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Al Gore, a razão antes do tempo

Em vésperas da estreia de «Uma Verdade Inconveniente» – um documentário ambientalista do ex-vice-presidente dos EUA –, um retrato do autor, um texto sobre a moda verde e duas críticas ao seu filme.

Um coro crescente de americanos que escreve na blogosfera parece pensar que sim. Mas os seus detractores acham a ideia absurda e ridicularizam-no constantemente. São liderados por nada menos que o Presidente George H. W. Bush - pai do actual Presidente -, que um dia zombou de Gore chamando-lhe «Homem-Ozono», uma referência ao que ele considerou ser uma bizarra obsessão de Gore pelo ambiente.

Como se sabe, o actual ocupante da Sala Oval não acredita no aquecimento global. A sua obra de referência é o romance de ficção científica State of Fear (Estado de Medo), que avança que a mudança climática é uma conspiração e uma patranha. Bush convidou no ano passado o seu autor, Michael Crichton, para a Casa Branca, onde, de acordo com Fred Barnes no seu livro Rebel-in-Chief (Rebelde-Chefe), os dois homens «falaram durante uma hora e estiveram quase num acordo total». Bush gosta de ridicularizar Gore, e os seus seguidores ambientalistas, chamando-lhe «feijão verde». Diz que Gore «gosta de carros eléctricos, só que não gosta de fazer electricidade». Entretanto, um conhecido comentarista conservador, Charles Krauthammer, afirmou recentemente que as opiniões de Gore são tão absurdas que ele necessita de tomar medicamentos psiquiátricos: «Parece que Gore deixou outra vez de tomar o seu lítio». Na Internet e nos meios de informação conservadores há uma indústria florescente com gente que gosta de fazer graças à custa do antigo vice-presidente.

Também Churchill foi sempre ridicularizado até ao dia em que Hitler marchou sobre a terra dos sudetas. E as semelhanças não terminam aqui. Tal como Churchill, Gore entrou jovem para a política e teve um extraordinário sucesso imediato. Churchill foi membro do Parlamento aos 27 anos, Gore foi eleito para o Congresso aos 28. Churchill foi ministro aos 34, Gore foi senador aos 36. Aos 57 anos, Churchill entrou na sua «travessia do deserto», sendo muitas vezes apontado como «excêntrico» por se referir constantemente ao fascismo. Aos 52 anos, Gore retirou-se para a sua fazenda no Tennessee depois de ter sido humilhantemente espoliado da sua vitória na eleição presidencial de 2000 e vilipendiado pelo seu partido por ter feito uma péssima campanha. Mas ambos os homens recusaram aceitar as suas derrotas, utilizando a sua marginalização do poder como uma oportunidade para atacar o «establishment» sobre a questão vital que eles consideravam que estava a ser ignorada.

Durante a campanha de 2000, Gore foi um candidato inexpressivo, cauteloso e tímido. Mas hoje em dia já não é assim. Transformou-se no mais poderoso orador dos democratas e responde à letra a Bush. Por exemplo, num discurso recente, em São Francisco, disse: «Nos primeiros dias da catástrofe a que estamos a assistir, o Presidente comparou as actuais operações no Iraque com a Segunda Guerra Mundial e a vitória sobre o Japão. Permitam-me citar uma diferença entre estes dois acontecimentos históricos: quando o Japão imperial nos atacou em Pearl Harbor, Franklin Roosevelt não foi invadir a Indonésia!» E critica repetidamente Bush pelos seus «terríveis erros de avaliação e completas falsidades».

Entre as grandes figuras políticas americanas, Gore foi o único que se opôs abertamente à invasão do Iraque antes mesmo de ela ter começado. Criticou duramente a Administração pela prática de tortura de prisioneiros e avisa que Bush colocou a Constituição em «grave perigo» por insistir que o seu cargo lhe dá automaticamente autoridade para pôr cidadãos sob escuta telefónica e prender americanos sem o necessário mandato. Nenhum outro político ousou ir tão longe.

Alguns consideram que Gore está deliberadamente a cortejar o paralelo com o buldogue britânico. Até está a engordar e começa a parecer-se um pouco com Winnie. Só lhe falta o charuto. E é verdade que cita repetidamente Churchill. Eis uma passagem do mesmo discurso em São Francisco: «Winston Churchill, quando a tempestade se começava a formar na Europa continental, distribuiu avisos sobre o que é que estava em jogo. E disse o seguinte sobre o governo que estava então no poder em Inglaterra - e que não tinha a certeza de que a ameaça era real: ‘Persistem num estranho paradoxo, apenas decididos a ficarem indecisos, resolvidos a ser irresolutos, firmes ao serem levados pela corrente, sólidos na fluidez, todos-poderosos para serem impotentes’. E continuou: ‘A era do adiamento, das meias-tintas, do expediente apaziguador e dilatório está prestes a terminar. Em seu lugar, estamos a entrar num período de consequências’».

Gore também está convencido de que entrámos num período de consequências, no qual a ameaça iminente de uma mudança climática rapidamente se tornará cada vez mais visível. Esse é o tema da conferência e da apresentação de «slides» que exibiu por toda a América mais de mil vezes e do filme An Inconvenient Truth (Uma Verdade Inconveniente). Ele considera que a humanidade tem dez anos para enfrentar o problema antes que uma catástrofe generalizada se torne inevitável. Tal como Churchill, a missão que impôs a si próprio é forçar a nação e os seus líderes a despertarem para a ameaça e convencê-los a fazerem os sacrifícios necessários para a confrontar.

E pensa que está a conseguir. Recentemente, disse: «Espero que estejamos a aproximarmo-nos de um ponto de viragem para além do qual o país começará a enfrentar isto muito seriamente e a maioria dos políticos de ambos os partidos irá competir entre si para apresentar soluções significativas. Ainda não estamos perto disso, mas um ponto de viragem é por definição um momento de mudanças rápidas. Penso que o potencial para esta mudança está a crescer, vemos os ministros evangélicos a manifestarem a sua opinião, a General Electric e os administradores de empresas republicanos a dizer que temos de tratar destas questões e também as organizações de base... todas estas coisas estão a acontecer ao mesmo tempo porque, por modos diferentes, as pessoas estão a ver uma nova realidade. A relação entre a nossa civilização e a Terra transformou-se radicalmente».

Bush é, provavelmente, uma causa perdida, mas é evidente que Gore está a mudar as mentalidades, e não apenas nas questões da mudança climática. Muitos democratas já começam a olhar para Gore como o homem mais bem posicionado para recuperar a Casa Branca em 2008. O aristocrata rígido e impessoal que fazia discursos políticos enfadonhos num tom monocórdico em 2000 desapareceu. Agora, quando Gore discursa, a impressão que fica é a de alguém espirituoso, irónico em relação a si próprio e carismático. Parece relacionar-se sem esforço com as audiências. E está cada vez mais simpático.

Mas abraçar a causa ambientalista é tudo menos moda. Gore esteve à frente do seu tempo, tal como Churchill esteve relativamente à ameaça nazi. Como jovem senador, Gore foi o primeiro político em Washington a organizar audiências de comissões sobre mudança climática há mais de 20 anos. Passaram quase 15 anos desde que publicou o seu livro Earth in Balance (Terra em Equilíbrio), que foi um êxito de vendas e onde proclamou que «temos de fazer da salvação do ambiente o princípio organizador central da civilização».

De facto, Gore esteve à frente da viragem em muitos aspectos, tal como o seu modelo britânico. Churchill forçou a Marinha britânica a trocar o carvão pelo petróleo, ajudou a desenvolver o tanque como arma de guerra e preocupou-se com a expansão soviética muito antes de outros políticos. Com o seu cunho progressista, a folha de serviços de Gore é comprovadamente bem mais impressionante. Foi ele quem pressionou os congressistas a aprovar a legislação que permitiu o desenvolvimento da Internet. Joseph Traub, professor de informática na Universidade da Columbia, afirma que Gore «foi talvez o primeiro líder político a entender a importância de ligar o país em rede». O professor Dave Farber, da Universidade da Pensilvânia, diz que sem Gore a Internet «não seria o que é hoje». Tais comentários são repetidos por muitos dos líderes da indústria informática.

Gore continua actualizado de outras formas. É um dos mais importantes consultores da Google e da Apple, duas das empresas do planeta mais informadas e vanguardistas. Iniciou uma rede de televisão interactiva para jovens cujo objectivo é acabar com a natureza passiva e viciante da televisão e ajudou a criar um fundo da Wall Street destinado a fazer investimentos responsáveis.

Ele não faz de conta que o que está a propor é fácil. Tal como Churchill avisou no início da guerra que «não tenho nada para oferecer senão sangue, trabalho duro, lágrimas e suor», também Gore avisa que «este é um momento moral. Afinal, o que está aqui em questão não é um qualquer debate científico ou diálogo político. Do que aqui se trata é, em última análise, sobre o que somos como seres humanos. É sobre a nossa capacidade de transcender os nossos próprios limites, de estar à altura desta nova ocasião. De ver com os nossos corações, bem como com as nossas cabeças, a resposta sem precedentes que nos é agora exigida. De nos emanciparmos, de nos despirmos das ilusões que foram nossas cúmplices ao ignorarmos os avisos que foram claramente dados e ao ouvirmos aqueles que agora são claramente dados».

Gore quer que os americanos se afastem da sua vazia cultura televisiva. «Está na altura de recuperar a saúde moral da América», implora. E pede mais: «Ergam-se de novo para defender a liberdade, exigir responsabilização pelas decisões infelizes, por julgamentos errados, por falta de planeamento, por falta de preparação e por negação deliberada da verdade óbvia sobre ameaças graves e iminentes que se apresentam ao povo americano. Temos de nos emancipar do espectáculo de som e luz que tem desviado as atenções da nossa grande democracia dos problemas importantes e dos desafios dos nossos dias. Temos de nos libertar do julgamento de Michael Jackson, da última obsessão consecutiva com julgamentos de celebridades ou de qualquer outra relativa trivialidade que domina o discurso da democracia».

Tudo isto fez com que as pessoas começassem a prestar-lhe atenção. Como escreveu este mês um comentador político, «a América está preparada para que um adulto como Gore assuma o poder e coloque de novo o país numa via racional. Uma via onde os défices são importantes, onde a conservação de energia não é ridicularizada como uma ‘virtude pessoal’, mas é uma política nacional agressiva, e onde a ciência, os factos e a realidade conduzem a política pública, não a agenda neomedieval da direita cristã».

Um importante dirigente do Partido Democrata, citado anonimamente na revista «Newsweek» no princípio do ano, concorda: «Os eleitores que desejarem um líder com princípios, que acredita verdadeiramente em alguma coisa, podem encontrar o que procuram no antigo vice-presidente. Gore pode dar-se ao luxo de esperar até ao último momento da temporada política para anunciar a sua candidatura à presidência em 2008. Ele tem um nome reconhecido universalmente, uma comprovada capacidade para angariar fundos e sabe bater no teclado do mecanismo da Internet para lançar uma campanha de ideias para o cidadão comum. Ao contrário do candidato favorito, Hillary Clinton, ninguém tem dúvidas sobre o que Gore representa nem sobre aquilo em que acredita».

Mas existe uma diferença crucial entre Gore e Churchill, que nos anos da sua travessia do deserto em Chartwell nunca disfarçou a desesperada ambição de regressar ao centro do poder político: Gore insiste que não está interessado em apresentar de novo uma candidatura à Casa Branca. «Não tenho planos para concorrer a Presidente... Já lá estive e já fiz isso. Descobri que há outras maneiras de servir e estou a gostar do que faço... actualmente estou envolvido noutra espécie de campanha e tenho outro tipo de trabalho para fazer».

Vindas de outros políticos, estas palavras podiam soar como um estratagema de falsa modéstia para reduzir expectativas e deixar os adversários a fazer suposições. Mas Gore admitiu frequentemente que não gosta do tipo de política de cordialidade exuberante e calorosa que tanto agrada às multidões e em que Bill Clinton e George Bush são mestres. Prefere discutir ideias. Vai mais longe: «Acho que os meus conhecimentos não são necessariamente exibidos da melhor forma como candidato, realmente não!», disse ele a John Heilemann, da revista «New York», no princípio deste ano. «Não estou a ser falsamente crítico em relação a mim próprio. Penso apenas que há uma data de coisas na política que não me agradam, uma série de coisas que sinto como tóxicas».

Gore admite que para fazer as mudanças que preconiza é preciso o tipo de poder que se tem na Sala Oval, mas é óbvio que se deleita com a liberdade de não ter de obedecer às muito calculadas restrições do politicamente correcto nas actuais campanhas eleitorais americanas. «Não contesto que um Presidente pode fazer uma grande diferença, mas... temos de insuflar uma nova vida na democracia americana. Penso que estou a dar o meu contributo ao falar francamente e com toda a clareza e arrojo de que sou capaz».

Para os auditórios, brinca frequentemente, dizendo que, tal como um ex-alcoólico, «sou um político curado». Mas por vezes acrescenta: «Mas é sempre preciso estar atento a uma recaída!» Para alguns, isto lembra a posição de Churchill: esperar nos bastidores pelo momento em que a crise seja tão má que o país se volte para ele, pedindo-lhe para agarrar o leme e traçar um rumo através da terrível tempestade que se avizinha.

Tradução de Aida Macedo