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Aljezur alberga activistas de todo o mundo

Durante as próximas duas semanas cerca de 500 activistas de todo o mundo vão viver em comunidade, numa eco-aldeia construida em Aljezur. Reciclagem, energias renováveis e comida biológica fazem parte do acampamento.

“Comida pra todos, bombas pra ninguém!”. O slogan escrito numa faixa de tecido, pendurada numa cozinha improvisada nas ruínas de um descampado em Aljezur, resume em muito o espírito do ‘Ecotopia’. Desde 1989, activistas ambientais de todo o mundo reúnem-se para viver em comunidade durante quinze dias numa eco-aldeia construída pelos participantes, onde conceitos como reciclagem e energias renováveis são lei. Este ano, o encontro é em Portugal.

Na fila para o jantar estão mais de 150 pessoas, oriundas de países tão diferentes como o Canadá e a República Checa. De prato e talheres na mão, aguardam pela sua vez para receber a refeição, sempre vegetariana, cozinhada pelos oito voluntários que há mais de duas horas preparam o jantar numa fogueira. Não há fogões nem aparelhos eléctricos para facilitar a tarefa que se avizinha tornar ainda mais difícil: é que até ao fim da semana o total de participantes pode chegar aos 500.

Sem qualquer fim lucrativo, o 'Ecotopia' é anualmente organizado pela European Youth for Action (EYFA), em conjunto com associações ambientais do país escolhido para a realização do evento. A 19ª edição está a contar com a ajuda do Grupo de Acção e Intervenção Ambiental (GAIA), que teve mais de vinte voluntários a preparar previamente o recinto. Todas as eco-construções são feitas em madeira e com materiais reutilizáveis, a energia provém de painéis solares e as casas de banho são secas.

Partilha mundial de ideias

Gualter Baptista, 28 anos, membro do GAIA há nove, garante que embora a equipa não ganhe dinheiro com estas três semanas de trabalho, ninguém fica a perder: “Ganhamos muito com a partilha de conhecimentos e com a construção de redes e movimentos que este encontro proporciona”, explica o jovem, que está a terminar o doutoramento em economia ambiental e já participa no Ecotopia desde 2000.

Embora sejam meros visitantes vindos de Salvaterra de Magos, Ana e Eduardo, ambos engenheiros ambientais, concordam com Gualter. “Viemos porque achámos interessante esta hipótese de troca de contactos com pessoas de outros países que trabalham em áreas semelhantes à nossa”, explica o jovem casal, para quem ter um filho pequeno não foi impedimento para participar no encontro.

Do alto dos seus quase dois anos, o André “é um verdadeiro viajante”, garantem os pais. “Já fomos com ele a festivais de música e viajámos até Marrocos. Para nós é cansativo, mas para ele é fantástico aprender a interagir com outras pessoas”, conta a mãe, ressalvando, no entanto, que o espaço do 'Ecotopia' "não está ainda suficientemente optimizado para crianças tão pequenas”. Mesmo assim, o casal vai ficar até ao final da semana: “É um óptimo sítio para relaxar e evadirmo-nos do stress da cidade”.

Viver naturalmente em comunidade

A partilha de experiências e conhecimentos, no âmbito das causas sociais e do ambiente, parece ser a chave para o sucesso do encontro. Desde a produção de sabão ecológico aos direitos dos animais, todos os dias os participantes desenvolvem workshops sobre as suas áreas de trabalho. As decisões sobre a gestão do acampamento são tomadas por consenso no círculo da manhã, onde todos os participantes se reúnem pelas 8h30. Tarefas como limpar as casas-de-banho, recolher o lixo ou construir infra-estruturas são distribuídas por todos.

Sílvia, uma alemã de cabelo roxo e grandes olhos azuis, garante que não tem havido problemas com a distribuição de tarefas. “Há sempre uns que trabalham mais que outros mas temos sempre voluntários para tudo”. Depois do Ecotopia 2006, na Eslováquia, a jovem veio para Lisboa, onde esteve a trabalhar com crianças através do GAIA. Após o encontro em Aljezur pretende continuar por terras lusas e talvez desenvolver um projecto de sacos ecológicos feitos de algodão. Uma vez que em Portugal estes projectos “têm burocracias de financiamentos muito grandes”, a ideia poderá vir a ser discutida com os outros participantes e, quem sabe, chegar a uma iniciativa concreta. “É muito importante aceitarmos as ideias uns dos outros e ajudarmos na sua concretização”.

Projectos à parte, a diversão e a meditação também fazem parte do dia-a-dia do Ecotopia. Embora seja um encontro de defensores da vida auto-sustentável, os computadores portáteis com internet estão sempre presentes, assim como os telemóveis. Com a noite chega a música tocada com djambés e guitarras que servem de banda sonora àqueles que, estoirados desta vida comunitária, voltam à tenda para dormir em comunhão com a natureza.