Siga-nos

Perfil

Expresso

Atualidade / Arquivo

Anos de brasa (Manoel de Oliveira, parte III)

Quando "Amor de Perdição" incendiou literalmente o país, numa polémica nunca vista antes e nunca mais repetida.

No primeiro trimestre de 1974 foi revelada a lista de subsídios do Instituto Português de Cinema. Era uma lista inaugural e nela se incluíam vários cineastas que o marcelismo se via constrangido a reconhecer, apesar de não serem próximos do regime. Um deles foi Manoel de Oliveira, subsidiado para fazer a adaptação de uma peça de Régio, Benilde ou a Virgem Mãe. Entretanto, contudo, aconteceu o 25 de Abril e a maior parte dos projectos acabou por nunca se fazer, trocados por outros que as circunstâncias tornavam mais adequados. Não sucedeu assim com Oliveira. Enquanto o país fazia a Revolução, Oliveira fechou-se nos estúdios da Tobis embrenhado na história de uma jovem mística que dizia estar grávida sem ter conhecido homem enquanto os uivos de um louco rondavam a casa. Obra extraordinária (e das menos conhecidas do seu autor) estreou a 4 dias do 25 de Novembro, sofreu o recolher obrigatório e tudo - e saiu de cena sem mais delongas. Entretanto, nas divisões que haviam atravessado a classe dos cineastas, Oliveira mantivera-se numa posição pouco comprometida. Recebera, do poder gonçalvista que a maior parte da classe contestava, apoio para um novo filme (Amor de Perdição) que, todavia, só conseguiria filmar mercê de uma grande congregação de esforços de outros realizadores e da RTP que resolve participar no financiamento a troco de uma série - e, por isso, teve primazia na divulgação.

12 de Novembro de 1978: é a data funesta em que o primeiro episódio de Amor de Perdição foi exibido no horário-nobre do 1º canal da RTP. O filme, construído em longuíssimos planos, muitas vezes gerais, respeitando a integralidade do texto de Camilo Castelo Branco, é uma daquelas obras que ensinam o espectador a penetrar na sua própria estética, numa magia em que o efeito da duração (mais de quatro horas) e a hipnose da sala escura são essenciais. Num ecrã de televisão é o desastre, uma imensa "estopada", como escreveu um crítico, dos mais brandos. Porque gente houve que se irou com mais veemência: "O menos que se pode dizer é que transformar Camilo num objecto de riso é crime de lesa-cultura. Camilo é de todos. Mas a TV que todos pagam, rouba-o, apalermando-lhe o génio, aviltando-lhe a força da paixão numa fantochada filmada, cujos intérpretes papagueiam em desconsolado 'ralenti' as intensidades discursivas do genial estilista", escreveu Natália Correia. "Uma escritora menor (Natália Correia) chama a um cineasta maior (Manoel de Oliveira) palerma e fantoche. E é fartar vilanagem perante o silêncio ou a apatia de quase todos", respondeu João Bénard da Costa. Era este o tom da polémica que varreu os jornais e o país - e nunca a controvérsia sobre um filme foi, em Portugal, tão flamejante. Depois, bem, depois o filme estreou em Paris e embasbacou a crítica francesa. Quando desembarcou no Quarteto, em Novembro de 1979, o coro lusitano já estava afinadinho: obra-prima, nada menos.

1981: em Maio um novo filme de Oliveira (Francisca) é apresentado em Cannes que assim abria as suas portas ao mais respeitado dos cineastas portugueses; em Novembro estreia em França, em Dezembro está nas salas portuguesas para um sucesso nunca visto antes e nunca mais repetido - quase 80 mil espectadores. Era a consagração absoluta. A ninguém espantou que o cineasta, no ano em que fez 74 anos, pedisse ao ministro da Cultura, Francisco Lucas Pires, uma subvenção especial para um filme de memórias também muito especial, tanto que só poderia ser mostrado após a morte do seu autor. Pedido concedido, filme acabado (Visita ou Memórias e Confissões), parecia a todos que o velho mestre estava em condições de uma reforma digna, pacífica e honrada na sua quinta do Douro. Ninguém podia imaginar que a sua obra como cineasta nem sequer a meio estava.

(continua na próxima semana)

Texto publicado na edição do Expresso de 15 de Novembro de 2008