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Avaria de Sagres era sujidade

Bastou uma limpeza e uma manutenção geral para a bomba do motor do emblemático navio voltar a funcionar. O Sagres navega rumo a Buenos Aires, onde cumprirá uma agenda mais curta e protocolar.

Uma das versões para o nome da capital uruguaia diz que, há muitos séculos, ao avistar o monte que se ergue onde hoje se incrusta o porto de Montevideu, um navegador português gritou: "Monte vide eu!". Mal sabia ele que, num novo milénio, o navio-escola Sagres, o principal da Marinha portuguesa, precisaria de ser rebocado pela Armada daquele lugar que ainda estava longe de ser um país. E menos poderia imaginar um dos possíveis motivos do pedido de ajuda do imponente navio português: sujidade na bomba injectora de combustível no motor. O Sagres perdeu quatro preciosos dias da sua missão por sujidade.

"O motor não estava danificado. A bomba estava simplesmente suja, informou-nos a Armada uruguaia, que desarmou, limpou e voltou a armar a bomba do motor. Foi trocada uma junta, mas nenhuma peça de reposição foi necessária. Era só sujidade. Uma limpeza e manutençao foram o bastante", explicou o gerente de operações da agência marítima Silver Sea, Germán Benítez.

Não terem sido necessárias peças de reposição foi a melhor das notícias para o Sagres que, caso contrário, poderia enfrentar uma odisseia para as conseguir. O que o faria ficar ancorado em Montevideu por mais dias.

Marinha garante que injector foi substituído

Mais cauteloso e técnico, o comandante do histórico navio-escola, José Luís de Vila Matos, diz não ter os elementos para saber a causa da obstrução na bomba. "Sujidade é um dos possíveis motivos, mas podem haver outros. Não sei o que levou à obstrução em concreto. O problema da bomba foi identificado como uma prisão da haste. Essa prisão foi associada a uma obstrução que pode ser derivada de várias causas", explicou ao Expresso o comandante, enquanto o Sagres partia do porto de Montevideu às 5 da manha (horário de Lisboa) rumo a Buenos Aires, onde deveria ter chegado na manhã de domingo.

Em Lisboa, o gabinete de relações exteriores da Marinha também contraia as declarações de Germán Benítez, garantindo que foi reposto um injector que chegou ao navio vindo, directamente, da Alemanha.

Na sexta-feira, a caminho de Buenos Aires, quando o Sagres entrou no Rio da Prata, na altura de Montevideu, o motor sofreu uma avaria. O comandante Vila Matos precisou de pedir ajuda à Armada uruguaia que enviou um rebocador.

Portugueses não vão poder receber o Sagres

O navio-orgulho de Portugal cruzará o Rio da Prata pelas próximas horas. Chegará a Buenos Aires na madrugada de quarta-feira, mas ficará à espera no Rio da Prata. Só atracará no porto pela manhã de quarta para coincidir com as honras militares que só podem ser prestadas de dia. Não receberá a visita da comunidade portuguesa que tinha programado dar as boas-vindas ao Sagres com uma cerimónia que incluia jovens com trajes típicos.

"Não haverá boas-vindas. É muito complicado. As pessoas trabalham durante a semana. Muitas, aliás, nem vão saber quando o Sagres chega. O contacto com a comunidade portuguesa será mínimo", lamenta António Canas Antunes, conselheiro das comunidades portuguesas. A imensa maioria dos portugueses e luso-descendentes na Argentina vive fora de Buenos Aires.

Expectativa da comunidade lusa por água abaixo

Pelo programa original, o navio deveria ter atracado em Buenos Aires na manhã de domingo. Além disso, na segunda-feira foi feriado na Argentina. O Sagres só saíria de Buenos Aires no dia 23 para chegar no dia seguinte a Montevideu. A desastrosa alteração de planos levou o governo de Buenos Aires a procurar saber o que se passava com a Embaixada portuguesa na Argentina, tamanha a quantidade de pessoas que, desorientadas e decepcionadas, procuravam em vão pelo Sagres durante o feriado.

Do ponto de vista das visitas que os habitantes de Buenos Aires e a comunidade portuguesa poderiam fazer ao navio, Embaixada virtual itinerante de Portugal, a vinda do Sagres à Argentina, na prática, será um fiasco. Não ficará durante o fim-de-semana, quando a populaçao poderia visitar as duas exposiçoes a bordo. Nem há tempo para convocar a população como se fizera no princípio do mês.

Rio de Janeiro à vista

Na manhã de sábado, o navio-escola partirá de regresso a Montevideu, onde terá um programa protocolar e eventos a cumprir no domingo e na segunda-feira, quando parte rumo ao Rio de Janeiro. "Realmente não terá o efeito que esperávamos. É uma visita perdida para a nossa comunidade. Ficará para uma próxima vez", resigna-se Canas Antunes.

"Espero que tudo corra sem mais imprevistos. Já tivemos o suficiente. Em tudo na vida, também é preciso ter sorte", desabafou o comandante Vila Matos. Mas, claro, ainda falta chegar a Buenos Aires e depois, de regresso, atravessar novamente o Rio da Prata, a motor.