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Andreia conseguiu um trabalho na Ikea

Andreia Alcobia, na quinta-feira, na Ikea de Alfragide, numa pausa da formação. Sabe muito bem o trabalho que a espera, pois tem oito sobrinhos (dos 2 aos 12 anos)

António Pedro Ferreira

Com o desemprego a crescer, a loja de Loures foi um eldorado: 45 candidatos por lugar. Dos admitidos, um em cada cinco é licenciado. Histórias de candidatos empurrados pela crise e atraídos pela empresa.

Textos de Paulo Paixão e fotos de António Pedro Ferreira (www.expresso.pt)

Tem um ar discreto, de início até parece tímida, mas ao fim de algum tempo nota-se que dá passos seguros. Na última semana de Abril, Andreia Alcobia estava muito perto de concretizar o sonho de 21458 candidatos a um emprego na nova unidade da Ikea, em Loures: ser um dos 480 escolhidos.

Andreia espreitava tarefas à medida das suas habilitações (11º ano). Mas a concorrência era grande. A postos de trabalho que não requerem uma especialização concorria muita gente com formação superior. No final, mais de uma quinta parte dos novos funcionários (uma centena certinha) são licenciados, e há ainda cinco pessoas com mestrado.

A conjugação da crise com a "imagem positiva" da Ikea provocou uma avalancha de candidatos à loja de Loures. Foram escolhidos num processo demorado, acompanhado pelo Expresso nos últimos meses. A loja abre na próxima terça-feira, curiosamente poucos dias após ter sido batido mais um recorde no desemprego.

Receios antes do exame médico

Apesar da serenidade de que dá mostras, Andreia teve "algum receio" antes do exame médico, à partida um pró-forma prévio ao contrato. "Cheguei a pensar: se calhar, já não me vão aceitar...".

A dúvida assaltara-a dias antes. Por essa altura, o futuro ainda era um ponto de interrogação. Como tal, precisava de jogar pelo seguro. Foi a uma entrevista de emprego para uma loja do Loures Shopping. Veio a pergunta da praxe: "Tem filhos ou está grávida?". A notícia da cegonha ainda estava fresca na memória e no coração de Andreia... Ouviu um rotundo "Não!".

Acusou o toque. Desempregada, 26 anos, um bebé a caminho... Só lhe restava enfrentar o problema. Sem demoras, antes de qualquer questão, contou o que se passava à médica da Ikea. "Gravidez não é doença" - foi o diagnóstico que ouviu. Na segunda-feira seguinte (3 de Maio), uma manhã fria, Andreia atravessou pela primeira vez a porta de serviço da loja de Alfragide, nos arredores de Lisboa, onde iniciaria a formação.

40% com formação superior

Dos muitos milhares que buscaram emprego em Loures, 40% têm formação superior e outros tantos (39%) frequentaram ou concluíram o secundário. O economista João César das Neves considera os números "impressionantes". Mostram "a presente crise" e a "enorme subida do desemprego", por um lado; e "o desajustamento que existe em Portugal entre vagas e capacidades", por outro.

Reconhecendo igualmente que "os números acima do normal" radicam no "problema geral do desemprego", o sindicalista Manuel Guerreiro, membro da comissão-executiva da CGTP, junta outro factor para explicar porque houve tantos candidatos: a "imagem da Ikea na sociedade, que é positiva. Pertence a um país (Suécia) onde há boas condições de trabalho".

Qualificações em falta

Para Andreia, tudo começara em Fevereiro, quando fez a inscrição no site da Ikea. O anúncio pedia pessoas que tornassem a loja "um reflexo da sociedade local", informando que há colaboradores "entre os 18 e os 60 anos". Uma característica pouco habitual, como também soou a raridade o que disse o responsável pelo recrutamento de Loures, numa sessão de esclarecimento (para dezenas de candidatos) no dia 17 de Março: "A Ikea contrata directamente; não tem contratos a prazo, outsourcings ou recibos verdes".

Quando se candidatou, Andreia ainda trabalhava numa loja para noivas, em Loures, onde entrara há oito anos. Algo lhe dizia que a relação duraria muito pouco. Dias depois, estava despedida. Foi já nessa condição que compareceu a sessões presenciais do recrutamento.

Numa delas, em 30 de Março, começou caladinha. Aos poucos, foi dando sinais de vida. Quando o grupo foi chamado a prestar contas, foi ela quem começou a debitar o relatório oral dos trabalhos. Da dezena de presentes, Andreia foi a única mais tarde admitida.

No tipo de oferta como a da Ikea, surgem "imensos candidatos", salienta João César das Neves. Em contrapartida, salienta o professor da Universidade Católica, "há falta de muitas outras profissões técnicas", desde as engenharias a operários qualificados. Um "problema estrutural", que aliado à crise e ao desemprego - aspecto de "natureza conjuntural" - "está a contribuir para a profunda crise social que vivemos".

15 mil candidatos para Matosinhos

Os números são elucidativos: a segunda loja Ikea do país, em Matosinhos, que abriu no Verão de 2007, cativou 15 mil candidatos. Agora, menos de três anos depois, para uma unidade com as mesmas necessidades de recursos humanos, o contingente aumentou mais de 50%.

Manuel Guerreiro detecta as razões: sem requerer uma especialização, a empresa atrai "muitos estudantes e jovens licenciados sem saídas profissionais nas suas áreas". Para o responsável da Intersindical pelo sector dos escritórios e serviços, "é o chamado emprego transitório, que em muitos casos se torna definitivo".

Acumulação de part-time

A partir de terça-feira, Andreia estará na Smaland - o espaço onde os pais deixam os filhos entregues a brincadeiras enquanto percorrem a loja. É um part-time, pois só já havia esses horários disponíveis. Trabalhando 20 horas por semana, terá um salário bruto de €287. Com o subsídio de alimentação, arredondará o líquido mensal para €300 (valores gerais da empresa para aquele horário, sem contar com o pagamento de trabalho nocturno, feriado ou fim-de-semana, que é variável).

Para Andreia, é apenas o começo, como se o futuro fosse um kit para montar. "Farei todos os esforços para ter mais carga horária, com um novo part-time", diz. Essa possibilidade foi, aliás, uma das mais exploradas em perguntas dos candidatos presentes na sessão de esclarecimento a que o Expresso assistiu. Se alcançar o seu próximo objectivo, Andreia quer experimentar a parte de vendas. "Era o que desejava, em qualquer secção".

  • €600 Valor do rendimento líquido mensal dos novos funcionários da Ikea (40 horas por semana, com subsídio de alimentação; não inclui pagamento por trabalho nocturno, ao fim-de-semana ou feriado, cujo montante é variável)
  • 3059 Pessoas presentes nas dinâmicas de grupo. A todos foi feita, pelo menos, uma entrevista pessoal
  • 38.500 Metros quadrados é a área da nova loja (a superfície média das unidades Ikea em qualquer ponto do mundo). Há 2350 lugares de estacionamento
  • 2 Futuras lojas da Ikea (após Loures) com localização já conhecida: Gaia e Loulé

1. Contratos

Vínculos São celebrados com a Ikea, sem intermediários. Têm a duração de quatro meses, após o que a empresa faz uma avaliação definitiva

Progressão Todos os colaboradores têm um plano de carreira

2. Benefícios

Seguros Os funcionários a tempo inteiro têm seguros de saúde e de vida

3. Maternidade

Licença O programa 'Passa mais tempo com o teu bebé' permite à mãe continuar mais dois meses em casa (com 70% do salário). Nos part-time os apoios são proporcionais

Subsídio Atribuição de um apoio que pode ir até €450 por filho

Kit bebé Entrega de um pequeno enxoval com artigos da Ikea

4. Descontos

Produtos Para usufruto próprio, os colaboradores podem comprar bens da loja 15% mais barato

Alimentação Uma refeição pode ficar por pouco mais de €1. Lanche, ceia ou pequeno-almoço são grátis

A dinâmica de grupo era 'a prova dos 9', em que os candidatos tinham de trabalhar em conjunto. No final, de 10 a Ikea tirou 1. Mas os outros têm nomes e histórias.

Natália, 43 anos, esperava um telefonema para nova entrevista e nem queria pensar em notícias pelo correio. Era por escrito que a Ikea comunicava com os candidatos entretanto excluídos. Foi o carteiro quem despejou o balde de água fria: "Neste momento não podemos oferecer-lhe o posto de trabalho para que nos contactou", lamentou a empresa, apesar da "interessante entrevista que nos proporcionou".

"A pessoa apanha uma chapada", diz Natália. "Quando recebi a carta senti uma grande desilusão. A entrevista até me correra bem. Mas isto está difícil, talvez a idade seja um impedimento".

Na dinâmica de grupo, Natália fora das mais assertivas. Iniciado o exercício, tomou o comando das operações. Era um trabalho mesmo a calhar para quem vive quase paredes meias com a loja, em Frielas, junto à outrora verdejante Várzea de Loures, onde hoje o betão cresce.

Natália estava desempregada. Assim continua, pois nada mudou nos quase dois meses decorridos desde a sessão observada pelo Expresso. À determinação desta mulher de fala decidida só se compara a humildade e o aprumo com que pede ao jornalista para não mencionar o seu apelido, nem mostrar a fotografia. "As pessoas que me conhecem vão fazer-me perguntas e eu não quero ter de dar explicações".

As palavras, essas esgrimiu-as bem na "dinâmica de grupo". Despachada nas propostas, hábil nas sugestões. Eram simples pedidos, suficientes para persuadir. Só que Natália não estava sozinha à volta da mesa. Foi questão de minutos até surgir um ligeiro atrito com Sofia, a outra líder do conjunto. Como Natália, também Sofia pede que se omita o apelido, embora sem levantar objecções à imagem. "Mas não meta uma foto de primeiro plano".

As escalas e os ângulos são conceitos manejados por Sofia: é arquitecta. Não estava propriamente à procura de um emprego. Por isso, mostra-se indiferente pelo facto de estar na mesma situação, até porque parte do tempo é dedicado a um filho pequeno. Sofia queria simplesmente trabalhar na Ikea, por "simpatia": "É a afinidade natural de quem tem formação em artes".

Numa situação semelhante à de Sofia estava a brasileira Rita, 46 anos. Por "opção", deixou de trabalhar há quase duas décadas, antes de nascer o primeiro de três filhos (hoje 18 anos, mais cinco do que a caçula). "Só queria um part-time, uma oportunidade para recomeçar".

Susana, 22 anos, era a mais nova. Em horário pós-laboral, estuda Design Gráfico, depois de já ter passado pelo curso de Turismo. Estava desempregada no final de Março e assim continua. Na mesma situação encontra-se Joel, 29 anos. Guineense, depois de alguns anos vividos no Brasil, aterrou em Portugal em 24 de Junho de 2009, uma data que assinala voluntariamente.

Na altura da sessão, Georgina (36 anos) e Carlos (25) estavam desempregados. Fabrísio, de 26, aluno no Politécnico do Barreiro, procurava um trabalho para compatibilizar com os estudos. Por impossibilidade de contacto ou por chamadas telefónicas incompletas ficou por saber qual a situação actual.

O mesmo desconhecimento existe em relação a José Eduardo, o decano do grupo (54 anos). Com emprego seguro - é funcionário público, coordenador de uma Loja do Cidadão na margem sul - viu no "tempo livre" a possibilidade de "procurar um part-time". P.P.

A selecção de novos funcionários é feita por formadores da casa, de onde saem também muitos quadros intermédios. Quem vem de fora é sujeito a crivo rigoroso.

Antes de tentar o mercado, a Ikea apostou nos recursos próprios. Cerca de 70% das chefias de Loures são oriundos de Alfragide (a sister store deste processo). Estava-se em Janeiro de 2009. Dois meses depois, a sondagem estendeu-se às redes sociais profissionais LinkedIn e TheStarTracker. Por esta fase passaram cerca de 2500 pessoas. Só em Dezembro passado o processo foi aberto às massas, novamente tendo a Internet como canal privilegiado. Por preencher havia lugares nas áreas de vendas, logística, caixas, restaurante e serviço de apoio ao cliente. A maior parte dos candidatos tinha entre 18 e 39 anos, sendo o escalão dos 29-39 anos o mais representativo: 40% das pessoas. Num país onde por cada desempregado com formação superior ou intermédia (secundário e pós-secundário) há três desempregados com escolaridade até ao 9º ano, a amostra da Ikea apresentou proporções inversas: por cada candidato com o ensino básico havia quatro com formação superior e intermédia (dois em cada escalão). Estes 21458 interessados passaram por um processo com quatro etapas.

  1. Questionário online À etapa inicial concorreram pessoas no desemprego, mas também quem apenas pretendia um part-time, para obter mais rendimentos. Os candidatos (e foram 21458) tiveram de dizer o que achavam de 78 enunciados - valorando-os de 1 (discordo plenamente) a 5 (concordo plenamente). Havia frases como "Quando é necessário, é melhor chamar a atenção ao cliente, ainda que isso o possa aborrecer".
  2. Sessão de esclarecimento Nesta etapa estiveram 4605 pessoas. Alguns convocados, que superaram a fase do questionário, não compareceram. Numa manhã, oito a nove dezenas de pessoas ouviram dois formadores da Ikea explicar o que é a empresa. Estes mostraram filmes e gráficos. Contaram a história da casa e exibiram histórias de alguns funcionários. Revelaram as condições de admissão (vencimentos, outras regalias, direitos e deveres). Os candidatos podiam perguntar o que bem entendessem - e aclararam muitas dúvidas. Após as explicações, um em cada três dos presentes desistiu.
  3. Dinâmica de grupo Foi aqui, verdadeiramente, que começou a selecção. À volta de uma mesa (uma média de oito a dez pessoas), os candidatos tinham de fazer um trabalho em grupo. Foi executado por 3059 pessoas. Os formadores observavam a interacção, a capacidade de liderança ou outras performances que podiam ser úteis em tarefas tão díspares como a venda, o serviço ao cliente, atendimento no restaurante ou reposição de stocks no armazém. Após a sessão seguiu-se uma entrevista individual. No final da sessão
  4. Entrevistas individuais A primeira foi feita após a dinâmica de grupo. Mas só quem superou o terceiro nível é que voltou a passar por mais entrevistas individuais. Andreia Alcobia teve mais duas - uma com a futura chefe directa, outra com o responsável pelo departamento em que está enquadrada.

Texto publicado na edição do Expresso de 22 de Maio de 2010