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As dívidas dos ricos

Em 2000 e 2001 o Gabinete de Apoio ao Sobreendividamento da Deco só recebia chamadas de pessoas da classe média baixa. Hoje, são vulgares as queixas de pessoas de camadas sociais elevadas. Os ricos, perdem o controlo com os cartões de crédito e de cliente.

Há quinze anos Maria João vivia entre a fina-flor de Cascais, com direito a empregada interna e jardineiro. Hoje, apesar do rendimento mensal de dois mil euros, está na bancarrota e com quatro créditos pessoais por pagar. O divórcio e as obras na nova vivenda baralharam-lhe as contas. “Os 150 mil euros que o banco me emprestara eram insuficientes para pagar ao empreiteiro, há dois anos resolvi telefonar para uma instituição de crédito pessoal. Em 48 horas deram-me o dinheiro”, lembra, estupefacta, a reformada de 58 anos há dois anos a viver longe do ex-marido endinheirado e das duas filhas. Quando aquele dinheiro se escoou, voltou a fazer outro telefonema. A resposta foi novamente afirmativa: “eram só facilidades”.

Maria João julgava ter tudo sob controlo, sem se aperceber que as dívidas e os juros se iam multiplicando numa espiral. De nada lhe servia estoirar todos os meses com o ‘plafond’ de mil euros do cartão de crédito. “Ter dinheiro tornou-se numa espécie de vício. E eu nem sequer fazia o mesmo estilo de vida dos outros tempos”, garante. “Deixei de ir ao cabeleireiro, ao cinema e quando vou ao supermercado passei a estar sempre atenta aos preços.” Nas noites de insónia, sentava-se na cama a imaginar que iria ter a sua casa ou o carro penhorado. Mas vivia a angústia sozinha, sem partilhar com a família ou os amigos. “Não é por vergonha. Mas como posso desabafar com uma amiga cujo passatempo é passar os dias nas compras?”

O sinal vermelho acendeu-se, há poucos meses, quando o seu nome passou a constar na lista negra do Banco de Portugal. As instituições de crédito que antes lhe entupiam a caixa de correio com panfletos a prometer-lhe mais e mais dinheiro, fecharam-lhe a porta na cara. “Fiquei em pânico. Descobri que tinha mais de 15 mil euros só em dívidas de crédito pessoal.” Sem soluções mágicas à vista, Maria João foi obrigada a recorrer à Deco, e só assim conseguiu renegociar as dívidas com o banco. “O apelido sonante do meu marido facilitou-me a vida com os gestores de conta. Mas ele continua sem desconfiar de nada.” A prestação mensal suavizou-se – embora só nos últimos cinco anos tenha subido mais de 300 euros, por causa dos juros. “Não quero saber mais de créditos”, exclama.

Crise de valores

Quando o Gabinete de Apoio ao Sobreendividamento da Deco foi fundado, há seis anos, só recebia chamadas de famílias de classe média-baixa. Hoje, são cada vez mais frequentes as queixas como as de Maria João, provenientes de camadas sociais mais elevadas. A culpa é não só da excessiva facilidade nos créditos pessoais mas também dos cartões de crédito e de cliente. “Quando estas pessoas atingem o limite dos 'plafonds', pagam o valor mínimo ao banco. Depois, quando o 'plafond' fica novamente disponível gastam-no. E voltam a ficar a zeros”, explica a responsável, Natália Nunes.

Para quem está habituado a conviver com muito dinheiro, não é difícil viver durante meses ou anos acima dos rendimentos, numa situação artificial. Mas mais tarde ou mais cedo, a balão de oxigénio acaba por rebentar. “Estes créditos vão servindo apenas para pagar outros créditos pessoais, ou permitir o mesmo nível de vida elevado”, resume Natália Nunes.

Catarina Frade, do Observatório de Endividamento dos Consumidores da Universidade de Coimbra corrobora: “É muito fácil qualquer pessoa perder o controlo, mesmo entre as classes mais altas”. A especialista considera que uma família habituada a ter cinco mil euros de rendimento mensal não tem mais facilidade em redefinir um padrão de consumo do que outra que outra que tem um salário de 500 euros: “O consumo marca uma identidade social. Ninguém quer perder o seu status de um dia para o outro. À crise financeira junta-se a crise de valores.”