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Até quando?

Com o conflito israelo-libanês a caminhar para um impasse sangrento, o resto do mundo continua a procurar uma saída sem grande entusiasmo.

O PRIMEIRO-MINISTRO britânico Tony Blair viajou para Washington ontem à noite para novas conversações com o Presidente George Bush, ao mesmo tempo que a secretária de Estado Condoleezza Rice dizia que estava disposta a regressar ao Médio Oriente no fim-de-semana para tentar encontrar uma solução. Mas com a continuação do apoio dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha à decisão de Israel de rejeitar os apelos mundiais a um cessar-fogo imediato, são poucas as esperanças de que qualquer solução anglo-americana possa levar ao fim da violência.

Desde que o conflito alastrou no dia 12 de Julho, os ataques aéreos e bombardeamentos israelitas mataram um número confirmado de 450 libaneses, quase todos civis, e o governo do Líbano avisa que muitos mais podem ainda estar sepultados nos escombros.

Militantes do Hezbollah com rockets de longo alcance mataram 51 israelitas, incluindo 18 civis. As poucas esperanças num contributo renovado para a solução da crise residem na União Europeia. Na quinta-feira, a UE reagiu com dureza a uma afirmação israelita de que o malogro da cimeira desta semana em Roma entre os EUA e a UE para um apelo ao cessar-fogo significaria um apoio da Europa à ofensiva de Israel.

O ministro da Justiça israelita, Haim Ramon, membro do gabinete de segurança, disse à rádio do exército israelita: «Recebemos ontem, na conferência de Roma, autorização do mundo... para continuar a operação, esta guerra, até que o Hezbollah seja desalojado do Líbano e até ao seu desarmamento». Ramon também disse que Israel considera agora todas as pessoas que permanecem a Sul do rio Litani no Líbano como sendo terroristas.

Mas os comentários de Ramon sobre o cessar-fogo foram rejeitados por diversos governos europeus e suscitaram uma rara reprimenda da Alemanha, que tradicionalmente se mostra relutante em criticar Israel.

«Diria exactamente o contrário. Em Roma foi claro que todos os presentes queriam ver o fim do conflito tão rapidamente quanto possível», afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Frank-Walter Steinmeier.

A França apresentou uma proposta própria para um cessar-fogo imediato, seguido de uma troca de prisioneiros e o destacamento de uma força internacional para uma zona tampão dos dois lados da fronteira libanesa.

Mas é pouco provável que esta proposta seja bem aceite pelo primeiro-ministro israelita Ehud Olmert, que garantiu à imprensa que a ofensiva prosseguiria até que o Hezbollah entregue os seus dois prisioneiros israelitas e seja destruído ou desarmado.

O gabinete israelita autorizou a mobilização de 15.000 reservistas para o caso de Israel decidir estender a sua ofensiva terrestre para além de Bint Jbeil no Sul do Líbano, que dá sinais de estagnação depois da feroz resistência do Hezbollah.

Entretanto é pouco provável que o Hezbollah aceite uma nova força internacional, estando a exigir a Israel a libertação de velhos militantes raptados do Líbano há vários anos e insistindo noutra exigência de que Israel se retire de um pequeno enclave fronteiriço há muito disputado.

Ontem, Mohdhammed Hassan Fohani, de 75 anos, caminhava com um passo titubeante nos arredores de Tiro, tendo andado sozinho durante dois dias sob bombas e um calor intenso para escapar aos guerrilheiros. Residente na aldeia de Qonia, próxima de Bint Jbeil, tinha perdido o contacto com a sua mulher e três filhos adultos no primeiro dia combates.

«Não sei onde estão ou sequer se estão vivos», disse ele. «Não sei nada deles. Fiquei na minha casa durante duas semanas mas tive de a deixar quando os israelitas a destruíram.» Depois de caminhar durante dois dias sob fortes bombardeamentos, Fohani, aceitou, agradecido, uma boleia de poucos quilómetros até à relativamente segura cidade de Tiro. No carro começou a chorar silenciosamente, mas era demasiado orgulhoso para o admitir, ou para dizer a alguém porquê.