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"As tropas turcas sairão após a reunificação"

Na ilha dividida de Chipre, duas comunidades tardam em reunificar-se. Para os cipriotas turcos (no Norte), a adesão dos cipriotas gregos à União Europeia tornou esse diálogo ainda mais difícil.

Margarida Mota, em Nicósia

O senhor é Presidente de um país que declarou a independência em 1983. Mas quão autónomo é o seu país, designadamente em relação à Turquia? Quando, em 1974, a Grécia organizou um golpe de estado e tentou anexar o Chipre, a Turquia interveio e a ilha dividiu-se em dois. Os cipriotas turcos continuaram a governar-se até 1983, quando foi declarada a República Turca do Norte de Chipre. Durante esse período, tivemos um apoio incondicional da Turquia, que foi essencial à sobrevivência do país, mas que, por ser incondicional, criou laços diferentes do normal.

Que reflexos tem hoje esse apoio incondicional? Muito claramente, a segurança dos cipriotas turcos é garantida pela Turquia. Financeiramente, recebemos apoio contínuo da Turquia. Perante isto, não é expectável que tenhamos uma independência total da Turquia. Isso não quer dizer que a Turquia decida tudo o que tem a ver com a vida quotidiana dos cipriotas turcos. Mas alguns dos assuntos mais importantes têm de ser objecto de consultas.

Pode dar um exemplo? Ao nível da segurança, se quisermos tomar algumas medidas que possam ser encaradas como medidas de criação de confiança entre as duas forças militares da ilha temos de consultar a Turquia. E fazemo-lo.

E na maioria das vezes, os turcos estão de acordo? Geralmente concordam, mas nem sempre...

Não se sente então Presidente de um país ocupado... A ajuda turca ascende a cerca de 300 milhões de dólares por ano, o que cobre 35% do nosso orçamento, e ainda recebemos mais uma quantia para infra-estruturas. Um país que ajuda à emancipação do nosso povo não pode ser tratado como ocupante. Para os cipriotas turcos, a Turquia é o seu defensor.

Face ao resultado do referendo ao Plano Annan, em 2004, ainda acredita na reunificação da ilha? O nosso desejo e a nossa luta são pela unificação da ilha. Acreditamos e desejámo-la. Mas infelizmente o governo cipriota grego não partilha desta linha. Como disse o Presidente Tassos Papadopoulos na Assembleia-Geral da ONU em 2005, o objectivo deles é a unificação do país através da assimilação. Para nós, isso é inaceitável.

Assim sendo, a solução de dois Estados não seria preferível? A única solução é a unificação, por várias razões. Desde logo, por ser a única opção que foi equacionada pelas Nações Unidas. Até ao momento, a solução de dois Estados não tem sido uma opção para resolver o problema cipriota. Mas se continuarmos assim, a divisão pode tornar-se permanente.

A unificação poderia ser feita ao abrigo de um Estado federal? Sem dúvida. Defendo uma entidade composta por dois Estados, com igualdade política e sob a protecção de uma federação.

Tragédia grega

Os cipriotas turcos sentiram-se traídos com o resultado do referendo? Sentiram-se ressentidos.

A entrada da República de Chipre (Sul) na União Europeia (UE), em 2004, facilitou este processo ou dificultou-o? O processo tornou-se mais difícil, porque os cipriotas gregos estão a utilizar a sua adesão à UE de uma forma muito negativa. Eles não querer partilhar poder, não querem cooperar connosco e querem impor a sua superioridade, o que torna difícil a obtenção de um Estado em parceria.

Como resolveria o problema da propriedade? Através de compensações, da restituição ou da permuta, como estava previsto no Plano Annan.

Mas essa solução pode trazer problemas. Há cipriotas turcos e gregos que podem querer regressar às suas antigas terras e com isso formar zonas minoritárias nos dois lados... É verdade, isso pode acontecer. Mas na minha opinião, isso não deverá abalar o princípio da bizonalidade.

Num cenário de reunificação, qual será o papel da Turquia? A Turquia deixaria a ilha.

Porque é que os cipriotas gregos têm medo da reunificação? Eles não têm medo da reunificação. Acreditam que sendo membros da UE conseguirão mais e conseguirão impor a sua superioridade sobre os cipriotas turcos. Antes do referendo, o Presidente Papadopoulous dirigiu-se ao povo e disse: 'Vamos ser membros da UE uma semana após o referendo. Porque deveríamos votar pela abolição do Estado e pela formação de outro Estado?'

A adesão da Turquia à UE ajudaria a resolver o problema? Esse processo é essencial para chegarmos a uma solução. Sem isso, não creio que o problema cipriota seja resolvido.

É Presidente de um país que não existe. Faz visitas oficiais para além para a Turquia? A título oficial, viajo para a Turquia, Paquistão e Azerbaijão. Mas também recebo convites com outros títulos. Recebi convites na qualidade de líder da comunidade cipriota turca de vários países, incluindo Suécia, Finlândia, Reino Unido, Estados Unidos e outros.

E de Portugal? Ainda não. O Expresso é a primeira entidade portuguesa com quem estou a falar sobre este assunto.

Um conflito sem guerra

Ao visitar o seu país tem-se a sensação que este problema é puramente político... É verdade.

Vê-se cipriotas gregos no Norte, vocês podem visitar o Sul. As duas comunidades não estão em guerra. Porque é que a solução é tão difícil? Eles não reconhecem o nosso direito de nos governarmos a nós próprios.

É uma questão de arrogância? Nós temos um Estado próprio, poderes autónomos, tribunais, polícia, exército... e eles não querem isso, mas antes estender a sua soberania a toda a ilha. Eles não aceitam a presença de polícias turcos. No caso de um assassinato, no Norte ou no Sul, com implicações na outra comunidade, eles não cooperam. Se um traficante de droga cipriota turco for apanhado no Sul, eles não tentam obter apoio da nossa polícia, ou vice-versa. Eles dizem: 'Vocês não existem'.

Portugal preside à União Europeia neste momento. Quer mandar alguma mensagem? Apelo é que ouçam os cipriotas turcos. Após o referendo ao Plano Annan, o Conselho Europeu decidiu levantar o isolamento aos cipriotas turcos. E porquê? Tínhamos chocado a comunidade internacional, que esperava que os cipriotas turcos votassem contra a unificação e os cipriotas gregos votassem a favor. Aconteceu o contrário. Nós ficamos muito animados quando ouvimos a decisão da UE. Pensamos que depois os cipriotas gregos sentir-se-iam obrigados a encontrar uma solução para o problema. Mas infelizmente, a UE não cumpriu a promessa e nada fez para levantar o isolamento ao nosso país. Esperamos que a presidência portuguesa nos ajude.

Versão integral da entrevista publicada na edição do Expresso de 5 de Outubro de 2007, 1.º Caderno, página 38.