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Avô do rock português dá concerto aos 72 anos

Joaquim Costa, o homem que há quase 50 anos gravou o primeiro disco de rock em Portugal, actua hoje (sexta-feira) no cabaret da Praça da Alegria, em Lisboa, num concerto verdadeiramente inter-geracional onde se apresentará ao lado de Tiger Man.

O seu nome não consta nos livros sobre a história do rock em Portugal, mas Joaquim Costa – o Elvis de Campolide como alguns o recordam – foi o primeiro a gravar um disco do género entre nós, corria o ano de 1959. “É o rock que me faz continuar a querer viver. Eu amo, vivo, para o rock’n’roll”, afirmou ao Expresso o músico que, aos 72 anos, se prepara para voltar aos palcos num concerto que tem lugar hoje no Maxime, em Lisboa, onde actuará com os músicos dos WrayGunn – Paulo Furtado (Tiger Man, no seu projecto a solo) e Pedro Pinto – e Pedro Gonçalves (baixista dos Dead Combo).

Joaquim Costa conta que continua a cantar e tocar, com duas violas que tem em casa, mantendo-se fiel às mesmas referências musicais, que há quase meio século o fizeram mudar de vida. “Ainda vivo nos anos 50, sou um saudosista. Continuo a amar Bill Haley, Elvis,… Adoro essas pessoas. Colecciono discos, fotos,… tudo. Vivo para isso”.

Inglês aprendido na jukebox

Foi numa jukebox do Parque Mayer, onde costumava ir jogar matraquilhos, que ouviu pela primeira vez Haley. Tinha vinte e pouco anos e estava desempregado, não sabia sequer falar inglês, mas não foi isso que o impediu de começar a cantarolar as músicas que o fascinaram.

No Portugal fechado, do salazarismo dos anos de 1950, a música popular era sobretudo folclore e fado. O recém-nascido rock havia chegado com os marinheiros americanos, marcando presença discreta em jukeboxes de bares e clubes de zonas pobres e de prostituição. Os primeiros grupos e concursos de rock só surgiriam por cá na década seguinte. Joaquim Costa ainda chegou a participar em competições a cantar fado, mas, decididamente, aquele não era o seu estilo.

Os Rapazes da Estrela

Foi após ter visto na televisão uma actuação do pioneiro José Manel Silva – o Baby Rock – que em 1959 decidiu formar um grupo, com os amigos de copos e conversa, que paravam junto às jukeboxes instaladas no Jardim da Estrela durante a feira que ali tinha lugar no Verão. Os “Rapazes da Estrela” – Joaquim Costa (vocalista),  Sérgio Pinto (baterista e cantor), Arménio Bajouca (solista), Luís Gomes (solista) e Guilherme Silveira (acompanhamento) – conseguiram convencer o director da Feira da Estrela, o realizador Leitão de Barros, a contratá-los para tocarem todas noites, das dez à uma da manhã, “covers” de êxitos da altura como “Be Bop a Lula” ou “Rip It Up”.

Era suposto os “Reis do Rock’n’Roll” (conforme eram apresentados nos cartazes) terem-no feito durante três meses, mas Joaquim, farto de cantar todas as noites as mesmas músicas, depressa desistiu. “Aquilo poderia ter ido mais longe, se o grupo tivesse continuado, mas não estive para isso e acabei por me chatear com a rapaziada”, recorda referindo que sempre teve um espírito rebelde e indisciplinado.

O grupo, ainda assim, durou o tempo suficiente para que antes do desentendimento tivessem criado, nos estúdios da extinta Rádio Graça, o primeiro disco de rock gravado em Portugal, com versões de “Rip It Up” e “Tutti Frutti”, dois temas de Little Richard celebrizados por músicos como Elvis Presley.

200 escudos por duas cópias de 78 rotações

O disco de 78 rotações custou cerca de duzentos escudos e teve apenas duas cópias. Uma que foi enviada para a Valentim de Carvalho (e que desapareceu) e outra que ficou no arquivo da rádio local e que Joaquim acabou por encontrar e adquirir na Feira da Ladra em meados dos anos 1980. Esse registo pioneiro de rock em Portugal, surge agora reeditado num disco de vinil, que inclui ainda outros três temas que Joaquim gravou, em cassete, com o seu amigo José Gouveia em 1978. Joaquim continuou sempre a tocar, fosse em festas ou baptizados, sozinho ou com outros grupos como “Os Jotas do Rock”. Teve inúmeros empregos desde electricista, a técnico de elevadores, distribuidor de listas telefónicas ou ajudante de alfarrabista. “Talvez por influência dos filmes sempre levei uma vida muito libertina e pouco ligada ao trabalho”, recorda. 

Concerto lança reedição de álbum em vinil

O concerto que tem lugar no Maxime insere-se na festa de lançamento do disco, dentro do espírito revivalista a que o cabaret de Manuel João Vieira já habituou quem lá passa, neste caso cruzado com músicos de uma nova geração, como Paulo Furtado, cuja paixão pelo rock’n’roll já levou a andar em deambulações musicais pela América.

Joaquim diz que não está muito a par da música actual, mas que ouviu as músicas do antigo projecto de Paulo Furtado, os Tédio Boys. “Gostei muito e até me admira como acaba um conjunto destes. Mas eles não poderiam viver aqui, porque em Portugal não se pode viver do rock’n’roll, aqui não vinga nada, só coisas como a Quinta do Bill”. Para ele o rock tem de ser cantado em inglês e nem Rui Velosos nem José Cids o convencem. As referências do seu universo rockabilly continuam a ser a América dos anos de 1950. “Havia um tipo no Jardim da Estrela que me queria levar para os Estados Unidos, mas eu já tinha filhos e não estive para isso. Devia era ter nascido lá”, comenta o ancião do rock português.