encontrava ausente do país.

Na opinião do advogado de Joe Berardo, as condições da renegociação são satisfatórias para todos. "A renegociação dos empréstimos aos bancos para compra de acções estão fechadas e o resultado é satisfatório para todas as partes envolvidas", afirmou André Luiz Gomes. O comendador, adianta, "não fugiu às suas responsabilidades e reforçou as garantias prestadas". Quanto aos novos colaterais dados como garantia e às condições de pagamento, afirmou: "Não vou confirmar os activos que foram dados como garantia, mas as negociações decorreram em bons termos". Acabou, no entanto, por dizer que "o prazo acordado foi considerado razoável para as partes envolvidas".

Perdas na ZON

A derrocada dos mercados atinge outros investimentos de Berardo. Apesar de ter recebido acções da ZON na sequência da cisão da operadora face à PT, Berardo comprou alguns títulos e a verdade é que face à cotação do final de 2007 a participação de 5,6% apresentará perdas potenciais de €95 milhões.

Entretanto, em entrevista ao "Público", o investidor defendeu a retirada da ZON da bolsa, argumentando que o facto de a empresa estar cotada representa uma desvalorização para os accionistas. Mostrou-se ainda disponível para viabilizar a entrada de capital angolano na ZON.

Apesar de ter dado como colateral para garantir as dívidas à banca 75% da sociedade que gere a sua colecção de arte, Joe Berardo está longe de ter deixado os bancos confortáveis.

Na verdade, o que está em causa é uma dívida que ronda os mil milhões de euros, garantida com acções que neste momento valem cerca de 190 milhões. Por seu lado, a colecção de arte foi avaliada em 316 milhões de euros em Abril de 2008, pela leiloeira Christie's. Ora 75% daquele valor são 237 milhões que, juntamente com o valor das acções, perfaz 427 milhões. Contudo, perante os montantes em causa, a última coisa que os bancos envolvidos (CGD, BCP e BES) desejavam era executar um cliente como Berardo - porque isso teria de ser reflectido de imediato nos seus balanços, registando as respectivas menos-valias. Como disse um banqueiro, Berardo passou a representar um risco para o sistema financeiro.

Por isso, era imperioso evitar a sua falência.

ZON
Controla 5,6% da empresa de cabo liderada por Rodrigo Costa e esta semana disse ao "Público" que vê com bons olhos a fusão desta com a Sonaecom. Afirma ainda que a ZON e a Sonaecom "andam a falar há mais de um ano"

Vinhos
Joe Berardo controla a Bacalhôa Vinhos, a Caves Aliança e 33% da Sogrape

Semapa
O empresário madeirense detém cerca de 15% da Semapa, através da Sodim. Começou por comprar, em 2004, 8,7% da Cimpor à Seclipar, empresa da família Queirós Pereira, accionista maioritário da Semapa e da Sodim. Dois anos depois vende esta posição a Manuel Fino, accionista do BCP, que no centro da luta de poder travada no banco fundado por Jardim Gonçalves se manteve a seu lado

Sonae
Tem 2,67% na Sonae SGPS. O que o fez investir na empresa de Belmiro de Azevedo, em Fevereiro de 2006, foi acreditar que a empresa é bem gerida. Comprou 2,49% de uma só vez mas acabou por não se aventurar muito mais. Em vez disso, acabou por reforçar no BCP

EMT
Na Empresa Madeirense de Tabacos, um dos primeiros negócios de Berardo em Portugal, Hotel Savoy e Papelaria Fernandes, onde detém 20%, são outros dos investimentos

Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Janeiro de 2009