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A vida por 1000 milhões de bolívares

Dois emigrantes portugueses foram raptados na Venezuela. Uma aventura que começa numa cidade portuária e acaba nos Andes, com o pagamento de 370 mil euros.

No dia em que foi raptado, António Gouveia calçou sapatos de festa. Era domingo e ia almoçar com um primo a Valência, a 50 quilómetros de Puerto Cabello, a cidade na costa da Venezuela onde os Gouveia vivem há sete anos. «Calça uns sapatos», insistiu Isabel, farta de ver o marido com as botas de trabalho surradas e feitas ao pé. Pela primeira vez em muito tempo, António calçou os mocassins, que estavam como novos, guardados para as ocasiões especiais.

«Hoje podes ir tranquilo, que ninguém te conhece», garantiu a mulher, quando o viu de sapatinho preto, camisa engomada e «umas calças mais ou menos» (segundo a descrição de António) em vez dos jeans ruçados que são uma espécie de farda de trabalho. Contra o prognóstico de Isabel, os sequestradores reconheceram-no. E foi com essa roupa que António viveu os 26 dias seguintes.

Saiu de casa por volta das dez da manhã. Antes de seguir para Valência com a família, ainda tinha tempo de ir a Morón, a cidadezeca a oeste de Puerto Cabello onde António tem os seus negócios – um bar, um talho e uma frutaria. Apesar de ser domingo, era dia de trabalho. O bar, que não é mais do que um armazém escuro com um balcão corrido que dá para a rua, onde homens ociosos se encostam horas a fio a virar garrafas de cerveja Polar e a mandar piropos às «chicas», abre todos os dias. O talho, que é a porta ao lado, estava fechado, e a frutaria, a porta a seguir, também devia estar – mas Carlos, o cunhado de António, ocupava-se a fazer o inventário. No dia seguinte, assumia o lugar de gerente da loja e queria garantir que tudo estava a seu jeito.

António aproveitou os dez quilómetros entre Puerto Cabello e Morón para puxar pelo seu novo brinquedo: um Chevrolet Avalanche cinzento metalizado que ainda cheirava a novo. Uma «pickup» que era o orgulho de um homem, imponente, espaçosa, e com duas arcas térmicas incorporadas, perfeitas para manter a cerveja fresca nos dias de calor. António tinha comprado o carro dois dias antes e ainda nem tinha tirado os forros de plástico dos bancos de trás e das palas que protegem do sol.

Quando desceu do carro, parado em segunda fila à porta da sua «licoreria», António viu que o colombiano estava à sua espera. Só nesse momento se lembrou que lhe tinha dito, na véspera, que passasse por ali no domingo de manh㠖 não era bem um compromisso, era mais uma maneira de adiar o assunto, mas o homem lá estava.

Já há uns dias que o colombiano rondava os negócios de António. Da primeira vez que entrou no talho à procura do dono, apresentou-se com um nome que ninguém reteve e passou a ser apenas «o colombiano», tão marcante era o sotaque do outro lado da fronteira. Em duas semanas, tinha aparecido umas cinco ou seis vezes. Dizia que tinha madeira para vender, como se tivesse adivinhado que António precisava de madeira para renovar a cerca da sua fazenda. Há três anos que o português tinha comprado uma propriedade com 400 hectares a nove quilómetros de Morón. Era daí que vinha a carne de vaca que vendia no seu talho, mas a fazenda permitia-lhe sobretudo negociar gado – uma actividade mais lucrativa do que o pequeno comércio na cidade.

Apesar de precisar daquilo que o colombiano lhe queria vender, António adiou sempre a conversa, até aquele domingo, em que o homem apurou a lábia e o apanhou com tempo livre. «Numa hora vai e vem», garantiu-lhe o colombiano. Tanto insistiu que António cedeu – podia fazer a transacção e ainda se despachava a tempo do almoço de família.

«Cunhado, vens comigo?», desafiou, para o irmão da mulher. Carlos hesitou, mas aceitou o convite. Limpou as mãos e o suor da testa a um pano sujo, abotoou a camisa vermelha que estava aberta até à barriga, e sentou-se no carro novo. O colombiano, que ia no banco de trás, dava indicações do caminho e respondia prontamente a todas as perguntas. Era um homem nos seus trinta anos, de aspecto informal, mas cuidado, tinha sempre respostas prontas e parecia saber tudo sobre madeira e tudo sobre fazendas.

A viagem demorou pouco mais que a meia hora prometida, até chegarem a um caminho de terra que metia pelo meio da mata. Pararam onde o colombiano lhes disse e seguiram a pé por outro trilho enlameado, que só via quem sabia dele. Não andaram mais que dez metros, quando o homem lhes disse, como se fosse uma senha: «Aí está a madeira.»
«Saíram quatro homens da mata, três com pistolas de 9 mm e um com uma [metralhadora] Uzi», conta Carlos ao Expresso, num relato que a seguir António há-de confirmar.

Carlos fala baixo, devagar e as palavras saem-lhe a custo, ou a medo, com um cuidado que contrasta com a azáfama da frutaria e com o barulho confuso que vem da rua. Conta a sua história encostado a um canto da loja, um espaço acanhado e húmido como uma sauna, uns metros quadrados roubados ao espaço do talho. É o perfeito oposto do cunhado. Carlos é mais alto, cabelo e bigode grisalhos, barba por fazer, olhos mortiços que não se fixam no interlocutor. Parece assustado e corta as frases com súbitos silêncios que lhe servem para encher o peito de ar. Quando era criança, viu o pai ser morto com um tiro na cabeça, numa rua de Caracas, ao saírem da padaria que era o sustento da família. Uma imagem que se repetiu na sua memória ao longo do sequestro.

António, ao contrário, não se dá a silêncios meditativos. Tem uma fisionomia esperta, um metro e sessenta e tais, um bigodinho aparado de galã sul-americano, cabelo preto, olhos pequenos e vivaços, rugas de quem gosta de rir e a pele tisnada e rosada, do sol e da bebida. Se fala castelhano, tem sotaque madeirense, se fala português, tem dengo sul-americano. Mas o discurso é decidido, de quem sabe o que quer e como se faz. «O que é que se passa?», soltou António quando se viu rodeado de homens armados. «Está quieto que não vai passar nada», responderam-lhe.

Com quatro armas apontadas, no meio de nenhures, António constatou a evidência: «Isto não é um roubo, é um sequestro!» – não era bem uma pergunta, era ele a pensar em voz alta.

O homem da Uzi, que aparentava vinte e tal anos e se comportava como se fosse o chefe, confirmou: «É um sequestro. Vocês vêm connosco.» Tinha o mesmo acento colombiano daquele que os tinha levado à cilada e que, entretanto, voltou para trás e arrancou com o Chevrolet metalizado. O carro seria encontrado dois dias depois, abandonado numa estrada, com a chave na ignição e nenhum vestígio do seu último tripulante.

Passava das onze da manhã de 2 de Julho de 2006 quando António e Carlos começaram uma longa caminhada, já aliviados do peso dos seus documentos e telemóveis. Nas horas seguintes, abriram caminho pelo meio de uma vegetação densa, na qual mal se distinguia um carreiro, mas onde os quatro sequestradores se moviam com confiança. Aparentemente sabiam para onde iam, embora parecessem andar às voltas. «Achei que estávamos a andar aos esses, para não conseguirmos perceber para onde íamos», recorda António. Durante seis horas, só pararam para beber água.

Enveredaram montanha acima, pelo meio de vegetação densa, e António maldizia a hora em que trocou as suas botas confiáveis por uns sapatos que só lhe atrapalhavam a marcha. «Achei que me iam mandar tirar os sapatos e ir descalço.» Para dificultar o que já era difícil, começou a chover. Até António e Carlos voltarem a casa, havia de chover quase todos os dias – às vezes, era só a humidade que se condensava em chuva miudinha, noutros dias era um desabar de água como se se abrissem comportas no céu.

Era noite cerrada quando chegaram ao destino: uma clareira no meio da selva onde os raptores esticaram umas redes que estavam dissimuladas por baixo de galhos e folhas. Para enganar a chuva, estenderam por cima das redes, amarrados às árvores, uns plásticos pretos. Aquela seria a sua casa nos tempos seguintes, guardada por três sujeitos com ar de poucos amigos – o quarto sequestrador seguiu caminho mal amanheceu.

A eficácia do sequestro, a segurança com que os raptores se moviam na floresta, a destreza com que montaram o acampamento, tudo aliado ao sotaque colombiano, fez crescer nos portugueses a suspeita de que estariam nas mãos da guerrilha do país vizinho. Por outro lado, nenhum dos homens cobria a cara, o que podia significar duas coisas: ou não tencionavam deixá-los sair vivos, ou não contavam regressar àquelas bandas. António não resistiu à curiosidade: «São da guerrilha?». «Somos», respondeu-lhes o que parecia ser o chefe, que ostentava sobre a roupa civil insígnias de major.

António e Carlos acreditam que passaram quase um mês nas mãos da guerrilha colombiana.

Nos últimos anos, com as autoridades da Colômbia a apertar o cerco à guerrilha e ao narcotráfico, tornaram-se frequentes as notícias sobre as suas actividades criminosas na Venezuela. Robinson Castillo, nomeado em Agosto inspector-chefe da polícia criminal de Puerto Cabello, não duvida que tenha sido assim. Não investigou este rapto, porque a família nunca o denunciou às autoridades, mas não lhe falta informação sobre este caso, que foi notícia nos jornais e tema de conversa na cidade. Para além disso, o comissário Castillo está familiarizado com o assunto – antes de ser colocado na cidade portuária, trabalhava em Caracas, na Divisão Anti-Sequestro. Ao Expresso, diz que reconhece no caso dos portugueses a «típica técnica» dos guerrilheiros – o «estudo das rotinas, das debilidades e das necessidades» das vítimas, o conhecimento das montanhas, o tipo de acampamento – e cita um caso muito semelhante, levado a cabo pelas FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, organização guerrilheira) também longe da fronteira colombiana. «Para eles é muito fácil falsificar documentos e andar por toda a Venezuela», afirma.

Pelo contrário, José Perez, um dos maiores especialistas venezuelanos em matéria de raptos, não está seguro de que este caso seja atribuível Às FARC ou ao Exército de Libertação Nacional (ELN, outro grupo da guerrilha colombiana). Perez chefia a Divisão Anti-Extorsão e Sequestro do Corpo de Investigações Científicas, Penais e Criminais (CICPC), e também soube da história de Puerto Cabello pelos jornais. Com o que sabe do caso, afirma a Expresso: «É possível que [António e Carlos] tenham sido sequestrados por colombianos, e os sequestradores até se podem ter feito passar por guerrilheiros, para se tornarem mais credíveis e causar maior efeito psicológico nas famílias. Mas não acho provável que fosse a guerrilha. Esses actuam normalmente mais perto da fronteira.»

Na primeira noite não houve mais conversa, apenas a ordem para que os dois prisioneiros se deitassem nas camas improvisadas. Carlos, derreado pelo medo e pelas horas de caminhada, apagou-se mal se estendeu na rede e só se lembra de acordar de manhã, com uma algazarra de macacos vinda de árvores próximas. Foi a única noite em que dormiu mais do que duas horas seguidas.

Com António foi ao contrário: na primeira noite nem pregou olho. «Quem é que dorme assim?» Seguia os vultos furtivos dos seus captores, ouvia os sons da selva, imaginava feras capazes de os atacar pela calada, lembrava-se de ter ouvido que aquelas montanhas escondiam tigres. Apesar destes receios, quando voltou a casa só tinha para contar a história de uma cobra, «com uns três metros», apareceu sem ser convidada. Apesar do susto, o episódio valeu pelo inesperado trabalho de equipa – raptores e raptados, com paus e pedras, a colaborar na caça ao réptil que os olhava, indistintamente, como eventuais presas. A união deu bom resultado. Quando mataram a cobra à paulada, festejaram todos.

Na segunda-feira, primeiro dia completo de cativeiro, ficaram estabelecidas as regras. O «major» explicou-lhes que podiam conversar em voz baixa e que podiam jogar às cartas com os dois baralhos que os colombianos lhes deram. Ficariam soltos, desde que cumprissem as ordens que recebiam – se desobedecessem ou «ficassem bravos», seriam amarrados. Havia um perímetro mais ou menos delimitado por árvores, fora do qual só podiam sair, acompanhados, para fazer as suas necessidades.

Embora os sequestradores andassem sempre com uma arma bem visível, davam-lhes alguma liberdade de movimentos. Se António e Carlos não tentaram fugir, não foi por falta de oportunidade, foi por medo das consequências. «Eles logo nessa segunda-feira disseram: ‘Vocês podem tentar fugir, mas nós sabemos onde é a vossa casa e podem ter a certeza de que chegamos lá antes de vocês. Quem sofre é a vossa família’», recorda António. Por outro lado, tanto quanto conseguiam imaginar, as hipóteses de uma fuga bem sucedida eram remotas: «Nós não sabíamos onde estávamos, eles é que conheciam o terreno», lembra Carlos.

Nessa segunda-feira a família soube da sorte dos dois portugueses. Desde a hora de almoço de domingo que temiam o pior. Os dois filhos mais velhos de António, Danilo e Duarte, que o ajudam nos negócios de Morón, viram o pai e o tio a sair, com a promessa de que voltariam daí a uma hora. Primeiro, o atraso, e depois a ausência, fizeram-nos supor um assalto ou, pior, um rapto – duas suposições relativamente óbvias para quem vive na Venezuela.

Tiveram a certeza quando um homem com sotaque colombiano telefonou para o talho e apanhou desprevenido o encarregado da loja: «Conhece o senhor António Gouveia? Ele está sequestrado com o cunhado, Carlos Abreu.» Sem saber o que responder, o homem passou o telefone a Duarte, o filho mais velho de António. Foi ele quem ouviu as duas condições para a libertação do pai e do tio: o pagamento de mil milhões de bolívares (cerca de 370 mil euros, ou 74 mil contos) e a proibição de chamar a polícia, sob pena de os dois homens serem mortos. Duarte, um rapaz de 19 anos, mais alto que o pai, com o ar de quem há-de ter o mundo todo, só repetia que sim. Quando desligou, informou toda a gente que se tinha juntado à sua volta: «Sequestraram o papá.»

Por muito mau que fosse viver à mercê das intempéries, dormir desabrigado numa rede, sentir a todo o tempo a pressão das 9mm e da Uzi, não saber o que se passava para além de um muro de árvores e não ter a certeza de estar vivo no dia seguinte, nada era pior do que as melgas e a comida. As melgas eram como uma praga bíblica que os rondava de dia e de noite, e que atacava com fúria a cada pôr-do-sol. Vestidos só com a roupa leve com que tinham saído de casa num dia de calor, de camisa de manga curta, sem casacos, nem camisolas, nem mantas que os protegessem, eram pasto para os insectos. Produtos repelentes ou pomadas para aliviar o ardor eram luxos impensáveis no meio do mato. «Ficámos todos vermelhos, todos picados», lembra Carlos. Com o tempo, habituaram-se. Deixaram de enxotar os insectos, porque deixaram de os sentir.

Só nunca se habituaram à comida que lhes serviam. No local onde montaram acampamento, tinham à sua espera, para além das redes onde dormiam e dos plásticos que os abrigavam da chuva, um pequeno fogão de campismo de dois bicos, dois tachos, pratos, talheres e mantimentos – arroz, massa, azeite, sardinha enlatada, leite em pó, café. A água era recolhida numa nascente a mais de meia hora de distância.

Na noite em que chegaram, os colombianos serviram-lhes uma mistela de arroz e sardinhas em que nenhum tocou. «Nem os cachorros comiam aquilo», conta Carlos, enojado. «No outro dia comi, porque tinha que comer. Mas depois fui logo a correr para o meio do mato. Não sei se me está a perceber… Sempre que comíamos, íamos a correr para a floresta.»

No início do sequestro, António passou quase sem comer – bastava-lhe um bocado de pão. É um homem frugal e está habituado a refeições incertas. Nos dias em que sai de casa às cinco da manhã para negociar gado, bebe um café com açúcar e é capaz de ficar até as cinco, seis da tarde sem se lembrar de comida. Quando se acabou o pão, arriscou as sardinhas em lata – mas depois dessa experiência, decidiu comer só arroz e massa. Durante os dias que passou sequestrado perdeu 10 quilos.

No fim da segunda semana houve uma refeição de luxo. O «major» foi substituído por outro guarda, que chegou com mantimentos e nesse dia comeram carne. Cozida, para não fazer fumo e não lançar odores. Essa era uma das preocupações constantes dos sequestradores – não produzir fumos nem cheiros que pudessem denunciar a sua posição.

Os dias acabavam todos iguais, embora trouxessem sempre a esperança de novidades. Ao nascer do sol já os cunhados estavam acordados, pois mal tinham dormido, e passavam as horas no seu canto, a jogar com as cartas emprestadas. Após duas semanas, os ouros, os paus, as copas e as espadas começaram a desaparecer, de tanto uso que tinham, de manhã à noite. Só nos últimos dias de cativeiro os guardas se juntaram ao jogo – aprenderam a bisca e o cassino, mas nessa guerra não davam luta.

O único contacto com o mundo que estava para além da vegetação cerrada eram os telefonemas que duas vezes por semana os seus vigilantes faziam para a Colômbia. Nunca os deixaram falar com a família e não tinham sequer um rádio para ouvir música ou notícias.

O corte com o mundo causava-lhes aflição. Na quarta-feira, 5, lembraram-se que a selecção portuguesa de futebol jogava com a França. Depois de tanto que sofreram, na véspera do sequestro, com o jogo entre Portugal e a Inglaterra, pediram aos sequestradores notícias do Mundial, para saber se Figo e Cristiano tinham conseguido chegar à final. Mas os colombianos ou não sabiam ou não lhes queriam dar mais esse desgosto. Quando chegou o substituto do «major», mais de uma semana depois, voltaram a perguntar pelo desempenho de Portugal, mas continuaram sem saber.

No dia 18, uma terça-feira, António acordou do sono incerto por volta das cinco da manhã, com cheiro de café acabado de fazer. Não era o odor difuso dos outros dias, de café aguado, mas um cheiro intenso, como se a bebida fumegasse mesmo ao pé do seu nariz. Quando conseguiu ver alguma coisa com a pouca luz da madrugada, percebeu que lhe estavam a levar café à rede, como se fosse um pequeno-almoço na cama. Era a sua prenda de aniversário. Nesse dia António Gouveia celebrava 47 anos. Em vez da festa com os amigos, bem regada a cerveja gelada, como fazia todos os anos, teve direito a um café.

Ao fim de três semanas a recolher dinheiro – das poupanças da família e de amigos – os Gouveia tinham metade do valor exigido pelos sequestradores. Adelino, cunhado e ex-sócio de António que foi interlocutor em alguns dos telefonemas recebidos da Colômbia, propôs pagar um resgate de 500 milhões de bolívares. Do outro lado da linha, uma voz masculina aceitou a proposta e deu as indicações para o pagamento – um familiar devia levar o dinheiro para Cúcuta, a quinta maior cidade da Colômbia, localizada perto da fronteira com a Venezuela, num planalto da cordilheira oriental dos Andes colombianos.

Restava decidir quem havia de fazer a entrega. Adelino recusou-se a ir. Um irmão de António que vive em San Filipe, a cem quilómetros de Puerto Cabello, também declinou a missão. Só Duarte e Danilo estavam dispostos a arriscar-se pelo pai.

Danilo, de 18 anos, nove meses mais novo que o irmão, acabou por ser o eleito. É um rapaz magro e alto, de rosto ossudo, aparelho nos dentes e cabelo desarrumado com gel, que sai à mãe no aspecto esguio e no jeito ponderado e cuidadoso com as palavras. Foi escolhido por ter o sangue frio que falta ao irmão mais velho, rapaz de se exaltar com pouco, mais parecido com o feitio paterno.

Acompanhado por um funcionário do pai, Danilo fez centenas de quilómetros até Cúcuta com 500 milhões de bolívares escondidos em várias partes do carro – nos assentos, nos forros das portas, na bagageira. Não podiam correr o risco de ser parados por assaltantes ou – o que podia dar no mesmo – pela polícia. Quando chegou ao local combinado, transferiram o dinheiro para uma mochila e o rapaz ficou por sua conta, a cumprir as indicações que lhe davam por telemóvel. Acabou por ser levado para um acampamento parecido com aquele onde estavam António e Carlos.

Entregou os 500 milhões, mas a sua aventura ainda só estava no início. Ouviu um dos homens telefonar para Puerto Cabello: exigia a outra metade do resgate e dava aos Gouveia a possibilidade de escolher quem ficaria como garantia do pagamento – ou continuavam sequestrados António e Carlos, ou eram substituídos por Danilo.

Reunida a família em casa, Isabel e Duarte tomaram a decisão que mais lhes custou: propuseram que fossem libertados os dois homens mais velhos, que teriam mais hipóteses de conseguir empréstimo para os 500 milhões que faltavam.

Ao início da noite de 28 de Julho, António e Carlos receberam os documentos que os sequestradores lhes tinham confiscado 26 dias antes. Devolveram-lhes tudo menos um telemóvel, com o qual se tinham entretido a tirar fotografias, «recuerdos» que faziam questão de levar para a Colômbia.

Quando chegaram a casa de Carlos, ainda não eram oito da manhã do dia seguinte, tiveram que bater à porta, pois não tinham chaves. A celebração do reencontro durou pouco tempo: António ficou a saber pela cunhada que a sua liberdade se conseguira em troca da liberdade do filho. «Pensei que aquilo tinha acabado e estava outra vez a começar.»

António demorou dez dias a conseguir os 500 milhões de bolívares para pagar o resgate de Danilo. «Devo dinheiro a umas vinte pessoas e ao banco, que me emprestou a parte maior. Até um árabe que eu conheço dos negócios me emprestou dinheiro – e olhe que eles nunca emprestam nada a ninguém», conta António, orgulhoso por ter tão bom crédito na cidade.

O filho estava sequestrado há 13 dias quando o pai o foi buscar à Colômbia, fazendo com um amigo o mesmo percurso que o rapaz tinha feito duas semanas antes.

Quando voltou a casa, a sua primeira tentação foi voltar à Madeira e refazer a vida em Ponta Delgada, no Norte da ilha, onde vive a sua mãe e a parte da família que resistiu a emigrar. Se vendesse o património que juntou ao longo de 29 anos na Venezuela, poderia pagar o que deve, mas teria que refazer a sua vida, em Portugal, com quase nada. «Se eu não devesse tanto dinheiro aqui, vendia o que tenho e ia-me embora para a Madeira. Mas depois, lá, ia viver com o quê?»

A fazenda, que ficou deserta quando António vendeu todo o gado que tinha para financiar o resgate do filho, começa aos poucos a repovoar-se de vacas. E a cabeça do madeirense está cheia de datas e de contas, numa ginástica permanente para pagar os empréstimos de curto prazo, alguns dos quais venceram no final de Setembro. «Peço emprestado a umas pessoas para pagar a outras», explica. À excepção do dinheiro que pediu ao banco, todos os outros empréstimos dependem apenas da palavra dada, sem papéis assinados. «Foram pessoas que confiaram em mim. É uma questão de honra.»

Rui Monteiro, o cônsul de Portugal em Valência, já procurou a família três vezes em Puerto Cabello para saber se precisam de assistência consular. Na primeira visita, durante o sequestro, os filhos de António negaram que este tivesse sido raptado, com medo que o representante português reportasse o caso às autoridades. Nas vezes seguintes, desencontraram-se. António não tem pressa de falar com o cônsul, que nunca lhe dirá o que o emigrante gostaria de ouvir. É um homem pragmático: «Se ele dissesse que me davam uma casa na Madeira, ou um negócio lá para eu começar outra vez… Mas o Governo português não vai fazer isso. Por isso, até ver, fico por aqui. Tenho que trabalhar para pagar o que devo a quem me ajudou.»

NOTA: Os nomes dos sequestrados e dos seus familiares foram alterados, a pedido dos próprios.