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Avaria deve manter Sagres ancorado por mais dias

O navio modelo de Portugal não chegará a tempo à Argentina, provocando apreensão nas autoridades, decepção entre os argentinos e tristeza na comunidade portuguesa.  

O emblemático navio-escola Sagres, o principal da Armada portuguesa, deve permanecer avariado no porto de Montevideu até à noite de terça-feira e só chegar a Buenos Aires no dia seguinte, quatro dias depois do programado.

"Estamos a proceder às reparações, mas só na segunda-feira poderemos levar o motor ao representante da Bosch. Se tudo der certo, se devolverem o motor no dia seguinte e pudermos rearmar e instalar tudo até terça à noite, o navio chegará a Buenos Aires na quarta-feira. Antes disso, com certeza, não chegará", explicou ao Expresso Germán Benítez, gerente de operações da agência marítima Silver Sea, responsável pela organização da viagem tanto no Uruguai como na Argentina.

O Sagres, embora seja um barco à vela, requer de pelo menos oito horas com motor para percorrer as 190 milhas que separam Montevideu de Buenos Aires. O fundo do Rio da Prata é raso e é preciso navegar pelos canais do rio que não têm mais do que três metros de profundidade.

O motor do navio Sagres sofreu uma avaria na manhã de sexta-feira quando de passagem por Montevideu atravessava o Rio da Prata a caminho de Buenos Aires. O comandante José Luís de Vila Matos precisou de pedir ajuda à Armada uruguaia que enviou um rebocador. Só na madrugada de sábado, o Sagres atracou no porto para uma reparação.

Embaixada portuguesa à espera de diagnóstico

Segundo fontes da Armada argentina que possui um barco semelhante ao Sagres, a histórica Fragata Libertad, quando se passa da água salgada para a doce, o sistema de bombagem altera-se como se fosse um carro a gasóleo que passa a receber gasolina. Simplesmente avaria-se.

“Os engenheiros disseram-me que o problema é na bomba de combustível que está antes do motor. A bomba não manda o combustível", indica Benítez.

Mais prudente, o secretário da Embaixada de Portugal em Montevideu, Jorge Cruz, disse ao Expresso que seria precipitado tirar conclusões sem um diagnóstico preciso do representante da Bosch.

"A Embaixada e a Marinha uruguaia estão a fazer de tudo para localizar um técnico da empresa durante o fim-de-semana. Só com esse diagnóstico o comandante poderá tomar as decisões para um plano de contingência", considerou.

Contactado pelo Expresso, o oficial de Relações Públicas a bordo do Sagres negou-se a dar qualquer informação sobre a situação.

Festa estragada

Em Buenos Aires, o clima é de apreensão e decepção. Previsto para ancorar na Argentina na manhã de domingo e ficar até ao dia 23, quando partiria para Montevideu e onde ficaria entre os dias 24 e 28, o Sagres tem agora toda a sua programação alterada.

As autoridades argentinas também estão expectantes sobre o problema no Sagres. O navio-escola, de reconhecimento internacional, é aguardado com ansiedade pelo Chefe Maior da Armada e por centenas de cadetes.

A chegada a Buenos Aires coincidiria com o feriado do Libertador da Argentina, o general San Martín, dia festejado pelos argentinos com homenagens e outras celebrações. Milhares de pessoas previam aproveitar o dia para visitar o tradicional navio-escola português cuja presença foi antecipada pelos principais meios de comunicação locais que convocaram a população para duas exposições itinerantes no Sagres. Como a passagem já não vai coincidir com o feriado, a “vitrina de Portugal” no mundo, perderá boa parte dos visitantes e a imagem do país, ver-se-á afectada.

No domingo, estava prevista a actuação de uma banda militar e as autoridades argentinas iriam receber o navio. Do lado da comunidade portuguesa, foram alugados autocarros para transportar mais de uma centena de representantes de associações luso-argentinas e dezenas de jovens que dariam as boas-vindas com trajes típicos portugueses.

Um pesadelo tornado realidade

António Canas Antunes, conselheiro das comunidades lusas, é o encarregado por avisar as associações, enquanto os programas de rádio portugueses tentam dar a má notícia ao resto da comunidade.

"Imagine a decepção. Este é um navio muito especial, uma Embaixada itinerante. Havia nas pessoas uma alegria que não sei nem descrever com palavras", emociona-se Canas Antunes. "Para todos é muito mais do que um simples barco. Parecia que estava a chegar alguém da família ou parte de Portugal. Agora a tristeza é geral", lamenta-se.

"Quando soube que não chegaria no domingo, fiquei muito mal. Acordei a meio da noite alterado. Tive um pesadelo e sonhei que tinha de ir a Viana do Castelo, porque era o único lugar onde se poderia solucionar o problema. Acordei sem saber onde estava", ilustra o conselheiro.

Talvez o pesadelo de Canas Antunes dure agora até quarta-feira.